Quase quatro da matina. Não tenho certeza, mas acho que foi o dedo de Deus que nos colocou no rumo certo por mais de 20 quilômetros de estrada de terra depois de atravessar boa parte da periferia em direção ao litoral da cidade de São Paulo, a represa Billings. Nenhuma alma viva, nenhum poste, bifurcações duvidosas e lama. De repente surgiram os carros à nossa frente, parados. E em questão de segundos chegaram os flanelinhas e os cambistas. Atrás de nós uma fila de carros parava. Não havia retorno possível. A estrada de uma só pista, lotada, era também o único caminho de volta para São Paulo. E defronte à igreja do Bororé, entre crianças, moradores dos sítios, malandros, carros e jovens prontos para a balada, se ouvem três ou quatro tiros.
Tão estranho ? poucos reagiram abaixando a cabeça. Alguns riam dos estampidos, mas a maioria nem se abalou. Olharam ao redor, procurando o dono da pistola, e já voltaram ao que faziam antes. Uma garota, duvido que tivesse 18 anos, apressava as amigas que hesitavam em sair do Honda e seguir naquele instante para a festa, na direção dos tiros.
? Não pega nada ? disse abaixando os óculos escuros e enroscando no pescoço a echarpe de penas roxas sintéticas.
Convencidos pela irracionalidade coletiva, eu e meu amigo Luís largamos o carro em um terreno e seguimos a pé. 100 metros depois, um furgão da polícia militar patinava na lama, tentando voltar pela beirada da estrada.
? O que foram aqueles tiros? ? perguntamos.
? Nada não. Ingressos falsos ? respondeu o pacato policial sujo com a terra que seu carro espalhava derrapando.
(Ingressos falsos? Como assim? Ingressos falsos agora dão tiros por aí? Ou vocês apagaram uns ingressos malfeitores? Deu vontade, mas não perguntei. Se cambismo justificava uns pipocos, imagine uma ironia com a Ronda de Parelheiros).
? Boa noite e bom serviço!
Metros à frente, na porta da festa, dois brutamontes vestidos em justas roupas de náilon enquadravam alguém que vendia ingressos. Nem as pistolas à mostra nem os gritos desviavam a atenção da juventude. Todos estavam ansiosos demais com a fila parada para pensar no risco de um tiroteio
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| Pereira pede ajuda divina na baleada igreja do bororé |
? Olha bem. Pereira, da revista TRIP.
Eu sabia que meu nome não estava na lista da imprensa. Saí de casa para cobrir o show do Buddy Guy. Não houve matéria e depois de horas estávamos à margem da represa Billings, tentando economizar os R$ 40 de entrada e convencer o segurança a chamar algum responsável pela imprensa.
? Tem carteirinha?
? Não tenho, sou free-lancer, não me dão carteirinha.
? Sem carteirinha, nada feito.
? Mas olha aqui ? mostrava meu equipamento de fotografia, a revista.
? É a regra, meu filho. Sem carteirinha ninguém entra ? interrompia para abrir passagem para um grisalho de óculos amarelos com duas teens a tiracolo.
? Imprensa ? disse o grisalho ? elas estão comigo. ? E entrou, sem pudor ou carteirinha.
? Você conhece alguém? ? novamente o segurança. ? Conhece o Ricardo? Não? E a Marina? Também não?! Você não conhece ninguém. Sem conhecer ninguém não vai entrar, meu filho.
(Me chamava de filho e me senti o maior dos solitários, imagine, ser filho do sujeito e não conhecer ninguém.) Eu queria xingar, mas fui educado. Há pouco uma moça simpática me previniu: ‘ Vai com calma que eles são da polícia’. Eu entendia melhor os tiros e os enquadros nos cambistas.
? Não quero atrapalhar o serviço de vocês (ah! se eu pudesse), mas vim aqui para trabalhar (quase mentira) e não consigo falar com ninguém responsável.
? Já falei, só com o dono. Só o dono pode liberar. Não posso fazer mais nada. Se quiser, paga o ingresso e depois tenta pegar o dinheiro de volta.
Não tinha grana para isso e estava cada vez mais caótico o tumulto de carros e gente na estradinha de terra. Voltar para casa levaria, no mínimo, umas quatro horas.
? O dono está por aí? Dá pra chamar?
