Neve em Bali
Bali virou um paraíso do tráfico – com brasileiros ocupando papel central nisso. Trip conversou com Kathryn Bonella, que passou anos enfurnada nas cadeias de lá
Rua Poppies Lane II, perto da praia de Kuta, um dos picos mais bombados de Bali
em 30 de julho de 2015
Em 1971, o filme Morning of the earth, dos australianos Alby Falzon e David Elfick, inaugurou o Bali dream, o sonho de viver a vida sobre as ondas num paraíso perdido na Indonésia. Começava assim a história contemporânea da chamada “ilha dos deuses”. O movimento hippie estava no auge, com hordas de jovens pegando a trilha do Oriente. De lá para cá, Bali atravessou várias marés. Nos anos 80 e 90, as raves, as drogas psicodélicas, o verão sem fim. Nos anos 2000, na esteira da fama mundial, aportou o dinheiro. Com ele, a transformação do recanto selvagem dos surfistas e desterrados na Ibiza oriental. E também no paraíso das contradições.
“Um paraíso, sem dúvida, de natureza exuberante, premiado pelo sol, pelas ondas perfeitas. Excelente comida. Mas os turistas bebem seus coquetéis sem a menor noção do que se passa ao redor”, diz a jornalista australiana Kathryn Bonella, autora de três corajosos livros sobre o submundo dos contrários de Bali: Schapelle Corby – minha história, biografia de Corby, uma estudante australiana presa com 4 quilos de maconha; Hotel K, a vida na prisão de Kerobokan, presídio de Denpasar, a capital da ilha; e, o mais recente, Snowing in Bali, um mosaico de loucas histórias de traficantes, entre eles um grupo de brasileiros encabeçado por Marco Archer, fuzilado na Indonésia em janeiro, e Rodrigo Gularte, morto em abril.
Cada um dos livros de Kathryn é um atestado: a combinação da pena de morte para o tráfico de drogas, lei que vigora na Indonésia desde 1997, e o estilo de vida hedonista, regado a baladas intermináveis, tornou Bali o cenário perfeito para o florescimento da corrupção. Lá, money talks, como diz a jornalista. “Qualquer motorista de táxi em Bali vai te dizer isto: ‘dinheiro fala’. Em nove anos investigando a prisão de Kerobokan, nunca ouvi uma única história em que não houvesse dinheiro no meio”, comenta ela. “Ser preso em casa ou no hotel é bem mais barato do que ser pego tentando entrar com drogas no país. Nos últimos dez anos, os preços subiram. Hoje em dia, US$ 10 mil é o mínimo de propina para se safar de um flagrante.”
Snowing in Bali (em tradução livre, Nevando em Bali), com previsão de lançamento no Brasil em breve pela Geração Editorial, é um thriller, daqueles com todos os requintes: drogas, sexo, corrupção, luxo, aventura, coragem, medo, desafio. Ao longo das páginas, traficantes desafiam a morte entrando com quilos de cocaína e maconha na ilha.
Glamour e fuzilamento
“A maioria são jovens que chegaram a Bali em busca do estilo de vida e começaram a vender drogas para se sustentar”, diz Kathryn. “Com a ilha cheia de visitantes ávidos, o mercado interno é potente. Eles negociam a droga nas boates, nos hotéis de luxo e depois vão surfar com os bolsos recheados de dólares. No meu livro, um dos traficantes explicita detalhes de suas orgias com modelos e atrizes que encontra nos restaurantes chiques da ilha. O problema é que o glamour do bad guy pode acabar em frente ao pelotão de fuzilamento.”
Kathryn passou quase uma década em Bali, entrevistando os patrões da cocaína e os condenados à morte. Em 2004, ela largou o emprego de produtora do programa da TV australiana 60 minutes e se instalou na ilha. Sua missão era fazer a biografia da estudante Schapelle Corby, que foi presa no aeroporto de Denpasar com 4 quilos de maconha e condenada a 20 anos de prisão. Durante suas visitas ao presídio de Kerobokan, onde estava Corby, a jornalista descobriu o ingrediente-chave para os seus três livros: a corrupção. “Vi um bizarro mundo de violência, sexo, drogas, propinas milionárias e conheci muitos traficantes, inclusive o Marco Archer. Foi natural partir para o segundo livro, Hotel K, e, em seguida, para o Snowing“, diz. “O título, Hotel K, é porque os presos que têm dinheiro vivem como reis lá dentro. Drogas, álcool e comida dos melhores restaurantes na porta da cela. Eu diria que Kerobokan é o lugar mais seguro de Bali para traficar drogas. Os guardas trabalham em parceria. É muito fácil entender: fazem em um dia o salário do mês todo.”
O protagonista de Snowing in Bali é o brasileiro Rafael (o nome foi trocado para preservar sua identidade), que nunca foi condenado e hoje trabalha como professor de surf na ilha. Entre 1990 e 2000, ele fez fortuna traficando cocaína para a Indonésia dentro de tubos de alumínio usados em asas-deltas. No auge da carreira, não tinha pudor de ostentar. Construiu uma mansão à beira-mar em Canggu, praia de Denpasar, usava relógios Rolex, distribuía propinas e dava festas nababescas, regadas ao melhor pó colombiano. Rafael chegou a ser alvo de uma investigação. Vendo amigos caírem nas mãos da polícia, resolveu que era hora de parar.
Disfarce perfeito
“Os brasileiros têm vantagens sobre outras nacionalidades, embora o tráfico de drogas em Bali seja comandado por gente de vários lugares. São viajantes e se misturam facilmente aos turistas. Ao contrário dos peruanos, por exemplo, que encontram mais dificuldade em se camuflar”, comenta Kathryn. “Outra vantagem é a proximidade com os países produtores, como Colômbia e Peru. Depois de entrar com a droga pela fronteira do Brasil, não encontravam dificuldades em fazê-la chegar na Indonésia. Seus equipamentos esportivos eram o disfarce perfeito.”
Entre os personagens de Snowing in Bali está o carioca Marco Archer, morto aos 53 anos. Kathryn o entrevistou na prisão de Nusakambangan, a Alcatraz da Indonésia. “Ele cozinhou para mim. Era chef com diploma”, conta a jornalista. No livro, ela descreve Archer como um sedutor, um aventureiro sem limites, em busca da morte. O instrutor de voo livre foi pego no aeroporto de Jacarta, em 2004, ao tentar entrar na Indonésia com 13 quilos de cocaína escondidos nos tubos da asa-delta, técnica que aprendeu e repetiu inúmeras vezes com o amigo Rafael.
Só que dessa vez os policiais desconfiaram e resolveram abrir os tubos. Enquanto labutavam com as ferramentas, Marco escapuliu da cena do crime andando tranquilamente, pegou um táxi até o aeroporto doméstico e embarcou para Bali. Seguiu-se uma fuga cinematográfica de 20 dias, com a polícia no seu calcanhar. Segundo Kathryn, a peripécia, que ocupou a manchete dos jornais por semanas, tirou-lhe a possibilidade de comprar a liberdade, possibilidade que cogitou até o fim.
“Marco era um cara muito divertido, otimista, sarcástico. Nunca admitiu que seria morto, conhecia os esquemas de Bali. Rodrigo (Gularte) era o oposto, quieto, triste. Levando em conta que ambos estiveram no corredor da morte por mais de dez anos e o governo indonésio nunca havia executado ocidentais, acreditei que seriam libertados”, diz Kathryn. E completa: “Pena de morte é uma barbárie. A morte dessas pessoas vai diminuir o tráfico por um tempo até que as coisas voltem a ser como antes.”
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