por Pedro de Luna

Em julho, a banda Planet Hemp completou 25 anos de vida e agora a sua trajetória será revelada em livro e, parte dela, no cinema. Confira as origens e o nascimento da banda em 10 imagens históricas

Marcelo D2 é um artista conhecido no Brasil e no exterior. Porém, por mais incrível que possa parecer, muita gente já nem sabe mais que ele é o vocalista do Planet Hemp. Em julho, uma das bandas mais instigantes do rock nacional completou 25 anos de vida e agora a sua trajetória será revelada em livro e, parte dela, no cinema.

Para entender o sucesso do grupo, precisamos retroceder aos anos 80, passando por pessoas e locais que influenciaram os integrantes originais - como o vocalista Skunk, que folheando uma revista estrangeira de música decidiu formar “o Cypress Hill brasileiro”.

A convite da Trip, na condição de autor da biografia da banda, conto com exclusividade um pedaço pouco conhecido dessa história: as origens.

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Um dia é skin, no outro é punk

O verdadeiro criador do Planet Hemp foi Luís Antônio, conhecido como Skunk com “u”, fazia questão de lembrar ao se apresentar. Porém, poucos sabem a origem do apelido, que nada tem a ver com a super maconha, já que ele nem curtia fumar um. A verdade é que em um final de semana Luís foi a um evento punk e resolveu raspar o cabelo, deixando apenas um moicano no alto da cabeça. Porém, como teria que trabalhar na segunda-feira em seu emprego “careta”, teve que raspar o resto, ficando carequinha como um skinhead. Num dia ele era skin, no outro era punk, daí o Skunk! 

Um apelido que nada tem a ver com ópera

O primeiro integrante do que seria o Planet Hemp a conhecer o Skunk foi o baixista Formigão, que ainda não tocava nada nem tinha esse pseudônimo. Luís conheceu Joel por acaso, andando na rua, já que os dois moravam no mesmo bairro, na zona sul do Rio de Janeiro. Os dois ficaram muito amigos e passaram a frequentar o chamado “point punk” no centro da cidade. Skunk apelidou o Joel como “Formigão” inspirado no personagem principal do romance “O Fantasma da Ópera”, que usa uma máscara com um nariz enorme.

A grande trepada

Na segunda metade dos anos 80, Skunk ficou muito amigo de uma galera que curtia rockabilly e começou a se vestir com esse visual, o que incluía sapatos bicolores de sola grossa. Foi aí que surgiu a ideia de fazer uma banda para tocar esse gênero musical. Com o passar do tempo, Skunk começou a gostar de rap e partiu pra outras. Mas a banda foi adiante e se batizou Big Trep, ou A Grande Trepada. O grupo dedicou ao Skunk o seu primeiro disco, Rockabilly Voodoo (Polvo Discos, 1994), e gravou uma letra escrita por ele chamada “Sonhei Com Você”.

O número mágico

Antes de formarem o Planet Hemp, Skunk teve uma outra banda com o guitarrista Rafael Crespo chamada Magic Numbers. O nome foi inspirado na música “The Magic Number”, a primeira do disco de estreia do grupo norte-americano de hip hop De La Soul, 3 Feet High and Rising (Warner, 1989). A proposta era misturar influências como Public Enemy, Primal Scream, Happy Mondays e 808 State. Nesta breve experiência, Rafael tocava baixo, um amigo guitarra e bateria eletrônica, Tantão (do Black Future) teclados, e Skunk cantava. Infelizmente, após alguns ensaios, a banda morreu na praia sem deixar nada gravado.

Marcelo D2 e Jorge D4

Por volta dos 21 anos, Marcelo conheceu Skunk e começou a vender camisetas de bandas no centro do Rio. Pintou o cabelo de roxo com violeta genciana e ganhou o apelido de Marcelo “Genciana”. O apelido D2 surgiu quando ele passou a usar no pescoço um número 2 de um brinquedo do filho. Nessa fase difícil como camelô, o futuro rapper dormiu na rua algumas vezes, sempre acompanhado pelo amigo e mentor Jorge Brennand. A dupla tomava tanta cachaça que foi apelidada pelos amigos de Marcelo D2 e Jorge D4, por que ficavam de quatro, totalmente bêbados. Abaixo, a foto é de Renato Góes vivendo D2 em Legalize Já, filme que estreia em 18 de outubro com foco na amizade de Marcelo e Skunk no início do Planet.

