Insatisfação garantida
A peça Centro Nervoso, de Fernando Bonassi, é um incômodo permanente. E isso é bom
Por Redação
em 26 de junho de 2006
Conheci Fernando Bonassi durante uma oficina literária promovida por ele na extinta Casa de Detenção de São Paulo, dentro do projeto “Talentos Aprisionados”, da atriz Sophia Bisilliat. Eu dava aulas e, àquele tempo, meio que coordenava a escola de toda a prisão. Ao ver um de seus cartazes convidando pessoas que gostavam de escrever para uma conversa, respondi.
Há muito eu me interessava por escrever. Tinha até um livro, escrito cerca de 11 anos atrás, e jogado numa gaveta lá de casa. Milagrosamente ainda não havia ido para o lixo. Não tinha a mínima esperança em publicá-lo. Como não podia deixar de ser, nos tornamos amigos e a oficina literária acabou virando um concurso literário. Ganhei o primeiro lugar com o conto "Cela-Forte", que hoje é título de meu quarto livro, ainda inédito. Por uma dessas desinteligências humanas, fui transferido da Casa de Detenção de São Paulo para a Penitenciária de Presidente Wenceslau II. O mesmo lugar para onde foi desmobilizado o pessoal do PCC recentemente. Não havia trabalho remunerado no presídio. Eu tinha uma esposa e dois filhos pequenos para sustentar. Como faria? Fernando, o novo amigo, prontificou-se a enviar uma certa quantia mensal para minha companheira, minimizando o meu desespero. E assim o fez durante mais de ano que fiquei por lá.
Se afirmo sempre que os livros me salvaram, em boa parte foi o Fernando que me levou a eles. Foi o primeiro a acreditar em meus textos. Leu meu livro, gostou tanto que se mobilizou para publicá-lo. Pediu que eu revisasse e uma amiga digitou. Encadernou e usou de sua amizade com o dr. Drauzio Varella para encaminhar o livro à primeira editora, a Companhia das Letras. Iríamos a outras, mas ele foi chamado pela Companhia. Não sabiam nada sobre mim; eu poderia ser um louco; psicopata, sabe-se lá. Quem escreve nunca é bem-visto mesmo. Foi a partir de sua afirmação positiva a meu respeito que foi possível iniciar uma carreira de escritor.
A partir da publicação do primeiro livro, já comecei a escrever o segundo. Intitulado "Memórias de um Sobrevivente", a obra me abriu mais portas: tornei-me colunista da revista e do site da Trip e, preso ou solto, nunca mais parei de escrever. Estou com três livros publicados e cinco no pente para publicação. Tenho até uma peça já agendada para ser encenada pelo ator João Signorelli e dirigida pelo Mário Bortolloto, no começo do próximo ano. Fernando me deu um futuro novinho em folha e jamais me cobrou por nada disso.
Então, quando ele produz alguma coisa, eu vou lá ver, ler ou saber. Compareço no lançamento de seus livros, acompanho, assim meio que de longe, desde antes da gravidez da Malu, sua delicada companheira, o desenvolvimento de sua filha, Valentina. Por isso, quando ele me convidou para que fosse assistir à peça Centro Nervoso, escrita e dirigida por ele (sua primeira investida na arte de dirigir) e que a Malu está no elenco, mais que depressa fui ver.
É uma nova experiência de nosso amigo. Como ele mesmo afirma, essa é uma peça de escritor. Acho que por isso calou tão fundo aqui dentro de mim. Há textos que são implacáveis, um atropelamento. Assim duros, pontudos como as extremidades dos navios a enfear o fundo da praia. O primeiro dos 13 textos, “Vende-se um grito”, é algo visceral. O ator Eucir de Souza exacerba até as últimas conseqüências, encenando com uma plasticidade encantadora. É uma insatisfação garantida, um incômodo permanente, algo que mexe por dentro e faz sorrir sem vontade. E assim os atores vão lendo e interpretando, a seu modo muito pessoal, esse mundo que se perde dentro dos textos do Fernando.
O último texto, “Onde a dor dói”, é esclarecedor. Onde esta á dor? E se ela acabou, para onde foi? De onde veio? E então a gente começa a compreender que o cara esteve o tempo todo falando da dor sem que a gente percebesse. São dores pequenas, negadas, qualquer dor, aquela que não se aprofunda em nada. Uma passagem que todos temos que passar, como ele bem diz. E como ninguém foi ensinado a conviver com a dor, sofrê-la, a gente vai indo aos trambolhões, caindo e levantando, como diria o Chico Buarque, “a gente vai levando”.
Para mim, o melhor texto é “Perdendo tudo”. O escritor ali prevalece e se estabelece. Perdemos até a consciência da alienação, diz ele. É a mais absoluta verdade. E esse talvez seja o único parâmetro que não poderíamos ter perdido. Ficamos órfãos, perdidos sem ter onde mais nos perder. E fica claro: estamos aqui para nos perder de nós, já que nos perdemos de tudo o mais. “Até que ponto conhecemos nossa responsabilidade na existência das coisas? E a nossa irresponsabilidade? E ainda há o desconhecimento da nossa responsabilidade na inexistência das coisas.” E assim mesmo continua a dizer que estamos perdendo tudo, mesmo que a princípio tivesse sido apenas ausência.
O mais empolgante é constatar que o meu amigo está cada vez mais rico em sua literatura. A sua dimensão de pensamento cresce e sua arte encanta. Essa é a terceira peça a que assisto em toda minha vida. Foi a melhor, até agora. Gostei particularmente quando ele demonstra, em outras palavras, que continuamos a viver nos rasgando, de cima a baixo, sem entender, negros e obscuros. É exatamente assim que penso.
Abraços ao grande amigo.
* Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há dois anos Mendes conquistou sua liberdade. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
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