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Querida amiga

É evidente que me julgava preparado

em 10 de dezembro de 2007

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Quando jovem a paixão por emoções fortes me dominava. Era a droga mais pesada que injetava na mente. As garotas com as quais me relacionava eram sempre piores que eu. As melhores, além de não aceitarem, me pareciam monótonas. Tinha uma queda por aquelas que se comportavam de modo mais louco. Não sei se porque eram mais interessantes ou porque cediam mais fácil. Vivi tempestades emocionais. As relações eram autênticas, explosivas e até perigosas; danosas à saúde física e mental. E era exatamente assim que eu achava legal.
Fui aprender a amar na prisão. Quando não havia porque me querer e continuaram a me procurar, então acreditei em algo maior que aquela fantasia urbana. Se me perguntarem se amei, a resposta é: acho que sim. Se amar constrói e faz crescer, expandir e ser, então, com certeza, amei e fui amado. Porque confesso, com todas as letras e palavras: às mulheres que estiveram comigo e me amaram credito a força que me fez resistir à estupidificação prisional. Foram elas também que combateram a alienação a que estive submetido, fornecendo livros, notícias e comunicação. Claro, me deram mais ainda, além de seus corpos sedentos por saciar e apaziguar. Dedicação e muito amor, mas, principalmente, me ensinaram respeito. Respeito pelo coração feminino, sempre pronto a socorrer e amparar. A dor e o sofrimento sempre cediam aos seus apelos, às suas orações solitárias.
Ao sair estava amando. Sim porque estava muito bem comigo mesmo. Cheio de esperanças e certezas. Faria e aconteceria: idealizava. E tive campo para isso, mas não agüentei. As cidades periféricas à Cidade Maravilhosa são pobres de fato, poucas são as opções. Mas os meus passos são mais tortuosos e inquietantes, “passageiro da tormenta” como queria o vocalista do The Doors. E, São Paulo, sem dúvida, é minha cidade. Aqui destruí, roubei e matei e cá estou para reconstruir e fazer a minha parte, aquela que não fiz no passado. O pouco que tenho conseguido tem me custado muito esforço e luta. Nada é fácil como parecia a princípio. Voltei para São Paulo solteiro, como filhos a conquistar e muitas responsabilidades. É evidente que me julgava preparado para os embates que se sequenciariam
.
A vida pulsava, tudo ardia contra o coração. A cada instante erguia-me de mim mesmo e sempre houve quem me quisesse. Há pessoas que mesmo não estando, nunca me faltaram. Aprendi a gostar de muita gente. Conheci muitas pessoas por conta de minha coluna na revista Trip. Vivi momentos gloriosos lançando livros; participando de filme; sendo entrevistado em vários programas de teve, rádio, jornais, revistas; participando de júris de concursos literários; lançando guia para o egresso; aplicando oficinas literárias; fazendo palestras; e outros prazeres. Agora vou ter a estréia de minha primeira peça teatral e lançarei mais livros já prontos e em editoras. A luta por me tornar escritor continua.
A meu lado, depois de algum tempo, tenho uma mulher. Discreta, faz o que chamo de “serviço chato” e que detesto fazer. Ela se encarrega de meus impostos, agenda, documentação; burocracias em geral. Fica de olho até em minha saúde. Tenta ser estrela presente e cuidar de mim. Quase ninguém a percebe e nem sabe dela, mas tem sido base de sustentação de meu coração. Estava sentindo falta disso. De querer fazer alguém feliz. É com suavidade que a recebo: seja bem vinda querida amiga..

* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br

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