O segurança, aposto que era da Civil, ria. ‘ Rapaz, ele vai acordar às sete. Sabe lá que horas ele chega aqui, meu filho.’ Eram cinco da manhã.
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| A inexplicável fila dos paulistas apertados |
Na fila da uma festa desrespeitosa e R$ 40 menos rico, qualquer bazé há de questionar: ‘Serei masoquista?’. Quero acreditar (ainda não acredito) que todo mundo ali reconheceu o fato de que o paulista não se diverte sem penitência. Há quem diga que o paulista faz questão da fila, do descaso dos bilheteiros, dos penetras antes e durante seus momentos de lazer. Os mais radicais dizem que, quanto mais prazer o paulista busca, mais procura levar uma boa surra. Bem, considerando os quilômetros de avenidas, ruas, vielas, barrancos e pirambeiras, a falta de placas, as indecifráveis bifurcações, os danos aos carros, o cárcere das filas, os tiros, os falsários e o preço extorsivo, dava para imaginar que esses novos paulistas estavam atrás, no mínimo, do êxtase. E estavam mesmo. Na fila os mais afoitos não esperavam e tomavam comprimidos. E os seguranças policiais ? vocês hão de perguntar ? não enquadraram todo mundo? Não. Quero acreditar (ainda não acredito) que eles foram de uma ingenuidade tocante ao pensar que eram apenas jovens tomando aspirinas naquela madrugada gelada.
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| A praia do paulista. O banhista inconsequente e o detalha da água | |||
Entramos e já era dia. Usando cipós como corrimão para não escorregar na lama, dei de cara com um playboy do ginásio, um velho conhecido. Como um Dorian Gray precoce, não mudou nada desde os 16.
? Sabe que são ótimas essas festas longe? Dá trabalho, mas só os Vips chegam!
Me senti aliviado. ‘Eu cheguei, sou um Vip.’ Quase agradeci o comentário e confirmei que o paulista se pune várias vezes ao dia. Estávamos em um sítio vasto, cheio de mato, moitas e cantos, enquanto vinte homens seguravam as calças na fila das duas cabines privadas. Mas ao fundo, depois dos banheiros, a cena era genial.
O frio era grande, o vento e o sereno castigavam a boca e as mãos. Estávamos na beira de um lago artificial, separado da represa Billings por um muro estreito, e na água, na beira da mureta, se esbaldava um rapaz de cueca. Sua amiga tentava convencê-lo a sair e ele ria, se debatia, se não me engano fez até ‘baleia branca’. Tentou puxar a moça, tentou subir na mureta e se estatelou de volta na água escura. O banhista inconseqüente quase transformou aquela festa rural em uma rave na praia. Como Ibiza, só que troque o glamour por arame farpado, Champagne Brut por Catuaba Selvagem, instalações psicodélicas por gambiarras fluorescentes, o mar da Espanha pela Billings, e assim por diante.
Partindo do princípio de que todos ali eram Vips, então ninguém deveria ser mais very important que ninguém, certo? Errado. Quero acreditar que tudo o que digo destas pessoas é preconceito, que sou maldoso e tenho inveja, que deveriam me prender por desacato, mas digo mesmo assim: a festa estava cheia de gente de caráter duvidoso. Dou exemplos.
Como jornalista viajado, tenho técnicas para descobrir a idade de alguém. Pela falta do gogó, pela voz fina, pela camiseta do Pokemon, consigo saber que um rapaz é menor de idade. Mas os seguranças não têm esses recursos finos da investigação e deixaram entrar adolescentes malvados que falsificam RGs e bebem até cair.
Mais um: com outros obscuros engenhos da imprensa, o ouvido e os olhos, vi e escutei três homens apoiados em vassouras olhando contra a luz tubos de ensaio com um líquido dourado.
? Não sei como chama. Isso aqui é um negócio caro pra diabo, mas eu não sei o que faz ? disse um, rindo de chinelo no pé aguardando clientes.
Como jornalista experiente sei que aquele tubo estava cheio de LSD. E então quero acreditar que as pessoas que trazem essas drogas para o Brasil não são os grisalhos de óculos amarelos, como ingenuamente supunha, mas o povão de chinelo no pé. (Digo isso como verdade e jamais chamaria de suspeita ou negligente a segurança ou os donos do evento. Prefiro dizer que eles são honestos, íntegros e cumpridores da lei. Prefiro dizer que são vítimas de uma juventude degradante e de uma pobreza que envenena, afinal, tenho outro vício do jornalismo atual, o medo.)
