Invencível estrada
Em alguns momentos já nem sei se ainda tenho uma alma ou um mar de ternura que se derrama sobre mim

Estava jogando bola com meu filho mais novo, Jorlan, e duas meninas da vizinha. Pensava no que escreveria dessa vez. De repente o moleque caiu para a esquerda. Tentei bloquear com o corpo, ele escorregou igual quiabo e eu fui ao chão. Quis rir, mas doeu. O braço estava duro e o ombro ralado. A pressão caiu vertiginosamente. Pesquei a mim mesmo de dentro vórtice que ameaçava me engolir. A escuridão me invadiu; na boca, o gosto daqueles frutos ácidos. Dentro dos olhos, vários sóis; esperei cair como flores decepadas. De dentro do cansaço físico, minha sombra era trapo roto a me envolver.
Saí cambaleando às cegas, com sorriso branco pregado no rosto. As crianças me olhavam. Encostei na parede e disfarcei. Começou a chover. Fiquei olhando as crianças correndo, alegres, debaixo da garoa e aquilo me bastava. Sou o que em torno de mim esta. Essas crianças garantem que não sou apenas mais um idiota que pensa. O riso, a briga, pequenos rostos vermelhos a suar esbaforidos, exprimem satisfação de viver que animaria uma pedra. Nesses momentos, já nem sei se ainda tenho uma alma ou um mar de ternura que se derrama.
O sentimento que invade o peito é de uma sabedoria que jamais quis. Aquela espremida das dores, recolhida do sofrimento, dos terminais da tristeza e da solidão. Ainda caminho a invencível estrada, embora mais decididamente.
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