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Preso no mundo

Depois de 20 anos, o cineasta viajante (e vice-versa) reencontra uma boa assombração de seu passado e descobre que nem toda história tem moral

em 1 de novembro de 2006

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Em 1976 eu tinha 15 anos. O interfone tocou e o porteiro disse que tinha um sujeito estranho na portaria querendo falar comigo. Desci para ver quem era. O tal sujeito estranho tinha barba e cabelo mais comprido do que o meu. Carregava uma mochila nas costas e acabara de chegar da Bolívia no trem da morte. Meu inglês era muito pior do que o dele, mas consegui entender que ele conhecera meu primo num kibutz em Israel e estava de passagem pelo Brasil, de onde seguiria para Colômbia, Equador, Panamá e Estados Unidos.

Foi fulminante o desejo que senti de ser exatamente como ele assim que minha idade permitisse: ele era um hippie internacional, com os dois pés nas estradas, cheio de histórias incríveis para contar, aventuras vividas em lugares mágicos cujos nomes suscitavam sonhos: Nepal, Amsterdã, Marrocos, Tailândia. Na primeira semana que passamos juntos em São Paulo, minha vontade de ser como ele quando crescesse aumentou ainda mais. Ele era mais velho, sabia tocar “Stairway to Heaven” no violão, apertava baseados com destreza jamais vista e era bonitão – comeu todas as amigas que não davam para mim nem que a vaca tossisse. Me sentia tão pequeno ao seu lado que nem sequer ousava ter ciúmes ou inveja. E ele me tratava tão bem, me considerava, me escutava e dava conselhos. Era surpreendente como um quase deus como ele valorizasse a amizade de um adolescente pentelho, deprimido e cheio de espinhas na cara.

Antes de ir embora ele me pediu um favor: que eu escondesse 40 mil dólares – uma fortuna! Ele disse que tinha total confiança em mim e que dentro de alguns meses voltaria para recolher a grana.

Ele voltou, recolheu a grana e logo foi para a Bolívia. Passou várias, num constante vai-e-vem traficando drogas. Numa das vezes, chegando de Amsterdã, trouxe um álbum do King Crimson recheado de pedras de LSD. Ácido como aquele nunca tinha pintado em São Paulo – despirocou a judeuzada maluca e entrou para os anais da história do Bom Retiro. Nunca virei hippie porque a coisa logo depois saiu de moda. Mas, inspirado por aquele espírito navegante, fui morar em Nova York e depois em outros lugares. Por mais de duas décadas perdemos contato até que naquele fatídico domingo de julho em que o Brasil foi vergonhosamente eliminado da última Copa do Mundo ele me telefonou. Estava aqui em Londres.

London Calling
Esperando que ele chegasse ao restaurante onde iríamos jantar, renasceu em mim o adolescente inseguro. Ainda depois de tanto tempo, a memória dele me intimidava. Pedi uma vodka e fiquei ensaiando frases de efeito, comentários profundos e considerações de cunho filosófico com os quais impressioná-lo. Não reconheci o velho gordo e careca que entrou no restaurante. Sorridente, ele veio direto para a minha mesa e nos abraçamos, comovidos. Conversamos por horas. Eu não quis perguntar se ele ainda estava no “business” e ele pareceu querer evitar o assunto.

Mas me contou que continuava a viajar vagando pelo mundo procurando sempre não se apegar a nada e a ninguém – como o personagem do Robert De Niro no filme Heat, um bandido que diz não querer nada na vida do que não possa se desvencilhar em 30 segundos. Me contou que uma vez só se apaixonara. A mulher também o amava e insistiu para que eles se casassem. Ele disse que topava, mas com duas condições: ela teria que fazer um jantar para ele e para uma amiga. Depois do jantar ele e a amiga iriam para o quarto transar enquanto ela lavava os pratos. A segunda condição seria um outro jantar na qual ela, por sua vez, convidaria um amigo. Depois do jantar ela também deveria levá-lo para o quarto. Se a relação deles sobrevivesse a tal prova, ele estava pronto para casar.

A moça resistiu ao primeiro jantar, mas logo que a amiga foi embora ela começou a implorar que ele revogasse a segunda condição. Ela não queria transar com nenhum outro homem. Naquela mesma noite, ele saiu de casa e nunca mais a viu. Nos abraçamos, e ele desapareceu num táxi, talvez para sempre. Como o adolescente, voltei para casa confuso, admirando a honestidade, detestando a dureza do coração e sem entender a moral da história.

*Henrique Goldman, 44, cineasta, ainda tenta dedilhar “Stairway to Heaven”. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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