Mais arte e menos plantas-de-escritório

por Ricardo Guimarães
Trip #256

”Trinta anos atrás, a ideia era ir em busca do ar livre. Hoje acho que é libertar o ar que circula no dia a dia do trabalho”

Caro Paulo,

Estou chegando da exposição O triunfo da cor, sobre o pós-impressionismo, no CCBB daqui de São Paulo. Imperdível!

Começo esta coluna sobre a vida ao ar livre ainda encantado com a beleza das obras da exposição e superestimulado pelo movimento de libertação das cores que não deviam mais estar a serviço de copiar a realidade, mas sim de expressar a intenção do artista.

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Para escrever, estou sentado no meu escritório aqui em casa que fica num ponto alto do Jardim Paulistano, de onde vejo as copas do outono de sibipirunas, palmeiras, seringueiras, paineiras, espatódeas, ipês, paus-brancos, paus-brasil, paus-ferro, paus-mulato, plátanos… linda paisagem de plantas que vivem ao ar livre e não no ar-condicionado.

A natureza é tão vigorosa e cheia de energia que acho que foi por isso que nunca permiti que colocassem plantas vivas nos escritórios em que eu tinha poder para não permitir.

Flores cortadas, folhas e galhos secos, tudo bem. Mas planta que foi feita para viver no chão, no ar livre, não. Mesmo que coloquem num vaso bom, com terra boa e alguém cuidando, não fica legal. Por melhor que as plantas estejam, a mensagem que “plantas-de-escritório” passam é que estariam melhor em outro lugar, no chão, no tempo, no ar livre, mas não no ar-condicionado.

Não que eu tenha pena das plantas. Não sou do tipo. O que me incomoda é o significado da sua falta de viço e de vitalidade que eu comparo à falta de viço e de vitalidade das pessoas que trabalham nesses escritórios enfeitados com “plantas-de-escritório”.

É como se a alma da planta e a alma das pessoas estivessem aprisionadas naquele lugar, tendo que obedecer a regras e rituais artificiais que sufocam suas verdadeiras identidades. “Isso não é vida, isso não é arte!”, diriam Matisse, Gauguin, Cézanne, Van Gogh e toda a turma que se rebelou contra a academia e a boa arte da época.

Com certeza eles não recomendariam ir para o ar livre mas diriam para as pessoas fazerem uma revolução que mudasse o escritório, despertando a alma do lugar, a alma das pessoas e até das plantas, porque eles acreditavam que plantas têm alma... Foi o que eles fizeram e mudaram a história da arte e da humanidade, pelo menos da humanidade que vive nesse lado do planeta. Trinta anos atrás, quando nossa Trip começou, a ideia era ir em busca do ar livre. Hoje acho que a ideia é libertar o ar que circula no dia a dia do trabalho, nos escritórios.

Talvez com mais arte e menos “plantas-de-escritório”.

O sucesso no YouTube do vídeo que fiz, Contexto de mundo (bit.ly/arlivre_trip), fala de sintomas desta época que está pronta para esta revolução.

Abraço do amigo feliz de estar junto nesta jornada,
Ricardo

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