Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Sexta-feira, fim de tarde. Início de primavera. Há novo humor em Manhattan. Dá pra notar nas ruas, agora mais apinhadas de gente. Aproveitei o sol tentador e nem precisei de desculpa pra sair mais cedo do escritório. Tudo só pra ficar flanando pela 5a Avenida, sem a mínima pressa. Parei e me detive em qualquer lugar que me interessasse. Folheei livros na Barnes & Nobles, chequei valises e cacarecos de viagem em uma loja de bolsas, experimentei cintos e acessórios na Armani. Também parei na vitrine da Tiffany, mas aqui não toquei em nada. Resvalei com os dedos sapatos da Keneth Cole no Lincoln Center; flertei com a loja da Nike perto do Plaza Hotel, mas não entrei. Não comprei nada. Foi tudo pra ?fazer hora?, já que tinha compromisso às 8 h, com Michael Nyman.
Nyman, pra quem não sabe, é o compositor inglês mais influente dos últimos 30 anos. Um revolucionário moderno, que segue a cartilha dos minimalistas. Junto com Philip Glass, seu equivalente em solo americano, forma a verdadeira ?força da coalizão?, que fica melhor assim, substituindo Blair e Bush, trocando mísseis por fagotes.
A crítica gosta de comparar Nyman a Glass, que é um ídolo por aqui. Onde Glass toca, há uma multidão pronta pra assistir. Nyman já não é tão conhecido deste lado do continente e faz mais sucesso em lugares exóticos como, digamos, São Paulo. Certa vez, há uns 10 anos, fui assistir Nyman, em única apresentação, no teatro da Cultura Inglesa em Pinheiros. Um primor. Na época, foi reverenciado por toda crítica de Folha de S. Paulo e turma do Caderno 2. Estava no auge. Junto com o diretor Peter Greenway, andava causando furor no mundo cinematográfico. Não se esqueçam que Nyman fez toda a trilha sonora dos filmes O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante; Prosperous´ book; Afogando em Números e mais alguns outros, como o bom O Piano, com Harvey Keitel e Holy Hunter no elenco. Ajudou também a catapultar a carreira do diretor francês Patrice Leconte, que produziu o sensível Mr. Hire, traduzido no Brasil como Um Homem Meio Esquisito. Tudo coisa do melhor nível.
Agora Nyman anda por novos caminhos, checando novos sons e fazendo novas fusões. Antes do show, avisou que deixaria uma música ambiente, em estilo house, tocando como preliminar. Contou que não era nada por acaso. A música, um experimento que fez com um DJ inglês de um nome aí que não me lembro, é mais uma prova de que Nyman e Glass não são os primos elegantes da música eletrônica. São seus pais andróginos.
A história toda se deu no Ethical Cultural Society. O lugar, não tão conhecido, lembra um desses teatros de cidade do interior no Brasil, antes de ser substituído por um teatro novo, em comum e repetido concreto aparente, quando a cidade começa a sofrer da ?síndrome de metrópole?, uma doença freqüente no interior do Estado de São Paulo. Mas aqui, sem os complexos de praxe, o velho é propositalmente mantido, e os bancos de madeira, em estilo religioso, davam o contraste que Jonathan Sheffer, o regente musical da Eos Orquestra, queria, pa apresentar Nyman ao público de Manhattan.
E então Nyman surgiu. Sua camisa branca com colarinho largo destacava-se embaixo de um despojado casaco, a meio caminho entre o blazer e o sobretudo. E os primeiros 25 minutos, onde Nyman mandou o bom e clássico Nyman, não decepcionaram. Fiquei sinceramente emocionado, em estado de torpor, com os olhos marejados e agradecendo a Deus por estar presenciando aquele momento. Tão impactante que não notei que depois disso passaram-se cinqüenta minutos restantes sem grandes sobressaltos de performance, agora morna e despretensiosa. Àquela altura, porém, a noite já estava muito bem paga.
Ouvir Nyman necessariamente te remete a Philip Glass. É inevitável. Mas onde Glass parece estar sempre vendo o mundo em caos constante, pronto pra dar um último suspiro civilizatório, Nyman vê nascimento. Usa a mesma energia onde Glass se inspira, mas de forma construtiva. Enquanto Glass solta todos os demônios na Terra, Nyman os recolhe um a um, dando lugar apenas a um suspiro divino. Há angústia constante em Glass, mas Nyman prefere ver tudo como um grande laboratório em aperfeiçoamento. Não há mágoas em Nyman. E ouvindo-o naqueles bancos de madeira tive a impressão de ter escutado algo a mais, lá do lado das cordas, atrás dos violinos. Mas devem ter sido apenas os fagotes ao fundo.
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