Estive lembrando e cheguei à conclusão de que eu sempre quis ser escritor. Desde os primeiros livros que li, invejei os autores em suas habilidades em recriar a realidade por escrito. Quis sonhar como eles.
Naquele tempo as coisas aconteciam mais lenta e calmamente. Tínhamos tempo para nos imaginar em todas as situações que aconteciam ao nosso redor. As tomadas dos cinemas e o sinal das televisões tinham um intervalo maior, podíamos ser o bandido (sempre torci para o bandido e para o touro) ou o mocinho em nossa mente. Hoje tudo funciona de modo a economizar tempo. Tudo é sinal e impulso. As tomadas de cena hoje são rápidas demais para nos permitir interação com personagens, daí por que não termos mais grandes heróis. Tudo vem pronto e embalado para nosso consumo, tipo McDonald’s. Perde parte importante do sabor, mas ganha em agilidade.
Restamos nós aqui, loucos para vivenciar o prazer em ser. Tenho prazer em escrever. Em sentir uma idéia. Entender no máximo que consigo, defini-la para mim e como funciona comigo. Tento me reinventar a cada novo texto. Não suporto me repetir (embora saiba que o faço até sem o querer). Cada dia essa prática se torna mais difícil. Tudo que principia exige novos contextos, como se tudo tivesse que ser reaprendido. O aprendizado jamais termina. Aliás, se me perguntassem agora sobre a finalidade da existência, responderei tranqüilamente que é aprender.
O aprendizado jamais termina. Hoje o substantivo leitura assumiu uma amplitude que é quase uma expansão. O que antigamente chamava-se aprender, hoje é leitura. Temos a nossa leitura de mundo, o que não garante certificado de verdade em momento algum. Ler hoje é observar atentamente e para mim, num segundo momento, aprender tudo com que nossos sentidos e nossa imaginação podem abranger da existência. Entro com meus olhos no infinito e me aproprio dele para sempre. Fecho-os e enxergo o universo em mim. Se os olhos são as janelas da alma, então temos ainda outros olhos para ver por essa janela: janelas não enxergam.
Penso que meus textos me trazem as imagens mais completas, na vã tentativa de corrigir a falta de poesia e emoção dos dias todos. Gosto de poesia. Não essa dos livros. Gosto da declamada, do coração escancarada. Ou então essa das imagens que me surgem como que do nada e vão se montando da ponta de meus dedos. Queria mesmo comunicar com cada pessoa de modo perfeito que pudesse incutir em cada uma delas um pouco de afeto por mim. Egoísta? Provavelmente.
O caso é que não sou "transcendente"; "existente"; não me escondo atrás de nada. Só não posso mentir que não importa. Claro que importa, e muito. Gostaria, sinceramente, de fazer melhor. Mas como e continuar a ser eu mesmo? Para mim, viver é sobrevivência ainda. Existir é longo demais. Então me resta resistir e assim ser recíproco. Exercitei distâncias em minha reduzida cela. E tudo aconteceu com o instante, sem segundas chances. Às vezes acho que a vida repudia quem a reinicia. Mas encontrei as fendas certas no rochedo e tenho escalado até com certa facilidade. Acho que quem me lê colabora com isso. Como? Oras, gostando do que escrevo. É o fato de que tem pessoas que gostam do que escrevo que me mantém escrevendo na revista e no site.
Acho que vou formando de mim uma pessoa que escreve. Escritor, é legal ser chamado, mas uso muito pouco e sempre a contragosto essa expressão, com relação a mim. Me soa fanfarronice. Claro que nessa caminhada e com todo apoio de vocês que me lêem, me tornarei mesmo um escritor. Vai ser lindo. Mas, em me conhecendo como conheço, vou ainda inventar vários nomes para o que faço, antes de reconhecer que me tornei um escritor de fato. Mas com que prazer de ser eu mesmo assumirei essa glória!
Há pessoas que são boas com algumas coisas. Por exemplo, uns se dão muito bem como dirigentes sindicais; outros como torneiros; o que não vi até agora foi alguém se dar bem como presidente. Todos que conheci sucumbiram, de alguma forma. Eu só quero ser uma coisa: melhor do que sou. Almejo crescer. Não para que ninguém se dê conta de mim. Sei que não darão. Mas quero ser um grande conversador, um grande leitor e um grande contador de história. Em suma, um escritor.
As conjunções, parece que vão se alinhando em minha direção. Embora a vida seja tão volúvel quanto à água, também amolda-se e toma forma. Enquanto estou distante de meu ideal, vou aqui resfolegando em minha combustão interna. Reconheço que a traição, a covardia e a deslealdade têm sido uma intimidade mais estável em nossa história do que a lealdade e a fidelidade. Mas eu me atrevo a pensar que ainda terei tempo e espaço para me fazer muito diferente da perspectiva humana.
Estudo, pesquiso, leio, converso e penso muito. O conhecimento, a cultura e a educação não pesam. Muito pelo contrário. Esvaziam. Pelo menos de qualquer pretensão de ser melhor que os outros. O que o vento tem formado à minha volta, só tem me feito desejar mais. Amigos, projetos, livros, trabalho formam a melhor parte de mim mesmo. Só posso ser muito grato pela herança que a vida tem me acumulado e necessariamente humilde diante de toda essa proteção abençoada.
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