Depois de anos lustrando alguns dos mais poderosos sapatos de Wall Street, o brasileiro Joel dos Santos se tornou Joel Stones, DJ e dono de um sebo. Tudo graças a empoeirados vinis brasileiros
Por Jocéli Meyer
No fim dos anos 90, Joel dos Santos era sócio de uma falida boate no Vale do Anhagabaú em São Paulo, de nome mais do que adequado dada a situação financeira daqueles tempos: Armagedon. Quebrado, fez como muitos. Arrumou as malas e foi para os EUA tentar a vida. Passou aperto em Miami, mas baixou a âncora em Nova York. Virou engraxate em Wall Street e ganhou uma microfama entre os corretores da Goldman-Sacks, a corretora onde lustrava os endinheirados sapatos. Levou uma vida boa até setembro de 2001.
Depois que as torres gêmeas desabaram, as generosas gorjetas que chegavam a US$ 300 por dia minguaram. Foi quando descobriu que uns LPs brasileiros que tinha na estante valiam mais de US$ 200. Joel achou uma mina de ouro. Sem largar a graxa em Wall Street, alugou uma birosca e montou o Tropicália in Furs, um sebo especializado em sons brasucas.
Na mesma época, Joe Stones usou seu acervo e suas fontes privilegiadas de vinis no Brasil para se tornar o DJ Flashblack, que comandava a noite Sambafunksoulbeat no agitado lounge Baraza, em East Village. Foi quando as baladas comandadas por ele caíram também no gosto dos endinheirados de Nova York.
Hoje, sua carreira de DJ decolou, e Joel viaja pelos EUA para rodar suas bolachinhas brasileiras. E também tenta capitalizar seu visual de artista. Acaba de servir de modelo para a capa do novo disco do moderno Prefuse 73 e, sempre que pode, posa para ensaios de fotógrafos amigos. E aquela birosca, meio que um porão, onde montou seu sebo, é passado. Acaba de montar uma lojinha de vinis ajeitada em um andar térreo no sofisticado East Village. E, finalmente, depois de cinco anos, Joel Stones pode jogar a flanela. Graças aos vinis, não engraxa mais sapatos em Wall Street.
Como você começou a engraxar os sapatos do pessoal da Goldman-Sacks?
Foi através de um argentino que terceiriza serviços de engraxate para as empresas. Hoje, sou considerado funcionário da instituição financeira e tenho até uma carteirinha magnética para entrar e sair como todos os que trabalham lá.
Como você ficou chegado desse pessoal?
Todo santo dia eu olhava para a cara dos mesmos sujeitos. Não dava para ficar falando o tempo todo sobre o tempo. Então, comecei a puxar uns assuntos pessoais e acabei ficando amigo do pessoal do banco. Enquanto engraxavam os sapatos, desabafavam, falavam de tudo, de problemas conjugais a sexuais.
A partir de quando suas festas se tornaram disputadas entre os clientes?
Foi quando alguém do banco gostou do convite de uma das minhas festas, o que tinha minha cara justaposta sobre o corpo de um dos Jackson?s Five. Ele resolveu fazer cartazes, decorando o banco inteiro. No dia seguinte, tinha gente brigada comigo porque eu não pude convidar todo mundo.
O que os clientes mais gostam em você?
Sempre pedem para eu dar uma palhinha imitando o Jackson?s Five. Vivem me convidando para eu ir na casa deles preparar meu Chicken Tropicália, um frango regado a uma salsa especial que inventei. Também ligam na minha casa, quando não estou lá, só para ouvir minha mensagem na secretária eletrônica.
Sua juba e seu estilo passam despercebidos pelas ruas de Nova York?
Nova York é uma cidade cheia de figuras. Às vezes, passo por normal. Outras não. Uma vez, uma senhora me abordou dizendo que já tinha me visto na televisão, que eu era famoso. Algumas pessoas, principalmente os japoneses, me param na rua pedindo para tirar fotos. A coisa mais maluca que me aconteceu foi quando um cara me convidou para participar de um documentário independente sobre um rapper. Interpretei o pai drogado e traficante do rapper.
Você ganha muito dinheiro em Wall Street?
