por Pedro Carvalho
Trip #272

Joaquin e Julian Azulay, da elite social argentina, resolveram deixar a vida mansa em Buenos Aires para se jogar no mundo. O resultado foram filmes que já conquistaram 41 prêmios em festivais

Um era arquiteto recém-formado, o outro estudava administração de empresas. O arquiteto estava terminando um trabalho de seis meses em Los Angeles. Conseguiu juntar algum dinheiro e pensou em fazer uma viagem épica: voltar de carro para Buenos Aires, onde morava, surfando a costa do Pacífico quase de cabo a rabo. Ele convidou o estudante de administração (seu irmão caçula, por sinal), que topou usar as férias de um mês e meio da faculdade para a aventura. Ficaram 13 meses na estrada. E filmaram tudo. Não sabiam nada sobre equipamentos de vídeo, edição de imagens, narrativa cinematográfica. Ao chegar em casa, transformaram a travessia em um filme de surf que seria premiado em nove festivais internacionais de cinema – na França, na Alemanha, nos EUA... Depois, nunca mais foram arquiteto ou administrador de empresas: viraram bem-sucedidos autodidatas profissionais.

A odisseia dos hermanos Julian (o arquiteto) e Joaquin Azulay rolou entre julho de 2010 e agosto de 2011. O filme, Gauchos del mar, saiu em 2012. De lá para cá, eles fizeram outras três viagens longas e fantásticas. Duas para o extremo sul das Américas, que renderam os também premiados Tierra de Patagones (2014) e Península Mitre (2016) – esses três filmes, juntos, ostentam 41 láureas de festivais. A jornada mais recente tomou quase todo o ano de 2017 e teve como cenário a África. Em abril, ela se torna uma série no canal Off, que deve se chamar África 360 – e, enquanto os brasileiros estiverem assistindo aos primeiros episódios, os Azulay entram em um avião para voltar ao continente e filmar a segunda temporada.

O sucesso dos diretores-surfistas argentinos deixa no ar a pergunta: por que, às vezes, o autodidatismo funciona tão bem? Quer dizer, quando alguém se mete a fazer aquilo que não sabe, que não aprendeu formalmente, o resultado quase sempre é um fiasco. E, em raras ocasiões, é genial. Por quê?

A própria história dos Azulay pode dar algumas respostas.

Papo direto

Os filmes são sempre narrativas simples e despretensiosas. Contam o dia a dia da viagem, sem truques. A linguagem crua combina com os lugares e personagens que eles visitam – e, quando dá por si, o espectador está viajando junto. “Gauchos del mar tem um jeito de filme caseiro, porém é muito bem-feito ao mesmo tempo. Como se você encontrasse antigos vídeos de super-8 no sótão de algum diretor consagrado”, diz Michael Kavanagh, criador e diretor do San Diego Surf Film Festival – que, em 2012, elegeu o longa argentino como melhor filme do ano.

Uma qualidade presente em todos os filmes dos Azulay são as entrevistas autênticas e verdadeiras que eles garimpam pela viagem. Eles não são como aqueles repórteres de turismo da TV a cabo que apresentam a agitação de uma cidade na Tailândia ou os sabores de um refúgio na Itália. Longe disso. Os irmãos têm um talento precioso: eles sabem se colocar no mesmo plano das pessoas com quem conversam. Não estão acima, não estão distantes. Não estão, definitivamente, com pressa. “Às vezes ouvimos que, se filmarmos em um ritmo tal, dá para registrar tal destino em dois meses e depois ficar tranquilo em Buenos Aires, editando. Ocorre que a gente gosta de viajar. A gente não quer estar aqui: quer estar lá”, diz Julian à Trip. “Os irmãos tomam o tempo necessário para encontrar não somente as melhores ondas, mas as melhores pessoas – e isso dá aos filmes uma dimensão realmente humana”, diz Bruno Delaye, fundador do International Surf Film Festival de Anglet, na França, que também premiou Gauchos del mar.