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| O pessoal eletrônico |
Nessas alturas eu já tinha uma pauta, mas para uma boa matéria litorânea eu precisava de depoimentos e fotos de celebridades vistosas. Sem uma frase famosamente assinada o texto não teria credibilidade. Sem esperança andava chutando pedras ao som de alguma mutação nova do Psy-Trance-Delic-House. Quando me toca o dedo de Deus. Diante de mim, cercada por brucutus felando lança-perfumes, uma das mulheres mais lindas do Brasil, musa de praia e famosa. Esperei um brucutu abrir espaço e não tive dúvidas.
? Oi, Fulana. Posso tirar uma foto sua?
Fez uma careta, linda, mas careta.
? Não posso.
? É para a TRIP ? poderia dar certo.
Ela veio para o lado, ficou séria e falou baixinho:
? Desculpa, mas não é bom para mim.
Como se fosse eu seu confidente (quero acreditar nisso também), disse novamente, agora lamentando num sorriso. ?Não é bom para mim.?
? Entendo. ? e entendia mesmo.
Não revelo a assinatura, mas consegui minha frase de celebridade para endossar o que quero dizer sobre toda a festa: para mim, aquilo não era bom.
Agora me faltavam depoimentos caricatos de gente comum, para dar humor.
Novamente, o dedo de Deus. Ao lado da moça famosa, havia uma turma animada. Uma moça girava fitas sem parar, outra lia cartas de tarô e outra dava graças ao céu nublado. Fui puxar assunto e em um minuto escutei que um portal dimensional está se abrindo. Que a terra vai mudar de órbita logo mais e que um novo mundo de harmonia e justiça vai se revelar. Naquele dia, segundo ela, havia um fluxo de vida na terra.
Falo isso sem o menor orgulho, mas otimismo barato me ofende. Disse a ela que não havia ciclo de vida coisa alguma, que se a Terra mudasse de órbita a vida humana acabaria e que, aí sim, sem os homens na Terra, talvez houvesse um novo mundo de harmonia e paz.
? Que horror. Você precisa conhecer o calendário Maia, é o que tá pegando hoje com o pessoal eletrônico ? resumiu a moça que perdeu a vontade de dançar.
Pronto! Já tinha também o depoimento caricato (E achei linda a expressão ‘pessoal eletrônico’.)
? Que eu saiba, os Maias falavam que o mundo acabaria em 2010. ? chutei a data
? Sério?! ? arregalou os olhos e a pupila.
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| trêis real |
Eram 9h30 da manhã e alguém berra do bar: ?A Catuaba Selvagem acabou!? Nessa altura eu tinha boas fotos, boas histórias, amostras biológicas, banhistas, celebridades e caricaturas, mas não tinha uma matéria de praia, como era minha encomenda de fim de semana. E fui à beira da Billings, o mais próximo de praia que eu podia chegar. Dois rapazes acabaram de vomitar na água, debruçados na mureta. Aroma de catuaba. Um jazia de olhos fechados, confortável com a cabeça na pedra. Outro, sentado como demente, olhava atônito a água. Quando passa uma família de patos. A mãe e uma dúzia de patinhos esbaforidos, todos fofos e meigos. O bêbado derrotado cutuca o amigo e diz: ?Olha. Que lindo.?
Pensei no que leva o paulista à praia. O que faz o paulista enfrentar o trânsito de estradas, filas de balsas, trilhas estreitas, vexames, violência e cervejas caras é a vontade de olhar para frente e dizer ?Que lindo!?. É a saudade da natureza simples. Não precisa de um grande pôr-do-sol, de turquesas fenomenais, um horizonte basta. Uma marola morna nas costas, um matinho rasteiro no pé descalço já justifica. E quero acreditar (acho que acredito) que a maioria ali não buscava apenas brio. Que tirando os Vips de pouco caráter, as pessoas da rave queriam um momento de paz com os amigos perto da natureza simples. Na Billings navegava lenta uma balsa e longe um veleiro. Por um instante, graças ao dedo de Deus, a lama era areia e a represa o mar.
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| Patinhos fofos. Que lindo |
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