Os gringos não são mocinhos
No aniversário desta seção, o cinesta-viajante se preocupa com a possível guerra no Iraque
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Parece que vamos ter uma nova Guerra do Golfo. ?Desert Storm, O Retorno?. É como o novo episódio de um seriado americano. De olho nos lucros, os ávidos produtores deixam inconclusos os episódios. Assim como nos capítulos anteriores da série, se trata de uma produção milionária cheia de efeitos espe-ciais. Mas o elenco é podre de ruim e o roteiro é de quinta.
A história do filme é muito confusa, cheia de incoerências. Os heróis americanos arriscam suas vidas para defender a hu-manidade da terrível ameaça: um bandido, Saddam Hussein, armado com ogivas nuclea-res. Mas não foram os próprios americanos, os mocinhos do filme, os únicos na história a usar armas atômicas em Hiroshima e Nagasaki? Não foram eles que armaram e financiaram o próprio Saddam por tantos anos? E não são só os americanos, não. Os almofadinhas franceses, alemães e italianos venderam muitas armas e tecnologia nuclear. Nós brasileiros fomos atores coadjuvantes e temos culpa no cartório: vendemos aviões Xavantes, carros armados Brucutu, Passats envenenados e muito frango Perdigão.
WTC = Chile
Não é porque sou pacifista que a farsa me ofende. Na história, muita gente já morreu porque quis evitar a guerra. Um pacifista enganado é potencialmente um grande assassino. Me explico: se você é contra a guerra provavelmente é porque, assim como eu, pra você a vida humana ? de qualquer ser humano ? tem um valor absolutamente maior do que tudo. Seguindo essa lógica, caso o Iraque tenha mesmo essas armas de destrui-ção de massas e decida usá-las, mais gente vai sofrer e morrer no futuro do que numa guerra preventiva já.
Mas a hipocrisia e arrogância do poder são muito irritantes. Queria ver o Bush admitindo as cagadas dos americanos num mesmo discurso inflamado anti-Saddam. Ele deveria nos lembrar que no dia 11 de setembro se recorda não só a trágica destruição do World Trade Center como também o mons-truoso golpe militar no Chile em 1973, que, aliás, foi financiado pela CIA. Muito mais que em Nova York, milhares de chilenos morreram, milhares de crianças ficaram órfãs. O país entrou no túnel escuro da ditadura e só saiu depois de décadas.
Eu talvez até apoiasse a guerra, se o Bush tivesse ido a Santiago em 11 de setembro, pra lembrar que a vida dos chilenos ? e de tantas outras vítimas do imperialismo americano ? tem tanto valor quanto as vidas perdidas no WTC. Talvez até apoiasse a guerra, porque seria mais honesto se ele admitisse que, muito mais do que em nome da democracia, o sangue vai ser derramado pelo petróleo, pra defender os interesses econômicos do Ocidente.
Rota na rua
Israel, assim como qualquer país, tem absoluto direito de se defender contra ataques terroristas. Mas, como os iraquianos, os israelenses ? ilegalmente ocupando territórios palestinos ? também estão infringindo impunemente resoluções da ONU. Não é aceitável que o Ocidente use duas medidas diferentes e ao mesmo tempo se apresente como paladino da justiça e da democracia. Ninguém aqui é cego ou burro o bastante pra não enxergar o tamanho da injustiça. OK. A cagada está feita e os Marines ? essas Rondas Ostensivas Tobias Aguiar do mundo ? vão lá no Golfo chutar o pau da barraca novamente. Mas e depois?
Depois virão outros episódios desses torpes enlatados que ofendem nossos sensos estéticos e de justiça. E as vozes de quem não é americano, europeu ou simplesmente rico vão continuar a ser ignoradas.
*Henrique Goldman, 40, é cineasta, vive no exterior há quase uma década, mas ainda assim não está livre da guerra. Seu e-mail é: henrigold@yahoo.com
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