por Rodrigo V. Cunha

Os responsáveis pelos negócios pensam só no lucro, mas precisam urgentemente começar a pensar nas pessoas

Dono de uma fala mansa, sempre em busca da palavra perfeita, mesmo que isso signifique quase gaguejar em alguns momentos para segurar uma palavra inadequada. Charles Eisenstein é um pensador dos mais originais e suas principais ideias podem ser conhecidas nos livros The Ascent of Humanity e Sacred Economics, ambos sem tradução para o português, e em O mundo mais bonito que nossos corações sabem ser possível (Palas Athena).

Seja nas publicações, seja em suas palestras, Eisenstein fala com segurança e leveza ao mesmo tempo sobre amor e negócios, associação que parece deslocada quando pensamos na maneira como o mundo dos negócios é estruturado: executivos —  em geral homens —  que carregam valores conectados à maximização e à geração de lucros, sem dar a mesma atenção ao modo como tais objetivos serão alcançados.

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Este modelo começa a ser tratado como falido e entendido como um dos elementos responsáveis pelo esgotamento de recursos do planeta e pelo sucateamento das condições de trabalho, cada vez mais precárias no mundo inteiro —  uma realidade em que a saúde financeira se sobrepõe à saúde do funcionário.

O presente distópico, porém, traz ao menos uma boa notícia: existe um número cada vez maior de executivos que estão trazendo uma visão mais inclusiva e acolhedora para o mundo dos negócios, uma visão preocupada com o todo, com a evolução da sociedade, com o cuidado nas relações de trabalho e com uma existência sustentável.

Ainda são maioria os homens de negócios, mas começam a perder um pouco de espaço para os humanos de negócios.

Eisenstein não lida diretamente com negócios (ele se considera fora do sistema), mas traz para a discussão uma visão crítica e construtiva sobre a maneira como estamos organizados e também sobre aquilo que valorizamos. 

Abaixo, o papo com o escritor e pensador, graduado em matemática e filosofia pela Universidade de Yale, que se descreve como um ativista do decrescimento

Trip. As reflexões que faz sobre o mundo dos negócios é bastante diferente do que ainda é mais frequente na gestão das grandes empresas. Qual a origem destas reflexões?

Charles Eisenstein. Quando eu era bem jovem, tive a sensação de que algo estava estranho no mundo e que as coisas não precisam ser como eram. Questionando ambientes escolares maçantes e lendo livros como Silent Spring, de Rachel Carlson, e People's History of the United States, de Howard Zinn, fiquei com uma pergunta na cabeça durante 15 anos. Aos poucos, entendi que a humanidade embarcou num caminho de separação. Separação da natureza, separação um do outro, separação da verdade. É uma crise que, enquanto não estiver completa, vai continuar gerando todas as demais crises que temos aí:  financeiras, econômicas, médicas, educacionais, ecológicas, energéticas, alimentares, relacionadas à água e ao solo, entre outras. É uma crise múltipla que funciona como um parto que vai nos levar para fora deste mundo de separação e nos conduzir a uma nova história, de reunião, de encontro.

O que você quer dizer quando fala que as crises vão continuar enquanto a crise de separação não estiver completa? Significa que precisamos parar de tentar manter o mundo como ele tem sido até hoje. Por exemplo, em 2008, a crise financeira apresentou uma grande oportunidade de abrir mão do sistema financeiro que temos hoje. Podíamos simplesmente cancelar os débitos, perdoar as dívidas e construir um novo tipo de sistema econômico. Mas não, escolhemos nos agarrar ainda mais a este sistema e hoje estamos quase na mesma situação que em 2007 —  apenas de um jeito pior. Dívidas ainda maiores, que geram mais desigualdade, e degradação social e ambiental. E ainda achamos que podemos resolver o problema se a economia crescer, se encontrarmos mais recursos naturais intocados para transformar em produtos e encontrar outras culturas intactas para transformar em mercados. Não podemos ter crescimento infinito num planeta finito. Um dia nosso sistema vai simplesmente parar de funcionar.

Mas sempre vamos precisar de produtos como roupas e outros itens de necessidade básica. Não vejo a humanidade funcionando sem que as empresas estejam produzindo. Como podemos fazer isso de um jeito melhor? O mercado é competitivo e, muitas vezes, o jogo é contra empresas que não têm escrúpulo algum em cortar seus custos tanto quanto possível, poluindo e explorando. Assim, o campo de jogo é desviado da sustentabilidade e, para ser um negócio sustentável, você descobrirá que precisa fazer certos sacrifícios e às vezes pagar mais caro. Geralmente, acontece de você alcançar um ponto de escolha nos negócios ou como indivíduo em que tem uma decisão a tomar. De um lado, seu coração é desafiado e, de outro, você é cobrado pelos números. Agora, às vezes, o coração e os números estão dizendo a mesma coisa. E essa é uma decisão fácil. Você sabe que talvez seja melhor colocar painéis solares no telhado da sua fábrica e seu coração diz que sim, vamos fazer isso e seus números dizem que o retorno no investimento virá. Agora, quando a decisão que vem do seu coração significa ir contra os números, é uma oportunidade de aumentar sua capacidade de amar.

