por Music Forward

Uma vantagem de se fazer musica instrumental é que se alguém perguntar sobre o que é, você pode dizer literalmente qualquer coisa e ninguém pode duvidar.

Uma vantagem de se fazer musica instrumental é que se alguém perguntar sobre o que é, você pode dizer literalmente qualquer coisa e ninguém pode duvidar. Meu novo álbum de ambientent drone? É sobre o escambo de presentes nas comunidades rurais do Cambodia. Esse pedaço de minimal techno? Uma alegoria sobre o gerenciamento de dejetos no sistema publico de saúde. Sério, se eu estivesse sendo entrevistado sobre minha musica instrumental eu estaria me divertindo a beça.

Huerco S. também conhecido como o desconstrutor de dance music Brian Leeds, tem falado, extensivamente, como o seu excelente recém lançado álbum Colonial Patterns é baseado na história e infra estrutura das comunidades do centro-oeste americano na era pré-Colombianas. E nesse caso não parece balela. Ele realmente sabe do que está falando, conhecimento que deriva de um interesse genuíno na área em que cresceu. Uma das faixas, a sedutora ‘Quivira’, leva o nome dado pelo explorador espanhol Francisco Vásquez de Coronado à região de Kansas onde Leeds nasceu.

E não para por aí, Leeds afirma que seu processo de composição é diretamente influenciado pelas técnicas arquitetônicas dos indígenas que ali habitávam. Ele explicou um pouco numa recente entrevista na  FACT: "A cultura Mississipiana é mais conhecida pela construção desses montes de terra gigantes. Eu estava pensando como essas pessoas fizeram essas coisas. Este meticuloso - claro que trabalho escravo, mas - essa repetitiva tarefa só para construir esse monte. Algo sem valor, apenas terra, sabe? E aplicando isto ao som. Recriar essa repetição, ouvir a mesma coisa várias vezes. Cavando. Descobrindo coisas e as recobrindo de volta."

Ouvir Colonial Patterns confirma esta afirmação. O álbum circunda incansavelmente os ouvidos de uma forma que faz parecer que pode virar do avesso a qualquer momento, sufoca com sons que parecem hora borrados e abafados hora contemplativos e brilhantes. De longe você pode traçar semelhanças com Actress, mas enquanto os álbuns do produtor britânico tendem a ser tortos, recheado com fragmentos desconectados, Leeds dá espaço a seus elementos, talvez uma resposta à paisagem expansiva do Centro-Oeste. Um amor declarado aos lendários produtores de dub techno Basic Channel também faz sentido, e não é surpresa saber que ele é parte do selo do Daniel ‘Oneohtrix Point Never‘ Lopatin.

Enquanto a verdadeira potência de Colonial Patterns é sentida quando consumido como um todo, algumas faixas se destacam. ‘Skug Commune’  é uma re interpretação desconcertante de house, que fica gradativamente mais furtivo até se cristalizar, a psicodélica 'Angel Phase’ é como garimpar a procura de diamantes e ‘Plucked from the Ground Towards the Sun’ tem um bumbo que marca como um coração as delicadas convulsões dos syntetizadores, que soa como o sistema digestivo de um robô um pouco enjoado. Uma pessoa em nosso escritório queixou-se de tonturas depois de ouvi-la (enquanto outra disse sobre 'Anagramme of My Love' "essa música está me fazendo sentir meio estranho!"), Que lhe dá uma idéia de quão estranhamente intoxicante é.

Faixas como 'Monks Mound (Arcology)' recolhem as aparas mais sombrias de techno em uma forma similar a Demdike Stare, enquanto ‘Iińzhiid’ flutua com a vibração pesada de uma borboleta afundando e os trechos de melodia em ‘Chun Kee Player’ são apenas vagamente ouvidos, como se sobre o barulho de um vendaval. No entanto, você não pode dizer que é um álbum sombrio. As violentas, fatias de percussão desconexas de ‘Fortification III’ são contrastados com suaves gotas melódicas ao fundo, enquanto ‘Prinzif’ é, provavelmente, a melhor faixa de todas. Bonitos acordes dissonantes sugerem um Boards of Canada mais otimistas , e quando as cordas (de sintetizadores) entram ... noossa!

Se há alguma decepção aqui, é ‘Ragtime U.S.A.’ (Warning)’ que não é uma releitura eletrônica de Scott Joplin. Isso não é para denegrir a faixa propriamente, uma pancada borbulhante e intoxicante que parece que você está ouvindo prostrado nos fundos de um clube, com apenas alguns elementos filtrando pelas paredes. Leeds admitiu "que ele nunca foi a clubes até bem depois de estar envolvido com a dance music". "Eu não acho que isso vai funcionar muito em um clube", disse ele à FACT, “porque eu nunca tive essas experiências ".

Talvez seja sua influência pela dance music e seu isolamento da cultura cluber, que torna a sua música tão distinta. Seja qual for a razão, seus estudos em cultura pré-colombiana produziram um desdobramento criativo incrível. Algumas pessoas podem dizer muito sem palavras. Huerco S. é claramente um deles.

By Kier Wiater Carnihan

 

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