Já ganhei até US$ 300 num único dia, mas isso foi nos velhos tempos, antes da queda do World Trade Center.
Você estava engraxando quando as torres caíram?
Não, estava chegando no trabalho quando encontrei a Goldman-Sacks interditada. Uma das torres pegava fogo e havia correria nas ruas. Comecei a correr também quando ouvi um estrondo e vi o prédio desabando. Papéis e documentos voavam das torres e fui catando o que encontrei. Fiquei tão desesperado que entrei na primeira porta que vi aberta. Nervosos, os seguranças quase não me deixaram entrar. Perguntaram quem eu era e me jogaram na parede. Minha bolsa caiu e abriu. Eles pegaram um celular que catei na rua e apertaram o viva voz. Do outro lado da linha alguém dizia ra la ma ha la (imitando um árabe). Fui parar num quartinho e fiquei três horas e meia com um cara que se dizia agente do FBI. Por causa do jeito que ele falava comigo, faltou pouco para eu confessar que era eu quem estava no avião e tinha explodido as torres.
Quando começou a mexer com discos de vinil?
Foi logo depois da queda das torres. O movimento caiu muito em Wall Street e passei a sair mais cedo do trabalho. Passava o tempo visitando lojas de música e comprando discos antigos de vinil. Um dia, encontrei um disco brasileiro com prensagem uruguaia chamado Bossa Três. Fiquei fascinado! Como muita gente não entendia nada do assunto, encontrei verdadeiras raridades por ninharia. Os caras olhavam para a capa e pediam dois, três dólares. Era inacreditável! Até que um dia, numa busca rápida pela internet, descobri que o Bossa Três estava sendo vendido por US$ 260. E eu tinha comprado por dois dólares! Foi quando caiu a ficha: ali tinha ouro. Comecei a comprar tanto disco que teve uma época em que mal conseguia andar dentro de casa.
Como você consegue encontrar tantas raridades?
No Brasil, através da internet. Mas o fornecedor não sabe que revendo aqui nos Estados Unidos. Para conseguir bons preços, falo com ele por e-mail, me passando por mulher. Todos os e-mails enviados com a lista das encomendas vão com cópia para uma amiga no Brasil. É ela quem pega as encomendas, como se fosse para ela. Se disser que revendo aqui, o cara vai arrancar o meu couro e cobrar em dólar. A única coisa chata disso é ter que agüentar o fornecedor me chamando para sair.
Quem mais consome discos raros?
Acho que são os japoneses. Eles compram os discos e ainda chegam no Japão escrevendo livros sobre música brasileira. Os livros têm capas de discos raríssimos. O Brasil está exportando todo seu acervo. Isso poderá se tornar um grande problema, porque vai chegar um dia em que não sobrará nem disco, nem memória. As gravadoras adoram relançar somente grandes sucessos, não a obra toda.
Com o sebo de vinil e o trabalho de DJ, por que você continua sendo engraxate?
Não deixo a Goldman-Sacks porque o banco garante o pagamento das minhas contas. Mas acho legal o mix das coisas. Muita gente que me vê na noitada como DJ, ou mesmo no sebo, não tem a menor idéia de que todo dia de manhã dou aquela chacoalhada no meu cabelinho e vou engraxar sapatos.
Por que você veio para os Estados Unidos?
Era sócio de uma danceteria (Armagedon, no Anhangabaú, em São Paulo) que faliu. Senti muita dificuldade em voltar para o mercado de trabalho. Tinha vontade de começar tudo de novo, tentar outros limites. E nada melhor do que arriscar quando se perde tudo.
Você veio direto para Nova York?
Não. Primeiro fui para Miami, onde comecei a trabalhar num restaurante brasileiro ganhando US$ 100 por semana. Com esse dinheiro, aqui, não dá para fazer nada. É quando a gente cai na realidade que os Estados unidos não é Hollywood. Me lembro que um dia, indo para casa, pensei no ônibus, Oh meu Deus, manda um anjo ai vai, assim não dá!. Quando cheguei em casa, tinha uma loira linda sentada no sofá. Meu amigo havia conhecido ela na praia. Eu olhei para ela e pensei, Obrigado, meu Deus!. Fui com ela para Nova York e mudei de vida.
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