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Promessas

Nosso colunista reflete sobre o governo Lula

Por Redação

em 22 de dezembro de 2005

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Eu tinha tanta paixão… Nas três primeiras vezes que acompanhei o Lula se candidatando a presidente da República, vibrei imensamente. Era o Lula, um amigo muito íntimo. Meu coração não continha esperanças. Aliás, sempre fui realista, mesmo na última vez em que acabou ganhando. Não acreditava que um homem simples, trabalhador, com um dos passados de luta mais nobres e relevantes de nosso país, pudesse chegar ao que chegou. Quando senti que realmente a eleição estava ganha, já comecei a temer.

Na prisão, aprendi a não prometer a ninguém sobre mim mesmo. Jamais aceitei que se coloquem esperanças sobre meus ombros. A única coisa que posso prometer sobre mim mesmo, e ai é de todo coração, é que serei fiel a mim mesmo e buscarei não me trair. Claro, mesmo entendendo o mundo como relativo, não concordo com os pós-modernos quando estes determinam que não existe mais nada absoluto em termos de tempo, espaço e sobretudo de valores. Ainda acredito na dignidade da pessoa.

Não sabia por que, mas intuía que eram muitas as promessas para que fossem cumpridas. Acreditei no programa Fome Zero. Conheço a generosidade do povo brasileiro. Achei que pelo menos a um mínimo se chegaria. Estava preso, torcendo fervorosamente para que algumas esperanças desse povo se concretizassem. Mas a realidade e a supra-realidade estavam conectadas e a agitação, brutal e secreta, já caminhava para o previsto.

Na prisão discuti com vários companheiros que duvidavam da seriedade e honestidade de nosso presidente e sua equipe. As acusações e cobranças selecionavam no dicionário as palavras mais duras. Sempre acreditei que, se quisesse de verdade, ainda poderia ser feliz. Mas não dava para entender que as contingências e a correlação de forças mudassem de uma hora para outra. Tinha meus dois olhos cheios de histórias fotografadas. Não iria repetir a decepção e a imensa tristeza com o presidente anterior.

As pessoas que possuem a economia da nação nas mãos não iriam mudar de uma hora para a outra. Pensava que teríamos, pelo menos, um embate, uma medida de forças. Um passo significativo, gestos generosos e indicativos. Não esperava poesia. Imaginava um governo de muitas brigas, alguma reforma e brisa fresca a envolver tudo em gestos fluviais. Queria ver aquele homem rude, do povo, esbravejar nas tribunas sobre a necessidade de não faltar nada a ninguém. Ver aquele olhar doce, sofrido, aquela voz rouca, a fazer sinais, mesmo que a olhos ausentes.

Tremi pelo país. Pensei, excitado, os donos do poder não aceitariam. Os ares de Brasília seriam estremecidos. A vida latejaria e pulsaria resolutamente. A camada acinzentada que descolore e descasca o rosto dos desvalidos da nação seria esfoliada. A história engendraria e as pessoas já não precisariam mais se olhar nos espelhos para se sentirem existentes.

E fiquei na prisão, tentando acompanhar o desenrolar dos fatos. Pena que os sonhos são de neve e os corações, de pedra. Os grilos enlouqueciam de cantar enquanto a noite, como uma mancha escurecida, descia, sobre todas as esperanças. Como as lágrimas, as dúvidas permaneceram ao sol sem jamais secarem. E vieram as comédias, os micos já esperados. Todos estavam aprendendo e era preciso dar o desconto. Tentei ser razoável. Com o tempo precisei ser mais que razoável. E continuei discutindo, defendendo, explicando, tentando juntar as cores de um arco-íris que se desmanchava no ar.

Eu agora estava andando nas ruas, lendo tudo ao meu redor, avidamente. Vi toda aquela gente como que apagada, jogada pelas praças da cidade. Desvalidos, mendigos, inempregáveis; crianças maltrapilhas em todos os faróis a vender seus ridículos "shows" de malabarismo e chicletes. As favelas acomodando-se em bairros tortuosos, sem infra-estrutura, e os adolescentes das periferias fazendo o crime, como opção de vida. Milhões de pessoas desempregadas, as cidades e bairros centrais tomados pela economia informal dos camelôs (somam mais de 720 mil, atualmente).

Continuei discutindo com aqueles que estavam contra. Como nosso presidente poderia governar o país, se não conjugasse forças, mesmo aquelas que sempre foram historicamente contra o povo? Somente o PT não faria face às forças contrárias. Eles detêm as indústria, o comércio, os bancos, as terras, as articulações e a capacidade de ir empurrando tudo para a frente sem a consciência de olhar para trás.

Como viver sem eles? Mais fácil eles viverem sem nós, já que tudo o que existe, há muito, lhes pertence. São brasileiros também. Para o Brasil deles, é bem verdade, mas de qualquer maneira, brasileiros. Ultimamente, talvez porque estou tendo mais acesso à informação e minha liberdade se amplia em todos os sentidos, já não consigo mais argumentar com desenvoltura. Como explicar esse tal de "mensalão"?

São necessários cerca de 70 mil votos para conseguir o diploma de Deputado Federal. São 70 mil pessoas a delegar poder a uma única pessoa. E, segundo as informações dos jornais, dezenas de deputados federais recebiam uma mesada do governo, para votar com ele. Honra não tem preço, quando tem, é sempre o mais baixo possível, já dizia pensador antigo. Aqui, era de cerca de cinco a 30 mil moedas por cabeça (sempre 30, número cabalístico, provavelmente).

Fica cada vez mais difícil, se não impossível, defender o indefensável. Ficarei no aguardo das informações. Ainda bem não tinha esperanças.

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