Psicopatologia do Ragatanga
Dançando entre a jovem elite intelectual, Pereira descobre que o mundo está perdido
Aserejé, ja deje tejebe tu de jebe re Seibi uno uba amajabi ande bugui ande buidi dipí.
Refrão de ‘Ragatanga’, sucesso do grupo Rouge
Só tenho um paletó. Me cai bem, admito sem modéstia. Foi comprado em prestações, sete se não me engano, há três anos. Desde que deixei o emprego que me exigia o traje, só usei o conjunto preto três vezes. Dois casamentos e uma festa à fantasia. Há poucas semanas o vesti pela última vez, em uma formatura, combinando sobriamente camisa branca, gravata preta e sapatos bicolores. Em casa, em frente ao espelho, de cabelo recém-cortado, apertando o nó no pescoço, escuto do Luís (quem mais seria?):
– Tá ótimo, nem parece você.
– Obrigado. E vai tomar no cu.
Luís, Felipe Nelson, Gregório Sambuca, Turco e eu éramos a banda contratada para a festa dos formandos de 2002 da psicologia da USP. (Saibam, meus caros sete leitores, além de loser sou músico. Redundante, não?). Trajados como yuppies, carregávamos amplificadores de 40 quilos como estivadores para trabalhar de graça como palhaços ingênuos e escutar petulâncias no gerúndio da produtora da festa.
– Vocês não podem estar entrando aqui sem convite. Podem estar me acompanhando para fora? – dizia a moça embebida em colônia, piscando devagar, com o ar superior que uma prancheta dá às almas sebosas.
– Não. A gente veio trabalhar. E dá licença que essa caixa está detonando minhas costas. – respondia Felipe Nelson, curvado pelas arrobas do combo para contrabaixo.
– Não pode. Vocês vão ter que estar saindo. Só com convite para ficar na festa.
– Que festa, minha filha? Nem os garçons chegaram.
Após trinta minutos de pequenas, mas agudas, humilhações, conseguimos os tais convites, entregamos sorrindo à produção, subimos ao palco para montar os equipamentos. Sentados na coxia, chega a primeira e única regalia aos músicos – canapés e guaraná. Já na primeira dentada senti o amargo gosto da pobreza disfarçada. Travestido de petit-four, era pão de forma amanhecido pincelado com presuntada. De segunda, que fique claro. Mas, justiça seja feita, o refrigerante era de primeira, guaraná Antártica gelado. Mais meia hora e voltamos ao palco. Na pista circundada por lírios e petúnias de plástico brilhante, quinze ou vinte psicólogos recém-formados viviam o momento máximo da glória acadêmica – a formatura. E sob os holofotes amarelos, antes mesmo do primeiro acorde, debaixo dos paletós elegantes, o suor nos encharcava os sovacos em pizzas inadmissíveis até em rodas de macumba. Logo, em nome da estética e do interesse no sexo oposto, estávamos os cinco condenados a passar o resto da noite dentro dos jaquetões, tolerando as gotas que escorriam pelo corpo e pelas camisas, rezando para que o odor ficasse latente debaixo dos blazers.
– 1… 2… 1… 2… 3… 4 – dava o tempo Luís com tapinhas em seu contrabaixo. Começa o show.
Ninguém dança, ninguém nos olha. Todos que chegam tratam de procurar seus colegas e abraçar os parentes. O som era bom, garanto, mas não o suficiente para os ouvidos da elite cultural máxima, os mais jovens doutores da alma humana, do melhor celeiro intelectual das Américas pobres – a USP. Não havia palmas, nada. Nem vaias – o mínimo de consideração que se dá a um pretenso artista. Senti-me um tosco, um subqualquer-coisa, tocando música inferior. Em pouco tempo a vergonha e a vontade de deixar o palco era maior do que as manchas de suor. Diante das hordas psicológicas eu queria um divã para confessar: ‘- Eu não valho nada. Me cure, doutor.’
Mas uma visão me acomete. Vestida toda de branco, luminosa, entra pelo saguão uma moça. Uma aparição. Atravessa o salão sem dizer um oi aos presentes. Atrai olhares por todo o caminho e pára diante do palco. Dança até o final do show e me encara quase sorrindo por vezes. Minha cabeça em festa: ‘Fico bem no paletó, o Luís tem razão, nem parece eu. Ah, como a alma é vadia’.
Acabamos o show sem palmas. Não faziam falta. Ao lado do palco nos esperava a garota de olhos grandes. Mal desci os degraus e ouço dela:
– Pereira, como você está bonito.
Vitória. A moça linda me conhecia. Me achou bonito.
– Lembra de mim? Sou a Cristina, do colégio.
Lembrei. Era Cristina, da quinta e sexta séries. Era então magra, tímida. Me disseram certa vez que gostava de mim. Desprezei-a. Jamais cogitei, antes do colegial, em me envolver com garotas de aparelho.
