por Luara Calvi Anic

Pitty mata a saudade de casa em novo álbum e fala sobre a mulher que se tornou após os 40: ”A maturidade faz a gente se permitir um monte de coisas”

Pitty tem revisitado suas origens: a Bahia onde nasceu e começou como cantora e compositora. O resultado é Matriz, seu quinto álbum de estúdio e o mais diverso até então. Aos 41 anos, ela faz questão de reforçar que esse “é um disco de rock”. E, de fato, é. Ainda que haja canções que flertam com outros estilos, como o ragga e o rocksteady, [ambos gêneros jamaicanos] e participações de artistas baianos como Lazzo Matumbi, Larissa Luz e BaianaSystem. “São pessoas que representam a minha Bahia”, diz à Tpm.

Uma espécie de crônica de Salvador aparece em letras como a de “Bahia Blues”, em que Pitty canta: “Cresci na Ladeira do Prata / Andei no Campo da Pólvora / Rodei pela Barroquinha.” Há também autoanálises, como em “Bicho Solto: “Eu me domestiquei para fazer parte do jogo / Mas não se engane, maluco, continuo bicho solto.”

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A maior roqueira brasileira da sua geração usa a música para investigar a própria trajetória. “Tem o fato de eu agora me identificar e entender a minha posição de imigrante. Um reconhecimento que veio com o distanciamento”, diz. Há 16 anos, Pitty se mudou para São Paulo por causa da carreira. “Na Salvador daquela época eu me sentia muito diferente, na música e na aparência. Era das poucas tatuadas, com o cabelo meio estranho. Quando cheguei na avenida Paulista pela primeira vez, havia uma diversidade que me fez sentir em casa”, recorda.

Hoje, Pitty segue morando na cidade com o baterista Daniel Weksler, marido e pai de sua filha Madalena, de 2 anos. Ela concilia os shows e produções com a segunda temporada de sua participação no Saia Justa (GNT), que é gravado semanalmente ao vivo. “Com o programa eu aprendo muito e me sinto desafiada, no bom sentido”.

A seguir, os melhores momentos do papo da cantora com a Tpm.

TPM Você fala de saudade em duas canções do disco, revisita os lugares por onde cresceu na canção Bahia Blues e convida músicos do estado para participar. É um álbum saudoso?

Pitty Não. É um olhar para uma história, mais relacionado a identificação. É engraçado porque tem a vinheta “Saudade” e uma outra música que diz “Sinto saudades já não me recordo porquê”, mas não acho que seja sobre isso. Não é nostálgico, como se eu quisesse aquilo de novo. Pelo contrário, não quero o que já passou, quero o que vem. Meu tempo é agora! Estou na melhor época da minha vida, sempre acho que estou na melhor época e que amanhã vai ser melhor.

É um disco com colaborações de músicos de cenas diferente. Qual estilo o define?

Cada um vai interpretar de um jeito, mas eu considero que seja um disco de rock. Ele tem um monte de referências, mas todas convergem para isso. Não teria como ser diferente, essa é a minha essência.

E o rock hoje é menos purista do que em outros tempos.

Sim. Acho que realmente mudou. Se hoje você tem acesso a tanta coisa e pode mesclar estilos com propriedade, por que não fazer isso? É muito geracional e tem a ver com segurança. Quando somos mais novos, somos mais inseguros, tem aquela coisa de precisar se reafirmar. A maturidade faz a gente se permitir um monte de coisas. Você percebe que pode ser muitas sem deixar de ser quem é. 

No Saia Justa vocês  [Pitty, Astrid Fontenelle, Mônica Martelli e Gaby Amarantos] falam muito sobre feminismo. Como acha que os homens podem colaborar nessa luta?

Ouvindo, aprendendo e apoiando. E sabendo que essa é uma luta por direitos igualitários, que beneficia todo mundo, inclusive os próprios homens. Ser pró-feminista também é dar voz às mulheres, não praticar o mansplaining [explicar algo a uma mulher de maneira simplista ou condescendente], que é algo que ainda vejo acontecer. Gosto quando estou cercada de homens que me veem como igual, me tratam como igual. Você saca quando não tratam, quando o cara está sendo paternalista, mas fingindo que é modernão.

