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Passatempo

Os dentinhos de um nenê que aprende a sorrir e o tumor cancerígeno que consome o cérebro do velho baboso não são estágios da mesma viagem?

Por Redação

em 23 de janeiro de 2008

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No fim da década de 70, aos 16 anos, abandonei a escola e
fugi de casa com uma mochila e um violão, nem lembro mais por
que e nem vem mais ao caso. Ao ir de carona na caçamba de um
caminhão para o Rio Grande do Norte, incitei meu profundo Pedro
Álvares Cabral a atravessar o Atlântico para descobrir o Brasil.
Liderando seu povo em minhas entranhas, Moisés se perdeu na
BR-101 por 40 anos antes de finalmente encontrar sua casa e
morrer na porta. Estabeleci, na lembrança recorrente da viagem,
meu mito formador, um “era uma vez” privado. Só a narração
da viagem consegue dar a ela um sentido lógico.

No entanto, como o peido solipsístico de uma foca na
Patagônia, a viagem é absoluta, intransitiva e prescinde de quem, onde, quando e por que – é o mistério que se esconde da narrativa.
Cientistas cogitam que, se conseguíssemos criar um pequeno
campo antigravitacional em torno de uma nave espacial, o espaço
em torno dela entraria em colapso. O espaço então se recolheria,
dobrado e encurtado como a bainha de uma calça comprida demais.
Chegaremos a outras galáxias não indo até elas, e sim trazendo-as para perto de nós. Literalmente, a montanha viria a Maomé.

DIRETO DOS ANOS 70

São lindos os dentinhos que brotam na boca de um nenê que
aprende a sorrir. É horrível o tumor cancerígeno que consome o
cérebro do velho baboso. Mas não são eles pura e simplesmente
estágios da mesma viagem?

Refiro-me ao que Walter Benjamin escreveu a respeito de uma
pintura de Klee intitulada Angelus Novus. Nela, um anjo parece querer se distanciar de algo que contempla com muita atenção.
Olhos vidrados, asas abertas: a imagem do anjo da História. A face está voltada ao passado. Onde vemos um desencadear de eventos, ele enxerga uma única catástrofe, acontecendo diante de seus pés.
O anjo gostaria de ficar, acordar os mortos e reconstruir tudo o que foi destruído. Porém, uma tempestade provém do paraíso. O vento bate contra as asas do anjo, impedindo seu vôo. A tempestade empurra o anjo, que dá as costas ao futuro, e uma pilha de detritos se amontoa em direção aos céus. A tempestade é o que chamamos de progresso.

O navegante, como o Angelus Novus, é um nostálgico por
definição. Sente uma enorme inveja de quem mora na cidade onde
nasceu e conversa no bar da esquina com os velhos amigos na
própria língua. O navegante é também um esnobe claustrofóbico:
despreza o que deixou para trás.

Nunca voltei do Nordeste, nunca sai do fim da década de 70.
É de lá que vos escrevo.

*O saudosista Henrique Goldman, 46, é um cineasta paulistano radicado em Londres. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br

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