Assim, sem hora para voltar, os Azulay não pedem entrevistas: eles pedem para dormir na casa dos entrevistados por uma semana, para trabalhar no campo, para ajudar na cozinha. Até que apareçam ondas perfeitas. E conseguem depoimentos lindamente francos. Como na cena de Tierra de Patagones em que o estivador de um porto da costa argentina, entre um gole e outro de chimarrão, passa a fazer reflexões. Sua aparência é rude, mas seu dircurso é articulado. Ele fala sobre a dureza da vida no mar, sobre como é triste perder um amigo que escapa pelas mãos em meio a uma tempestade. E termina: “Essas anedotas sobre uma vida de aventuras, sobre uma mulher em cada porto... É mentira. O marinheiro não tem anedotas bonitas. Nossas anedotas são todas tristes. Somos todos duros”.

Em outro momento de Tierra de Patagones os irmãos conhecem Pati, um jovem quase selvagem que mora em um casebre na Terra do Fogo, onde vive de caçar nas montanhas. “Ele é uma lenda na região, teria boas histórias. Mas é um cara muito difícil, se não vai com a sua cara, manda você embora na hora”, conta Julian. Os irmãos passaram cinco dias na cabana de Pati, descrita por Julian como “a maior sujeira”. Os depoimentos são memoráveis, mas o fato mais revelador se passou um ano e meio após as filmagens. Os Azulay – como fazem com a maioria dos entrevistados – voltaram à casa de Pati para entregar uma cópia do filme. Um tipo de cuidado que não se vê muito por aí, e repare que não se trata de algo prático: Pati mora quase no último rochedo gelado do continente. Quando reapareceram, em meio a uma tempestade de neve, o jovem quase caiu duro. E, quando deram play no filme, Pati começou a chorar. “É difícil fazer um cara desses chorar. Um cara bem duro”, lembra Julian. Ao ver sua própria imagem eternizada em celuloide, Pati apontou a tela e arrematou: “Este índio não morre mais”.

Plano real

Portanto, ainda que tenham longas sequências de música e surf (e pense numas ondas boas...), no fundo, o barato dos filmes está no interesse genuíno dos irmãos pelas pessoas e lugares que visitam. “Nós não somos a parte principal do filme”, diz Julian. “No fundo, tem a ver com igualdade humana”, completa Joaquin. “Se você viaja com essa premissa, consegue trazer as histórias para um plano real, e a narrativa funciona”, ele resume.

Nesse ponto, vislumbramos uma palavra-chave do autodidatismo que dá certo: paixão. No caso deles, paixão por lugares, pessoas, viagens e por documentar tudo isso. E, também, por aprender sobre aquilo pelo que se tem paixão – ainda que não em uma faculdade. “Se a gente tem alguma dúvida [sobre os filmes], está tudo na internet, em tutoriais. Tem respostas para tudo”, diz Julian. “Outro dia, vi um moleque de uns 18 anos fazendo uma edição muito maneira de um filme e perguntei: ‘Pô, você estudou isso, né?’. E ele: ‘Nada, YouTube’. Ou seja, a informação está toda aí. Mas, se você não tem paixão, não vai atrás.”

A relação entre o aprendizado formal e o premiado trabalho dos Azulay é cheia de nuances. Filhos de um pioneiro do surf argentino – o arquiteto Jorge Azulay, que começou a surfar em 1963 e hoje, aos 74 anos, ainda surfa com a mulher (Carola, 60) na praia do Rosa, em Santa Catarina, onde moram –, eles foram crianças comprometidas e responsáveis no colégio. Julian nunca pegou uma recuperação; Joaquin, apenas uma, de biologia. Após se formarem, os dois ingressaram na Universidade de Buenos Aires, uma instituição pública bastante concorrida.

Enquanto estudava administração, Joaquin ensaiou uma carreira de jogador de futebol. Tinha defendido as categorias de base do River Plate e do São Lourenço, então partiu para temporadas na Espanha e na Grécia – mas nunca parou de estudar. Mesmo após o sucesso de Gauchos del mar, fez questão de terminar a faculdade. Hoje, assim como Julian – que, após o filme, só voltou a pegar em uma prancheta para projetar o interior do caminhão em que viajariam pela África –, ele reconhece a importância da formação superior. Não tanto pelo conteúdo, mas pela metodologia e pela vivência adquiridas. “Você passa muitas horas estudando, desenvolve uma disciplina. É bom ter esse hábito, faz a cabeça mais ágil”, diz Julian.

