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Nem tudo são flores

Dificulades no cotidiano de um ex-presidiário

em 21 de setembro de 2005

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Nem tudo tem sido fácil para mim nessa volta à liberdade. Tenho encontrado dificuldades enormes. Às vezes me sinto um emigrante do tempo a fluir todas tristezas antigas qual fossem novas. Vivi um sonho de ser diferente do que me constituí, com a vida que vivi. Pássaro de tempestades perdidas e roteiros há muito abandonados, trouxe mastros envoltos em velas rasgadas por todos os ventos. E não posso ainda voar mais alto porque minhas asas são estas, limitadas como a de todos.


Tenho sofrido pressões enormes. O preconceito é sutil, entra quando estou a procura de trabalho, por exemplo. No que há de mais básico e vital na vida de um homem. Esta para chegar e nunca chega. Se não é essa coluna e o apoio da revista, eu não teria nem como sustentar meus dois filhos. Fazem mais de sete meses que sai da prisão e até agora, apesar de inúmeras promessas, de concreto, nada.


Fiz projeto para ministrar Oficina de produção de texto nas Casas de Cultura; acabo de fazer projeto para um concurso de contos e poesias em todo sistema penal de São Paulo; me inscrevi para dar palestras, dizem que falo bem; mandei textos e artigos para jornais e revistas, quem publicou teve a indignidade de não querer pagar; estou com dois livros em editoras diferentes para serem avaliados há meses; vivo correndo atrás de alguma chance.


Absolutamente não quero moleza. Necessito apenas de espaço e atenção para mostrar o valor de meu trabalho. Estudei a vida toda dentro da prisão, preparando-me para sair aqui fora. Quero ser feliz. Nasci assim, com essa voracidade de viver. E pago, por isso, o preço que a angústia e a ansiedade cobram. Antecipo que é alto. Claro, nunca além da capacidade de honrá-lo.


Sinto-me em dificuldades, pressionado. Pressão de filhos com quem não posso estar; pressão de amigos que não querem compreender; do trabalho que não vem; das contas a pagar; do dinheiro que não sei lidar. Tudo assim súbito demais, com os dias correndo, agudos como punhais.


E existe ainda a categoria das pressões interiores. Estas, sem dúvida, as piores. A vertigem da pressão sexual, como água viva a queimar sem ver. Um desespero que se demora. As dificuldades de relacionamento. Por exemplo, o fato de eu haver ficado mais de 30 anos sem apagar as luzes de onde morava (na prisão, as luzes estão a cargo dos guardas) incomoda. Não lembro de apagar as luzes e largo a casa toda iluminada, invariavelmente. Porque jamais paguei a água que usei, hoje esqueço as torneiras abertas, constantemente. Isso é problema, as pessoas cansam de avisar. Às vezes, as pedras se transformam em rocha, enquanto a alma pulsa e os olhos umedecem.


A minha realidade não podia deixar de ser a realidade de um egresso da prisão. Claro, sou protegido por umas poucas pessoas que gostam de mim. Mas não escapo. Às vezes me pergunto se não serei um ex-presidiário a vida toda. Assim, como vísceras expostas e ossos brancos. Em última instância, parece que somos todos brancos depois da pele.


Não sei andar nas ruas. Às vezes paro no meio da calçada e fico olhando apaixonado as gentes fluindo nas ruas; mulheres multicores e homens pingüins; há também os ‘matrix’. Admiro assim bobo, vitrines, prédios, carros e seus designs de metálicas cunhas coloridas… O povo quase me atropela, ficam bravos comigo, empurram e se não for humilde, acabo apanhando.


Não sei comprar. Há alguns meses, fui comprar uma calça no centro de São Paulo. Subi e desci ruas namorando vitrines, sem coragem de entrar. Vergonha, inibição estranha não me permitia ir além das vitrines. Assim que as vendedoras chegavam próximo, levantava vôo apressado.


Até que numa dessas lojas, a atendente, uma garota que sorria enquanto falava, foi mais rápida. Quando quis replicar, já me conduzia, pelo braço, para o fundo da loja. Queria calça preta. Não havia. Experimentei, assim pressionado, uma outra que ela me empurrava. Suava da palma das mãos à sola dos pés, contrangidíssimo. A carteira caiu, bateu em meu pé e foi parar no box vizinho. Fiquei ali, inteiramente vulnerável, de quatro e de cuecas, tateando o chão por baixo da divisória. Quebrei a linha do alinhavo da barra de minha calça, um desastre.


Paguei e sai da loja aliviado, com uma calça que nem vi direito, já preocupado com o que havia gasto. Ao experimentar em casa, a calça não me servia. Não tive coragem de voltar para trocar. Esta no guarda roupa até agora. Qualquer hora dessas, dou para alguém. Claro, hoje já faço minhas compras com mais tranqüilidade, mas nunca é fácil, particularmente na hora de pagar.


Não é nada fácil, mas apesar de tudo e daqueles que são contra, amanhã há de ser outro dia, e eu conto com ele. É tudo o que tenho.



Composto por Luiz Alberto Mendes em 01/11/2004.



 




 


 

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