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Foi foda

Perdendo a virgindade no cinema

em 21 de setembro de 2005

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Você leitor não avalia o quanto vai ser difícil escrever esse texto. Muito complicado colocar nessas linhas o que está passando comigo. Vou tentar.
Venho trabalhando há um tempão no projeto de um filme curta-metragem. É o primeiro curta profissional que estou dirigindo. Começaram as filmagens e passei por sérios apuros. Mobilizei uma equipe de 50 pessoas que, em sua maioria, estavam trabalhando e recebendo apenas pelavras de incentivo. Algumas dessas pessoas eram profissionais de mercado superqualificados. Outra parte era de novatos como eu. A química foi explosiva.
De um lado, gruas, câmeras HD CINE, diretores de fotografia, engenheiros de vídeos, atores superqualificados e de outro gente que como eu não sabia para onde correr. É claro que como diretor me coube manter a ilusão na equipe de que eu sabia exatamente o que eu estava fazendo. Às vezes eu sabia mesmo, outra vezes não.
Brigas e mais brigas. Atrasos, imprevistos e incidentes. Assim, peguei um ódio maldito de frases com sujeito inexistente: falaram, disseram, ou pior, me passaram. Outra metade dos problemas começava com frases como: pensei que, achei que, etc. E eu não podia me inocentar de nada, afinal eu que formei, dirigi e organizei a equipe.
Um dia, devido a essas frases, chegamos a trabalhar 22 horas seguidas. Isso no meio de uma rotina de trabalho que não dava trégua.
Perdi oito quilos, não namoro há tempos e devo bombar em várias matérias na faculdade. Pedi todo tipo de ajuda a todo mundo que conheço. Tudo isso, sem saber se até setembro, o filme vai ficar bom ou ruim. Maldita dúvida.
A pergunta que me assombrava a cada dia, que martelava a minha cabeça e que vinha cantada pelo refrão da música do Rappa era: valeu a pena?
A resposta veio antes de saber se o filme ficou bom ou não. A resposta veio pela carta do nosso consultor técnico. Ele é um superespecialista em HDTV e HD CINE, talvez um dos que mais entendam do assunto no Brasil e que topou trabalhar de graça só acreditando na minha idéia. A cada problema que surgia no set, a cada vacilada que dava na minha voz na hora de tomar uma decisão, eu olhava para ele constrangido. Descobri que ele era também um especialista em gente. Encerro aqui esta coluna, que foi dura de escrever, com trechos da carta que recebi dele:
‘(…) Para um homem obcecado em qualidade, em manter a qualidade, em obter a qualidade, não somente a qualidade técnica, mas também a qualidade do time, a qualidade da infra-estrutura, senti-me bastante desqualificado nesses dias. Talvez até exista um pouco de sapateado semântico nessas frases.
Mas apesar de todos esses efeitos, gostaria de partilhar com você algumas considerações.
(…) E, por incrível que possa, a experiência e oportunidade de trabalhar com todos vocês foi muita rica. Foi rica porque pude observar algumas ‘qualidades’ que não percebo na minha geração. A humildade, a perseverança, a vontade em acertar, a honradez nas palavras, talvez seja essa a maior ‘qualidade’ de todos vocês e que soa naturalmente, seja na voz, na inflexão das palavras, seja nas tomadas de decisões, na determinação em resolver as questões mais emergentes ou não.
Não sei se todos conseguem avaliar que esses adjetivos são valiosos e que precisam ser preservados.
Não importa muito para mim os possíveis resultados que o ‘Curta-Metragem’ possa vir a alcançar nas apresentações que venham a acontecer, importa muito para mim ter conhecido todos vocês e toda essa transpiração que percebi no grupo.
Fernando, mantenha o grupo unido, seja qual for o dissabor que possa ocorrer, diferenças sempre existiram e sempre existirão, a convivência humana é muito difícil, já a habilidade em conviver com pessoas, com idéias, mesmo na adversidade, é um aprendizado extremamente importante. Não abdiquem dessa experiência, não fiquem sem falar um com o outro por um momento de ‘humor diferente’. São exatamente nos momentos de adversidade que conseguimos crescer.
No decorrer dos dias de filmagem, ficou claro a dificuldade de vários setores, pela inexperiência, pela falta de vivência, mas nunca pela garra e determinação, nunca pela vontade em acertar e humildade em perguntar e até mesmo em reconhecer as falhas estruturais.
Tenho uma filha de 18 anos e outra de 15, e ao sair de São Paulo após esses dias, fiquei mais confiante no amanhã, mais seguro e tranqüilo, pois vi e convivi com uma geração maravilhosa, com pessoas extremamente gentis e educadas, e com tudo isso fiquei mais otimista com o amanhã, com o futuro das minhas filhas!
Essa qualidade interior é muito importante, talvez a mais importante das qualidades. Continuem assim, e principalmente amigos uns dos outros. (…) ‘

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