Com o programa você precisa estar atenta ao mundo. Como faz para sair da sua bolha, não ficar fechada no mesmo discurso, na vida de artista?

Tenho que estar atenta, porque é muito fácil e confortável você se perder em uma rede de privilégios. Procuro olhar o outro, olhar para o lado. Manter hábitos que sempre fizeram parte da minha vida e que muitas vezes não são possíveis por conta da profissão, como andar na rua ou ir à padoca tomar café da manhã. Teve uma época da minha vida, um momento de muita popularidade, em que esse tipo de coisa se tornou impossível. Isso me machucou porque perdi uma parte do que era humano em mim para viver de música, que era uma coisa que eu queria muito. Foi um dilema, entrei numa crise. Pensava que não poderia perder o que me faz humana, o que me faz escrever: conviver, estar na rua, na madrugada, encontrar pessoas diferentes, ir ao mercado, andar de transporte público. Então tinha um luto e tinha um gozo ao mesmo tempo. Um gozo de existir como artista finalmente, pagar minhas contas como artista no Brasil — o que é um privilégio. E, ao mesmo tempo, não podia sentar com meus brothers em qualquer bar, em qualquer lugar e a qualquer momento. Hoje acho que consegui um equilíbrio.

Acha que esse isolamento acontece também com pessoas que não são famosas, mas vivem fechadas em suas bolhas da internet?

Sim. É confortável e o algoritmo das redes sociais é feito para isso. Pragmaticamente falando, talvez seja bom se conscientizar disso e fazer o exercício de seguir três pessoas que você nem vai muito com a cara ou não concorda com a opinião. E, ai, ouvir, ler diariamente o que elas têm a dizer. Desde que não seja uma coisa que te ofenda, é interessante lidar com esse desconforto do diferente também. Isso vale para os dois lados, não só para o lado que eu considero o das pessoas legais. Eu faço esse exercício. Sigo nas minhas redes pessoas que são divergentes de mim ideologicamente porque é importante que eu veja e saiba que aquilo acontece, senão a gente fica num mundo de Alice.

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É a primeira vez que seu marido [Daniel Weksler baterista da banda NX0], toca em um disco seu. Como foi trabalhar junto?

Foi ótimo. Na real ele entrou na banda meio que por acaso porque, no ano passado, eu tinha um show importante para fazer e o Duda [Machado, com quem Pitty namorou até 2004], que era meu baterista na época, resolveu sair. A ideia era o Dani quebrar um galho, fazer esse show e depois eu ia procurar alguém. A gente tinha um baita dilema sobre trabalhar junto — já somos casados, será que não estraga a relação? Queremos ter cada um a sua identidade, a sua individualidade, acho isso importante para um relacionamento. Mas, ai,  a gente fez o show com os meninos e foi tão orgânico... Parecia que tocavam juntos há tanto tempo, foi um groove, um amor dele com a banda. Aí fizemos essa reflexão: "Por que abrir mão de um negócio que está fluindo, que está bom agora. Vamos viver isso? No dia que não for bom a gente conversa.”

Consegue citar discos de outros assuntos, que permeiam a sua trajetória, e que, de algum modo, estão em Matriz?

O disco Gilberto Gil, de 1971, que é o álbum da volta dele do exílio. Acho que tem muito essa coisa do cara com seu violão, em uma terra estrangeira, essa imagem dele em Londres falando sobre um banzo [a nostalgia de negros escravizados]. Muita coisa latina, cumbia, mento, ragga e rocksteady. Tem a ver com Muddy Waters ao contar uma história, com Robert Johnson e com toda essa galera do blues norte-americano mais roots. Essa onda de falar sobre a sua origem, de sair da sua terra e buscar a vida na cidade grande. Tem a ver com samba de roda do Recôncavo Baiano, com capoeira. Na verdade tudo isso vem da música negra, da cultura negra que foi tão perseguida, criminalizada, criticada no nosso país – a capoeira era proibida durante muitos anos, todas as religiões de matriz africana que ainda são tão demonizadas. A origem do rock é negra. A primeira grande roqueira pra mim foi Sister Roseta Tharpe. Tudo o que temos na nossa cultura a gente deve à cultura negra.

Créditos

Imagem principal: Otávio Sousa/Divulgação

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