Como é isso? Não precisa tomar decisões que signifiquem risco de morte. Pode ser apenas sua empresa decidir comprar comida produzida localmente ou algo assim. Você até pensa nisso, mas em seguida pensa no que pode acontecer de errado ao aumentar os custos. E se tivermos outra despesa? E aí vem o clima de medo e nunca o de generosidade —  que é sempre um pouco assustadora. Na velha história de separação, o propósito dos negócios é maximizar o retorno sobre o investimento, maximizar o interesse dos acionistas e ganhar tanto dinheiro quanto for possível. Tudo o que você faz é meramente usar ferramentas para alcançar esse objetivo. Na história do encontro, o propósito dos negócios é oferecer algum presente, algum serviço ao mundo.

Qual o propósito de uma empresa? O objetivo real das empresas é oferecer algum tipo de presente para o mundo. As empresas até falam isso nas missões corporativas, ninguém diz que o objetivo é ganhar tanto dinheiro quanto possível, por qualquer meio necessário. Porém, os compromissos que pressionam os resultados financeiros para os acionistas, problemas de fluxo de caixa, queda de vendas e muitas outras coisas te convidam a esquecer a missão. E você esquece a razão de estar realmente aqui. A mesma coisa acontece fora dos negócios, em nossas próprias vidas pessoais. Tantas coisas nos afastam da nossa verdadeira razão de estar aqui. Você não conhece ninguém que esteja aqui apenas para sobreviver.  O propósito da vida é dar seus magníficos presentes a algo que seja significativo, para você fazer parte de algo maior. E, se você não estiver fazendo isso, não vai gostar da sua vida. Mesmo se tiver um bilhão de dólares.

As decisões que tomamos são inspiradas em alguns modelos ou por um estilo de vida? Quais são esses padrões? Talvez nossos incentivos estejam errados? Essa é uma boa pergunta. Por que as pessoas buscam uma riqueza que objetivamente nem precisam? Por que querem símbolos de status? Carteiras de investimento, grandes contas bancárias, grandes carros, casas e todo esse tipo de coisa? Acho que estamos todos muito pobres. Fomos privados de coisas que tornam a vida rica, por exemplo, conexões íntimas com a comunidade e com a natureza, um sentimento de pertencer ao mundo. No Brasil, notei como todas as casas ricas têm portões de arame farpado e sistemas de segurança ao seu redor. Isso não é riqueza. Riqueza é você sair e se sentir seguro. E, ironicamente, em algumas das favelas, as pessoas têm mais riqueza. As crianças corriam por toda parte —  seu território era toda a favela. Eles não estão trancados dentro do condomínio ou da casa. Consumismo e posses são uma tentativa de compensar as conexões que perdemos. É por isso que quando alguém vive uma forte experiência religiosa ou espiritual, geralmente abandona sua ambição simplesmente por redescobrir essa conexão que foi perdida. Aí já não é necessário compensar mais.

Como transformar um sistema em que 62 pessoas têm a mesma quantidade de dinheiro do que outras três bilhões de pessoas? Acredito que o sistema vai mudar, vai passar por uma crise e viver uma metamorfose para algo radicalmente diferente. Mas isso não significa que você não deva trabalhar no sistema também. As boas notícias estão acontecendo no sistema e são uma espécie de previsão e prática para o mundo futuro. Coisas que para muitas empresas parecem inalcançáveis, como práticas de sustentabilidade, vão preparar os negócio para prosperarem no futuro. Hoje há muito pouco benefício financeiro na busca de fabricação de lixo zero ou redução voluntária da poluição de uma fábrica de frango. No futuro, teremos incentivos, vai custar muito caro poluir e quem hoje polui menos vai ter muita vantagem, por exemplo. Isso ainda não aconteceu, mas, se existe um futuro, terá que ser assim. A alternativa é um planeta morto.

Existe uma maneira de acelerar esse tipo de mudança trabalhando "fora do sistema"? Sim. Precisamos também de pessoas que estejam criando modelos inteiramente novos e explorando alternativas que são inconcebíveis dentro do sistema. Há gente criando aldeias ecológicas com estruturas de governança colaborativa, fazendo coisas que nenhuma grande corporação ou organização poderia fazer. Precisamos de pessoas que façam coisas alternativas e holísticas, que pareçam completamente loucas a partir da lógica do sistema.

Como você se vê nessa transformação? Estou muito mais fora do sistema. Nunca me senti confortável em uma organização. Eu nem gosto de estar em conselhos consultivos, apesar de me pedirem toda hora. Eu digo que vou ser informalmente conselheiro, mas não me sinto confortável na estrutura. Mas as coisas estão mudando. Por muitos e muitos anos, tudo o que escrevi estava tão longe das visões de mundo convencionais. Hoje, vejo que não estou tão fora do mainstream como eu costumava estar, porque eu acho que o mainstream está mudando.

 De onde você tira inspiração? Eu me inspiro em pessoas humildes que estão construindo vidas dedicadas ao amor e ao serviço. E também tiro da beleza do milagre da natureza.

Créditos

Imagem principal: Vitoria Bastos

Rodrigo Cunha é autor deste texto, o primeiro de uma série feita a partir de entrevistas que realizou para seu projeto autoral Humanos de negócios, livro que lançará em 2019. www.humanosdenegocios.com.br

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