Mas, em seguida, ele recalcula o pensamento. “Bom, aí a gente encontra pessoas como o Sergio Anselmino, que fez as últimas viagens conosco... Um gênio, um cara fantástico, sabe tudo sobre expedições, caminhou 700 quilômetros pela Patagônia sem conhecer a rota – e nunca foi para faculdade nenhuma. O que eu vou responder?”, ele reflete. “Acho que a formação universitária ajuda, sim: mas a paixão é sempre mais importante.”

“Além disso, as pessoas perguntam: ‘O que você estudou? Que faculdade fez?’”, acrescenta Julian, reconhecendo também a evidente chancela social do ensino superior. É de se compreender. Após os filmes, Julian e Joaquin passaram a circular em festivais pelo mundo – da França ao Canadá, da Austrália à Inglaterra e por aí vai. “Você é um bicho raro ali, sabe? Tudo é muito formal, as vestimentas... Tivemos de aprender a nos mover naquele ambiente”, diz Joaquin. “Mas fomos bem, fizemos contatos importantes. Aprendemos a falar aquela língua. A língua, os códigos, isso é uma ferramenta poderosa”, ele diz.

Acolhidos nos festivais, os irmãos não tiveram a mesma sorte nos círculos de cinema da Argentina. Quando falam sobre o tema, parecem meio desconectados da cena intelectualizada – e talvez um pouco empoeirada – de cinéfilos do país. “O Instituto Nacional de Cine não nos ajuda em nada, mesmo depois de ganharmos 41 prêmios. A gente envia um projeto atrás do outro e eles rejeitam. Acho que têm preconceito por sermos dois jovens surfistas, pensam que estão pagando férias para nós”, diz Joaquin. A única verba que amealharam dessa forma foram US$ 2 mil para ajudar na pós-produção de Tierra de Patagones. Nem para uma expedição surfística às Ilhas Malvinas, promissora em termos culturais, para a qual eles devem partir em fevereiro, a dupla conseguiu apoio. Mas isso, de certa forma, também os deixa livres para inovar. “Não somos influenciados pelo cinema argentino, não somos influenciados por nada. Não vemos filmes, nossa TV fica o tempo todo desligada”, conta o caçula.

Os dias mais difíceis

A série sobre a África terá a mesma pegada dos filmes: lugares inóspitos, personagens marcantes e ondas incríveis – a Trip teve acesso a um trecho. Filmada ao longo de dez meses, ela parte da Espanha (onde eles transformam um caminhão Unimog 1985 em um furgão de surf) e desce a costa africana, avançando por Marrocos, Saara Ocidental, Mauritânia e Senegal. Depois, a expedição seguiu até o Gabão, mas esse trecho estará na segunda temporada, que termina na África do Sul. A ideia era filmar as duas temporadas de uma vez só, mas a empreitada acabou abortada pelo maior perrengue que os irmãos já encararam.

Eles ficaram 43 dias empacados na Nigéria, encurralados entre a guerra civil de Camarões (ao sul), o grupo terrorista Boko Haram (ao norte) e uma porção de embaixadas corruptas que negavam seus vistos. “Tentamos três barcos para sair pelo mar, uma corrupção horrível... Quando conseguimos, fizemos em 48 horas uma viagem que leva 18, tirando água do barco, evitando os piratas do golfo da Guiné”, conta Joaquin. Ao chegarem a Camarões, um dos companheiros de viagem teve pneumonia e ficou duas semanas de cama. Depois disso, os irmãos resolveram voltar a Buenos Aires e retomar a aventura em 2018. “Foram os 60 dias mais duros da minha vida”, diz Joaquin. Mas o saldo da viagem foi bem positivo. “A gente ficou hospedado no deserto com beduínos, no Senegal, com pescadores, nas aldeias, com moradores locais... Aí está a aprendizagem.”

Aprender pelo caminho. Talvez a tática documental dos Azulay seja o melhor resumo do que é ser autodidata: alguém aberto ao aprendizado permanente. E com uma boa dose de paixão. E, no caso deles, com um faro natural para caçar boas histórias, como fazem os cães pastores de Martin, que mora em algum canto remoto da Patagônia. Quando os irmãos repararam na competência dos cachorros para organizar o rebanho, um deles perguntou:

– Martin, como você faz com os cachorros? Como ensina eles?

– Eu nunca ensinei eles - respondeu o fazendeiro -, a única coisa que eles sabem é "vaca, vaca".

Talvez todos tenhamos uma vaca que nascemos para perseguir. Os Azulay, sem dúvida, encontraram a deles.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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