Imagino que ninguém vai querer entender. Isso porque nem eu mesmo entendo, agora que já sou um homem. Mas, naquele tempo, parecia-me tudo muito lógico e compreensível. Aos oito ou nove anos de idade, eu roubava.Não sei como começou. Em casa primeiro. Depois na casa da minha madrinha.
Era fácil e isso me encorajava. As coisas que eu queria, se fosse pedir, ninguém daria. O que me davam, nunca fora suficiente. Então estava justificado. Eu roubava. As coisas existiam para serem usadas. Tudo que pertencia aos outros, só era se eu não quisesse ou não conseguisse pegar.
Os outros garotos da minha turma também roubavam. Mas nenhum deles possuía o meu otimismo. Simplesmente não acreditava que pudesse ser surpreendido pegando as coisas. Havia o medo, é claro. Mas medo e desafio eram meus motivos principais. O risco sempre fora importante. O sentimento de perigo me incentivava perigosamente.
Depois do furto já executado, o alívio era tão profundo, tão imenso, que virava prazer. A coisa roubada era um troféu cheio de importância. Perdia o valor comercial e passava a ser a medida de minha coragem. Era uma glória pessoal, eu provava o meu poder, minha individualidade.
Embora me julgasse esperto e os outros me parecessem uns bobalhões, aos poucos todos foram ficando cientes do meu péssimo hábito. Minha mãe me levou até o psicólogo. Este afirmou que eu era um garoto normal, apenas precoce. Meus olhos e mãos eram tão rápidos quanto meu pensamento.
A partir daí, estava sempre sendo vigiado. As coisas de valor eram escondidas quando eu chegava. Não havia mais espaço na família para mim. As surras se sucediam, quase que diárias. Mas, não sei por que, contra toda razão, eu insistia.
Comecei a roubar na rua. Primeiro foi no bar da esquina. Quando fui apanhado em flagrante, tomei uma surra tão grande de meu pai que me lembro até hoje do quanto doeu. Em seguida, descobri que alumínio, cobre e metais podiam ser vendidos no depósito de sucatas. Dai para a frente, tudo o que fosse desses materiais ‘ ‘nobres’ desapareciam como que por encanto. Não podia esvaziar uma casa nas imediações, que, no dia seguinte, a instalação elétrica virava sucata no depósito de ferro- velho.
Meu pai era motorista de táxi e possuía uma arma automática pequena. Contava uma vantagem enorme por conta disso. Mal sabia o quanto me instigava a roubá-la, com suas bravatas. Só não pegava porque seria o principal suspeito e a surra depois não compensaria.
Estava com dois amiguinhos quando tudo aconteceu. Na volta da escola, havia uma relojoaria que era nossa parada obrigatória. Namorávamos aquelas coisas lindas e cintilantes que estavam sempre expostas nas vitrines. Naquele dia, colocaram uma espécie de arma brilhante, dentro de uma caixinha. Era linda! Parecia com a de meu pai. Fiquei fascinado por aquele objeto cromado e brilhante.
O Joel duvidou que eu roubasse a arma. Nem pensei duas vezes. Não havia um plano. Foi instintivo. Agachei e atravessei a loja rente ao balcão. Contornei a vitrine por trás e apanhei o objeto. Voltei agachado, sem que ninguém visse. Quando cheguei à porta, corri feito louco, com meus amiguinhos atrás.
Muitos quarteirões adiante, fomos observar a arma. Era apenas um isqueiro imitando uma arma. Não fiquei decepcionado de todo. Eu dera a maior prova de coragem. Aquele era meu troféu. Fora uma grave emoção. Daquelas de dilatar as pupilas, eu estava muito contente com meu feito.
Havia escondido a pequena arma-isqueiro na minha gaveta de roupas, provisoriamente. Esse foi mais um de meus inúmeros erros. Minha mãe, que revistava minhas coisas habitualmente, achou. Com a ameaça de contar a meu pai, conseguiu a verdade. Esperei uma daquelas surras de me deixar de cama, mas ela me surpreendeu inteiramente.
Sob ameaça de me denunciar a meu pai, de quem eu tinha pavor, levou-me à loja e exigiu que eu mesmo devolvesse o isqueiro. Quase preferi a surra. Sempre fora muito tímido. Não possuía coragem para chegar ao dono da loja, como ela queria, confessar meu roubo e devolver o objeto. Meu pai vivia ameaçando. Filho dele não seria ladrão, preferia me cortar as mãos. Eu acreditava, o homem era alcoólatra e muito violento. Mas só quando pego em flagrante é que me lembrava disso.
Com enorme relutância, firmemente seguro pela mão de minha mãe, entrei na loja e me dirigi ao japonês que sabia ser o dono. Coloquei o isqueiro no balcão. Ele, curioso, reconhecendo o objeto, olhou-me, indagativo. Disse-lhe, morto de vergonha, que havia roubado e estava devolvendo. Virei as costas já para sair a mil por hora.
Minha mãe apertou firme minha mão e explicou tudo ao homem que me olhava sem acreditar. Por dentro, algo me corroía. Um sentimento jamais sentido me cortava em tiras. Era como se estivesse nu diante de uma multidão. Que desespero! O japonês foi muito gentil e compreensivo. Chegou a tentar afagar minha cabeça, e aquilo fez doer mais ainda.
Por muito tempo, pelo menos até quando durou aquela terrível sensação de mal-estar, não roubei mais nada de ninguém. Aquela vergonha, aquela dolorosa humilhação, não mais queria passar. O choque fora fortíssimo. Somente então comecei a entender que o mundo não girava a minha volta e que o que era dos outros precisava ser respeitado.
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu
-
Trip
A ressurreição de Grilo