Luiz Alberto Mendes sobre alegrias, morte, academia e dores de dente

Liberdade não tem nada a ver com ser feliz, embora não seja possível ser completamente feliz sem liberdade. Vivi momentos felizes com meus filhos pequenos me visitando na prisão. Lembro um momento de liberdade quando fiz um patinete de rolimãs. Meus meninos exultaram. Colocava o mais novo de pé dirigindo, o mais velho sentado no patinete e deixava espaço só para colocar as pontas dos meus pés. As galerias da penitenciária eram largas e compridas. Saía empurrando os dois até pegar velocidade total. Então trepava no patinete e segurava no guidão. A gente voava. Os moleques gritavam tanto de alegria, que, quando estive com eles na montanha russa do Playcenter, não foi tão emocionante. Com a alegria deles, fui mais feliz do que com as minhas.

Soltar o homem aprisionado não significa libertá-lo. A liberdade não é apenas essa coisa física e pequena de ir e vir. Você cansa, se tentar. O índice de reincidência criminal beira os 85%. Boa parte dos que estão presos nesse momento estão condenados a voltar às grades, antes mesmo de sair. Estar liberto é estar em pleno combate contra os condicionamentos a que fomos submetidos desde que nascemos.
Ultrapassar culturas que nos foram impostas. Somos mantidos preocupados com valores de pouca importância, limitando nosso tempo de vida. É no tempo que desenvolvemos nossas vidas. Quando perdemos tempo, perdemos vida. Viver mesmo, com toda potência existencial, é estar no presente completamente, por pior que ele seja. Lutar vigorosamente contra condicionamentos incutidos e contraídos e não projetar nenhum limite para o futuro talvez seja a única saída.

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Na prisão, aprendi a viver segundo esse pensamento. O meu passado me condenava e me marcava indelevelmente. Não existia futuro porque estive condenado a mais de cem anos de prisão. Prisão perpétua. O meu futuro seria o mesmo de sempre, para sempre, o hoje de todos os dias.

Jamais acreditei que chegasse à idade que tenho, 66 anos. Hoje me surpreendo ao lembrar que nem até os 20 chegaria, caso não fosse preso. A polícia queria me matar e me caçava desesperadamente. Se fosse preso, ficaria preso o resto da vida. Mesmo preso, existi cada átimo de segundo fortemente; sempre havia motivo para sofrer ou ser feliz. O tempo foi passando, quando percebo, estou velho, ainda que assim não me sinta. Sim, fiquei mais de 30 anos preso, mas estou a gloriosos 15 anos solto.

Agora ando preso ao hospital e, em última análise, também por minha culpa. Tenho que ir lá constantemente, 11 meses após o transplante, ainda sou paciente. E só posso ser tratado no hospital porque, como transplantado, para mim tudo é diferente e complicado. Ainda mais agora que meus dentes estão quebrando, após três anos tomando remédios e mais remédios. Hoje, depois de anos, tomo menos: nove comprimidos por dia. Em cima já estou banguela, na parte de baixo já tem dois quebrados que doem demais. Tomo Dipirona de seis em seis horas para aguentar.

Até o fim

Mas era naqueles instantes que se desenvolvia minha vida. Boa ou ruim, ainda assim era minha vida. Era preciso me concentrar 100% para sobreviver e construir alguma alegria, algum prazer e alguma satisfação de existir para conseguir chegar até o fim.

O que me resta é só o presente. E um presente extremamente dolorido e arriscado. Farei exames gerais até o fim do ano para ver se não apareceu nenhum outro tumor, se o redivivo, apesar de ter acabado com meu fígado, não apareceu novamente. Não sinto nada. Mas há três anos era forte como um touro e não sentia nada também: perdi 25 quilos de massa muscular em diarreias. Está difícil de me recuperar. Mas vou indo aos poucos, pegando uns pesinhos aqui em casa. Mês que vem completo um ano de transplante e então posso voltar à academia com tudo. Agora é só força de vontade. Vou ficar mais forte que antes, vou me esforçar mais. Imagine se não tivesse esses 25 quilos para perder, de onde iria tirar?

Sem choradeira porque não vou mentir: minha vida não foi nada boa, dei muita mancada, vacilei demais comigo mesmo. Quando lembro de certos momentos, tenho a maior vontade de chorar de dó de mim. Então, morrer não será assim uma desgraça tão grande. Seja como for, ando até curioso: imagina, vou desvendar todos os mistérios que nos mantêm condicionados ao que somos aqui. Não serei mais egresso, principalmente. Não ter que ficar lutando, às vezes desesperado e preocupado com o pão nosso de cada dia. Particularmente, será um prazer não ter mais que suportar olhares raivosos em caras ameaçadoras, espremidos no metrô. Não ter que aguentar calado ser enganado pelos políticos, inclusive aqueles em que votei, pelos quais fiz campanha, bebi e comemorei vitórias.

Créditos

Imagem principal: João Wainer / Acervo Trip

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