As primeiras músicas

D2 e Skunk queriam ser uma dupla de rap, mas sequer possuíam equipamentos. Quando fizeram o primeiro ensaio com o guitarrista Rafael, o baixista Formigão e o baterista Bacalhau, os dois vocalistas já tinham algumas letras. Em apenas dois ensaios, compuseram seis músicas: “Puta Disfarçada”, “Phunky Budda”, “Terceiro Mundo”, “Porcos Fardados”, “A Culpa é de Quem?” e “Futuro do País”. Esse foi o repertório do primeiro show do Planet Hemp, na noite de 24 de julho de 1993, no lendário Garage, tocando apenas para os amigos. Dali em diante passaram a fazer pelo menos um show por mês local. 

Nação Hemp e Planet Zumbi

Em outubro de 1993, Chico Science & Nação Zumbi gravavam o primeiro disco no Rio de Janeiro, quando apareceram de surpresa no show do Planet Hemp em Ipanema. Apesar da admiração mútua, as duas bandas ainda não se conheciam. Foi amor à primeira vista. Ao final da apresentação, os pernambucanos participaram de uma jam session com os cariocas na música “Sophisticated Bitch”, do primeiro disco do grupo norte-americano de hip hop Public Enemy, Yo! Bum Rush the Show (Def Jam, 1987). Os músicos tinham várias afinidades, ainda que uns preferissem a maconha e outros a cocaína. Piadinha da época dizia que a “Nação Zumbi é o verdadeiro Planet Hemp e o Planet Hemp é a verdadeira Nação Zumbi”.

A primeira vez em São Paulo

Os dois primeiros shows do Planet Hemp em São Paulo aconteceram em 1993 no Urbania, com Skunk e D2 nos vocais. O evento marcou o lançamento da primeira fita demo, Direto do Planeta Rap. Na primeira vez, a banda dividiu a noite com Speedfreaks e Manson Family. Na segunda, um mês depois, tocou junto com o Cold Turkey, a banda paralela do guitarrista Rafael Crespo. A entourage ficou hospedada num único quarto de hotel na Boca do Lixo, no centro da cidade, onde aconteceram várias aventuras. Ninguém do grupo sabia, mas o Skunk já estava com AIDS e pedira demissão do seu emprego que tanto odiava. Ele queria viver intensamente os seus últimos meses de vida.

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Abrindo para o De Falla

Em março de 1994, o Planet Hemp realizou o sonho de abrir para os gaúchos do DeFalla (que na época se escrevia separado). O show foi no Circo Voador com D2, Skunk e BNegão no vocal. Naquele dia, o escritor Charles Bukowski tinha acabado de morrer. Em sua homenagem, Marcelo D2 tocou com duas camisetas. Por cima, a do falecido beatnik; no meio da apresentação, já suado, tirou a do gringo e ficou com a de baixo, da banda Pavilhão 9. O DeFalla foi tão importante na formação do Planet que Rafael Crespo só começou a tocar guitarra depois de assistir a performance do Castor Daudt, guitarrista da banda gaúcha.

SuperDemo

A produtora Elza Cohen tem um papel fundamental na história do Planet Hemp. Ela fazia um festival chamado SuperDemo que revelava bandas novas. A primeira vez que ela convidou a banda de Marcelo D2 foi para tocar numa edição do evento no Circo Voador ao lado d´O Rappa e de Gabriel O Pensador. A segunda apresentação aconteceu em abril de 1994, no Aeroanta, em São Paulo, com outras quatro bandas. Foi uma apresentação arrasadora, com participação do Mario Gildo quebrando a guitarra no final. Com a desculpa frequente de que estava com pneumonia, Skunk não viajou com a banda e morreu dois meses depois. Um ano após o show no Aeroanta, o Planet lançou o primeiro disco, Usuário, pelo selo SuperDemo, da Sony Music, dando início a uma história incrível que continua até os dias de hoje.

No próximo dia 18 de outubro chegará aos cinemas o filme Legalize Já, de Johnny Araújo, contando a história da amizade de Skunk e Marcelo D2. E em dezembro a tão esperada biografia Planet Hemp: mantenha o respeito, lançada pela editora Belas-Letras. Dois bons motivos para soprar (ou puxar) a vela de aniversário nos 25 anos dos maconheiros mais famosos do país.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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