GURUS CASANDO COM MÃES-DE-SANTO
Em lua-de-mel na Índia, nosso colunista errante exerce a simples arte de ser feliz

‘À Índia fui em férias passear,
Tornar realidade um sonho meu,
Jamais eu poderia imaginar,
Ou esperar o que me aconteceu’
(Refrão da canção A Índia, de Nilton Cesar, de meados da década de 60)
Estou escrevendo esta coluna do lugar mais estranho do mundo. Me encontro em uma espécie de internet-café cheio de moscas e cachorros sarnentos às margens do rio Ganges, em Hardwar, norte da Índia. Faz um puta calor e lá fora uma multidão de peregrinos esfolados se banha nas águas sagradas do rio-mãe, que lava as almas de todos os carmas. Nós, brasileiros, sempre nos consideramos eternamente afogados na dicotomia Embraer-Jeca Tatu, Gisele Bündchen-Programa do Ratinho. Mas a Índia dá de dez no Brasil em termos de paradoxos e incoerências. Aqui são gurus, uma cultura milenar que se contrapõe a mísseis balísticos intercontinentais. Mas eu cheguei há menos de vinte quatro horas. Não quero ficar cagando regras a respeito de um país do qual eu não sei quase nada.
Capo Yoga
Os indianos se aventuraram pelo mundo. Existem comunidades indianas em quase todos os países que fizeram parte do império português. É uma pena que eles – não sei por quê – não vieram para o Brasil temperar a nossa feijoada com curry, misturar a capoeira com yoga e casar gurus com mães-de-santo. Estou em lua-de-mel. Casei na se-
mana passada. A Debi nasceu na Inglaterra, mas é de família indiana. Ela veio de bico na minha festa de ano novo em Londres. Me apaixonei quando abri a porta e ela entrou, exatamente quatro meses atrás. Eu andava muito só e triste. Antes dela todo um lado da minha existência não tinha sentido nenhum. E agora nós estamos aqui na Índia. Eu nunca fui tão feliz na minha vida. Como nunca, a velha canção do Nilton Cesar me toca profundamente.
*Henrique Goldman [henrigold@yahoo.com], 40, é cineasta, apaixonado e adora uma miscigenação
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