Por toda a noite bebemos juntos, rimos dos canapés baratos e lá pelas tantas confessei até a pizza das axilas. Ela achou uma graça doida, virava o rosto para rir, mas não tirava os olhos dos meus. Cheirava bem. Cristina estava se formando psicóloga como quase todos por ali. Conversa vai, vodca vem. Falando de quindins, cães e família, confessei que eu era neurótico há anos, desde a amamentação. Em dois segundos Cristina me consolou a aflição de duas décadas:
– Pereira, todo mundo é neurótico. Desde a amamentação.
Ferveu em minh`alma, como há anos não acontecia, a fome pela terapia. Minha cabeça não diplomada jamais compreenderia os recantos sutis das neuroses, das aflições ocultas e dos sintomas que me fazem desde a tenra infância ser assinalado como loser. E fomos dançar. Foi quando a pobreza dos canapés surgiu em todo o salão.
No palco, o DJ. Um pobre coitado. Não, minto. Tinha autoconfiança demais para ser um pobre coitado. Era tosco pra caralho mesmo. Com um case de mais de 200 CDs piratas, alternava hits melequentos das últimas décadas com sua locução mais deprimente do que a do DJ Zé Pedro. Clichês do rock, mais clichês da Jovem Guarda, drum`n`bass de festas de paróquia e, finalmente, axé. Nem a vodca me segurava na pista, e Cristina não parava de dançar. Eu, odiando o som, me condenava por preconceito, vendo a sábia amiga, linda, requebrando em qualquer som. O som é ruim, ela sabe. Sabe, mas sublima – pensava, crendo que ela tinha tanto domínio da alma que se permitia a futilidade, o vexame. Ela e todos os colegas, todos os futuros grandes psicólogos. Me senti pequeno, mas feliz por ser olhado com lascívia por tão nobre criatura. Mas não seria eu mesmo se a noite melhorasse em seguida. O DJ, sentindo a temperatura da pista, joga nas caixas o hit saturnino número 1 dos últimos 8 meses. ‘Ragatanga’, das meninas do grupo Rouge.
Meus caros leitores, todos os sete, já disse que sou músico, e para mim som é coisa séria. Desde que vi o quinteto gerado do programa Pop Stars dançando e cantando o tal do ragatanga, enxerguei o produto industrial mais covarde e alienante desde o ópio britânico. Notem. Ao contrário das danças e letras do axé, simples o suficiente para qualquer aleijado disléxico decorar já na primeira vista, ‘Ragatanga’ requer estudo. A letra é mais incompreensível que esperanto e a coreografia mais atrapalhada que o minueto. Tente ler o refrão: ‘Aserejé, ja deje tejebe tu de jebe re Seibi uno uba amajabi ande bugui ande buidi dipí’. Tente de novo… E a dança? Gira para um lado, bote certa mão nos quadris, frenetize as mãos, umas sobre as outras. Gire os braços. Depois de sete revoluções e meia, coloque uma mão na testa (com a palma para frente) e outra na nuca. Os pés e os joelhos seguem em movimentos espasmódicos e as nádegas sacolejam sincopadamente. Isso é só o começo… Alguém que seja capaz de cantar e dançar (principalmente simultâneamente) tal composição precisa de prática. Muita prática. Por isso chamo de produto covarde e alienante. Ou alguém compra o disco e grava os programas de auditório para treinar em casa, ou vê muita, muita TV dançando defronte a tela. Mal compreendo o interesse das crianças, acho um mistério profundo que adolescentes se dediquem ao ragatanga e adultos que saibam tudo de cor só não são débeis pois têm uma memória primorosa. Pois, pasmem – dezenas de psicólogos sabiam. Homens e mulheres formados pela USP, os futuros analistas da sociedade brasileira, estudaram o ragatanga. Nada de Freud, nada de Lacan, nem mesmo um Junguizinho nos fins de semana. E sim o ragatanga. No refrão, coro. Meus olhos pairavam lentos na pista de dança.
Bêbado e estarrecido, me imaginei no divã de algum deles no futuro. Seria alguém da USP, faria questão. ‘Dr., papai não entendia meus desenhos. Acho que isso é importante… Mamãe me dava mingau frio, etc.’ E o doutor, com olhar inteligente, da caneta no canto da boca, repassando na mente: Aserejé, ja deje tejebe tu de jebaraí re… perái… tá certo isso? ‘Aserejé, ja deje tejebe tu de jebe re… é isso. Lembrei’. Não! Nunca! Se a elite total da pisiquê sabe o ragatanga, eu não quero análise. Não vale o risco. Não me senti superior, na verdade, mas menos loser, sem dúvida. Se eu não me entendo, não é um dedicado à perda de tempo absoluta que vai entender. Aposto um dedo que quem dançava por ali gastou menos tempo grifando Reich, ou fazendo palavras cruzadas, do que revendo e analisando o ragatanga. É tudo loser no mundo, e mesmo assim me senti mais só. Até porque, Cristina também sabia a coreografia. Me achei bem menos neurótico. Triste, mas quase curado. Na hora tirei o paletó e deixei a enorme circunferência de suor exposta. Eles que entendam meu sovaco!
Pereira é loser, mas que se dane!
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