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Ser feliz ou ter razão? Já sei me calar um pouco, só não consigo quando pisam no meu calo
em 5 de novembro de 2009
SER FELIZ OU TER RAZÃO?
Margarete e Reinaldo, casal de meia idade, seguiam pela estrada no Gol familiar. Visitavam parentes. Diziam que eles se completavam. Ele, sempre afoito, falador, nervoso e correndo atrás de alguma coisa que não se sabia direito o que. Ela sempre tranqüila e ponderada, falando pausadamente, somente quando necessário. Passava a impressão que devia saber da alguma coisa importante sobre a vida que a gente nem desconfiava, por isso aquela placidez.
De repente, na estrada, uma bifurcação. Fazia algum tempo que Reinaldo não passava por ali. Como não parava muito para ver nada, ansioso que era, estava em dúvida por onde seguir. Sabendo a esposa melhor observadora, embora não querendo reconhecer, inquiriu:
_ Querida, faz tanto tempo que não visitamos teu irmão que acho mudou até a estrada nesse tempo. Olha, parece que essa bifurcação não existia, estou equivocado por onde seguir. Parece que é pela esquerda, que você acha?
_ Meu bem, o caminho é pela direita. É claro que essas duas saídas já existiam. Você é que não presta atenção em nada, parece que usa viseira de cavalo; só vê na frente, nem olha pros lados.
_ Tá me chamando de cavalo? Quis saber, já se sentindo ofendido.
_ Desculpa, a comparação foi infeliz, mas puxa, você não se liga no que acontece a seu redor, só quer ver lá na frente…
_ Ah é, né? Pois eu acho que é pela esquerda, vou pela esquerda e tá acabado!
_ Tudo bem, vá por onde quiser, mas se não quiser saber, não pergunte.
Ao chegar ao final da rua sem saída que dava pela esquerda, Reinaldo teve que admitir que Margarete estava certa. Voltando pelo caminho que viera, ao retornar à bifurcação seguindo pela direita, não agüentou e questionou a esposa novamente:
_ Puxa, meu bem, se você sabia com certeza que o caminho era pela direita, porque não insistiu comigo? Fez com que eu fosse pela rua sem saída para depois voltar…
_ Ah! Meu querido se insisto você ia querer discutir e brigar. Eu estava tão bem que quis continuar em paz e ser feliz a ter razão.
*
Essa pequena história de Margarete e Reinaldo pode levar a várias análises. Deixa um monte de pontas soltas, mas centraliza em uma questão: “Ser feliz ou ter razão”.
Essa estratégia, tão caracteristicamente da cultura feminina de calar e esperar o erro masculino para se expressar sem briga tem dado certo. Dada nossa cultura tão machista, à mulher, muitas vezes, só resta esta atitude, como na história em questão. Não sei se isso é sair por cima ou por baixo. Mas, com certeza quero ter razão. Brigar é uma conseqüência que enfrento com certa tranqüilidade, caso tenha convicção de estar com a razão. Porque tenho que me calar se estou certo? Calar atingiria minha auto-estima. Aprendi algo que foi fundamental para a minha preservação como ser afirmativo: o orgulho é maior que a dor. Amanhã posso fraquejar, não sei. Mas, com certeza, calar jamais me faria feliz. Ficaria remoendo o resto da vida.
Essa é minha posição pessoal. Sei, inclusive, que vou me dar mal por querer resolver tudo e ser tão orgulhoso. Difícil esse processo de reconhecer o correto e saber que mesmo estando errado, você não tem como ser muito diferente. Bem, tenho aprendido um pouco. Já sei me calar um pouco, só não consigo quando pisam no meu calo. Quanto mais velho, mais consigo esperar, se tenho razão.
E você, prefere ser feliz ou ter razão?
Luiz Mendes
30/10/2009.
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