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Quem espera sempre alcança?

Aos 53 anos, nosso colunista vai pela 1ª vez ao teatro e assiste Esperando Godot

em 20 de fevereiro de 2006

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Dias atrás fui convidado para ir ao Sesc Belenzinho assistir ao espetáculo Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Em meus 53 anos de vida nunca havia colocado os pés num teatro. Depois que saí da prisão até ensaiei várias vezes, mas como jamais recebi um convite posterguei a idéia.

Dessa vez não havia como me esquivar. Na última hora pintou um receio estranho e quase declinei. Atrás das grades prometi para mim mesmo que tão logo saísse assistiria a todos os espetáculos que me fossem possíveis. Mas não posso negar: teatro sempre me soou como sinônimo de angústia, drama passional e tristeza palpável. E no Sesc Belenzinho não foi diferente. Aquele espaço redondo, sombrio, de paredes descascadas, me causava mal-estar. Parecia ambiente de tortura da Inquisição, Deic ou Dops. Numa palavra, fantasmagórico.

Um toco de árvore seca, com algumas pontas em forma de sei lá o que, remetia a desertos que pareciam estrangular o tempo presente. Tudo é perfeito em nada ser perfeito. Tudo se preenche de tensão e a inquietude parece ser a temática mestra do grande Beckett. O tempo é a grande questão. Escorrega arrastando-se longamente nas falas dos personagens. O desconforto impregna fortemente, as cadeiras tornam-se pequenas e o público vai se contorcendo nos assentos.

Tudo parece danificado pela duração do tempo. Nada muda, tudo é incomodamente (e propositalmente?) pobre de movimentos. Imagino que o autor queira nos mostrar que estamos desamparados, e que e todos os ideais estão em profundo desacordo com as exigências da existência.

Aquele é quase um universo de Genet, aquela mesma languidez com relação ao tempo, no entanto dessexualizada. Não há sexo em momento algum. Senão por que quatro mulheres interpretando papéis que originalmente seriam de quatro homens? Para quebrar o que já está estilhaçado? Não creio que aqueles personagens sejam o gênero humano. Não nos vemos mendigos e muito menos assim tão ensandecidos.

O calor, talvez proposital, o sufoco daquela sala redonda sem ventilação, embora a ópera de fundo, tonteavam. Talvez estivéssemos colocando nos sapatos a culpa dos pés, mas aquele clima de que sempre é tarde demais me deprimia. "Do nada da vida para o nada da morte", como quer o irlandês.

Um dos protagonistas, Estragão, afirma, em certo momento, "Deus se livra de mim". Eu sei o do que ele está falando. O tédio, a rotina esmagadora e aquela espera sem fim por um Godot que, fluídico, nem se imagina quem, como ou o que seja. Apenas sente-se que tudo caminha decisivamente para um silêncio onde não há esperanças. A inutilidade de tudo quase pende em gotas. O vazio de cada um vem áspero, doentio e sujo, tornando a peça quase intolerável. A vontade de que acabe logo e possamos sair dali é instintiva. O ambiente fica pesado, quase dolorido.

As encenações são tão exageradas que você sai do teatro num abismo de questionamentos. Quase todos continuam em silêncio, após as palmas. Não senti vontade de aplaudir e não o fiz. Na mente a peça continuava e eu, feito uma besta, seguia a esperar esse tal Godot. Esperando o toco virar árvore, como a vida voltando-se a si mesma, às suas vísceras.

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