Por Redação
em 21 de setembro de 2005
A primeira explicação que me surge à mente é que viver é uma emoção infinita. O que não quer dizer muita coisa, eu sei. Tentarei ser mais claro. Penso que, em qualquer lugar, a qualquer tempo, viver me parece experiência radical, um reservatório imensurável de presente. Acho que é o caminho e nós os caminhantes de uma trajetória infindável que começa agora e não termina mais. Uma brecha aberta pela qual a alma respira, como os seios de uma mulher. Viver talvez seja estar. E estar é estar com os outros e no mundo. A maior dificuldade é que julgamos tudo em relação a nós e organizamos o mundo em atenção a nós. E as pessoas e seus motivos são irredutivelmente diferente de nós e do que queremos. Isso gera conflitos e insatisfações. E elas não estão para nos satisfazer ou concordar conosco. Como nós, elas são uma liberdade a se realizar. Se conseguirmos pensá-las assim, perceberemos que elas são um mistério cheio de fecundas possibilidades. Vivo extremos desde que me conheço por gente. Matei, roubei, fiquei preso quase 32 anos. Estive à deriva, numa ‘errância’ descontrolada. Conheci pessoas maravilhosas e outras miseravelmente mesquinhas e perigosas. Odiei e fui amado; dei de mim aos outros naquilo que desconheço e que se costuma chamar de amor ou generosidade. Encontrei em cada outra pessoa o que me faltou para viver plenamente, mas consciente que o problema era sempre comigo mesmo. Há poucos dias, estava em uma cela que media 5 por 4 metros; hoje vivo em uma casa com muitos cômodos e cada um deles maior que aquele xadrez. No lançamento do meu segundo livro, Tesão e Prazer (deixa eu fazer meu marketing), na última Bienal em São Paulo, fiquei hospedado no Hotel George V, por conta da revista em que escrevo. O apartamento em que fui colocado sozinho era maior que o pavilhão em que morávamos em 96 presos na Penitenciária de Serra Azul. O banheiro era maior que a cela que habitávamos em 12 pessoas e a hidromassagem era do tamanho do banheiro que todos usávamos. Havia um prazer impossível ali, o sentimento de única vez que não consegui aproveitar. Estava só. Não havia com quem dividir todos aqueles prazeres. Tudo era insólido, desamarrado da vida. Parecia um passo em falso no inexprimível e que se concentrava em angústias mal formadas. A mesa do café-da-manhã, self-service, era tão comprida quanto meus olhos alcançavam. Possuía uma tal variedade de alimentos que, acho, alimentaria um batalhão. Quatro ou cinco espécies de bolos; doces, brioches, queijos e frios fatiados que nem imagino o que fossem. Pães de todo tipo; salgado, doce, preto, branco, pintadinhos, pequenos e grandes. Frutas, então, puxa, de olhar tanta e sem saber o que pegar, perdi a vontade. Quando peguei um pedaço de bolo e sai comendo, meu advogado, que viera para me levar à Bienal, chamou-me a atenção. Tinha que ir com o prato e comer na mesa. Fazia parte da educação. Quanta frescura, pensei. Perdi a vontade de comer, todo meu desejo era correr daquele logro sedutor. Dia seguinte, fui ver meus filhos. Na casa vizinha reside minha comadre, batizou meu filho mais novo. Convidou-me para tomar café em sua casa. Eu a conheço de menina, queria me apresentar o marido e os filhos. Havia uma tal alegria em me receber na amiga, um brilho de prazer nos olhos dos meninos e um aperto de mão tão sincero do marido que me fez sentir satisfação em viver. Era um momento mágico. Nem havia cadeira para que eu sentasse. A comadre encheu um copo de vidro de café ralo e me deu um pãozinho francês com fina camada de margarina. Estava dividindo comigo o café e o pão de seus filhos. Sai para comer no quintal, a cozinha era tão pequena que quase não dava para nos mexermos. O céu lavava o ar de azul e eu sentia estranha volúpia de estar misturado à humanidade, no esplendor de estar vivendo. Aquele povo sofrido, com dificuldades até para alimentar seus filhos, me fez pensar em tornar minha vida grande. Maior que o tempo e o corpo que jamais foram sua medida. A vertigem de viver está para ser sentida enquanto a vida flui e nos envolvemos com pessoas de alma simples. A vida então se alastra invadindo-nos e desabam em escombros, pedras e poeiras todos os nossos desenganos. O coração submerge, de soterrado, como um pássaro assustado, com as penas em desalinho, daqueles dias que nos viram subsistir. Não, eu não sei bem o que seja viver. Sei apenas o que seja sobreviver. Estou aprendendo agora, em meio a tantos contrastes e extremos, a viver, depois de tantos anos de sobrevivência nos cárceres. Tudo me parece um processo dinâmico, relativo à capacidade de cada um de perceber. O que definir hoje como viver, amanhã, com certeza, estará ultrapassado. Acho que toda sabedoria está em viver o melhor que se consegue no momento, já que o conhecimento não perdura. Somente dura o momento de sua ação. Saber o que é viver é, sem dúvida, viver.
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