Por Redação
em 12 de dezembro de 2005
Tento me reinventar a cada texto. Não suporto me repetir, embora o faça até sem querer. Isso está se tornando cada dia mais difícil porque os temas são sempre recorrentes. Já um célebre pensador dizia que depois de Shakespeare ninguém criou mais nada. Sou obrigado a concordar, pelo menos em parte. É só observar o enredo das novelas e dos filmes atuais para enxergar suas histórias. É sempre alguém que foi traído e que vai se vingar. O que me leva a pensar que não somos livres nem quanto aos arquétipos históricos. Estamos condenados a nos repetirmos.
A população do planeta aumenta 210 mil pessoas por dia; cerca de três pessoas por segundo. Penso se essa multidão de novos habitantes do planeta vai ficar repetindo o que todos anteriormente fizeram. Sei que liberdade mesmo só existe para aqueles que buscam o novo, diferente de tudo o que já foi feito. Tem a ver com expansão, como nosso corpo a crescer para todos ao lados. Expandir em termos de conhecimentos para aumentar nossa capacidade de dimensionar a existência.
Foi somente quando li Paulo Freire é que pude entender. Ele dizia, em outras palavras, que, quando a pessoa aprende os códigos de comunicação social, faz uma releitura do mundo. Foi o que se deu comigo. À medida que empreendi aprendizado, fui ampliando horizontes, respondendo às minhas indagações e entendendo um pouco mais do processo existencial. Então construía uma liberdade especial que pouco tinha a ver com o fato de ir e vir. Era um processo mental de expansão, de ir ao mundo e às pessoas por meio dos meus livros, textos e idéias.
Em muitos momentos, por mais paradoxal que aparente, mesmo aprisionado, estive mais livre do que agora, do outro lado da muralha. Claro, à medida que vou me adaptando e ampliando meus campos de ação e pensamento, vou conseguindo o mesmo desempenho aqui fora. Embora acredite que cada um de nós é o personagem de sua própria história, às vezes chego a duvidar de que sejamos o ator principal. A responsabilidade por nossos dias tangencia a história geral na qual estamos incluídos. No fim, penso, estamos agregados ao destino de todos e temos pequeno espaço para desenvolver o nosso.
Da prisão saí com um único preconceito. Todos os outros a vivência carcerária alijou de uma vez para sempre. Jamais gostei de polícia. Desde muito pequeno, sempre torci para os bandidos. Nem bombeiro escapava. Eram meus inimigos pessoais enquanto instituição. Eu os vi cometer muitas barbaridades e sempre com enorme covardia. Sofri demais em suas mãos.
Então fui pai. Como tudo muda quando temos vidas sob nossa responsabilidade! Nunca havia sido responsável por ninguém. Fui pego inteiramente de surpresa por tudo que infere a paternidade.
E estava preso. Vi minha companheira tão frágil e indefesa, com o nenê no colo, e comecei a não só entender, mas sentir também o meu engano.
Eu queria sentir que eles também estavam protegidos pelas leis e pela polícia. Minha condição de presidiário me colocava inteiramente à mercê. Não podia estar lá para olhar por eles e defendê-los. Essa releitura me ajudou a construir minha cidadania, meu compromisso com a coexistência social. Minha libertação desse preconceito se deu por expansão e não por mudanças pessoais. Todo preconceito limita, cerceia.
Não acredito em transformações ou mudanças. Somos sempre nós mesmos nos fazendo melhores ou piores em relação a tudo o que nos cerca. Quando aprendo tomo posse de um conhecimento que me leva para além do que sou. Posteriormente esse novo entendimento vai ser ponte para novos aprendizados. Sou o que aprende. Aprender é expandir, crescer dentro de si mesmo. Sou todos que fui em camadas superpostas que formam o que sou hoje. Não há limites para a expansão.
Com a liberdade não ocorre o mesmo. Somos livres apenas para escolher as regras que mais se adaptam ao nosso sistema pessoal de existência. Vencer um preconceito é avançar em nossa existência. A liberdade de aprender é sempre o primeiro passo. E aprender é expandir, ultrapassar, ir além. O homem é um devir, como queriam os existencialistas.
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