
Todo e qualquer trabalho criativo exprime-se às vezes mesmo à revelia do próprio autor – uma visão subjetiva do mundo – e revela algo de muito pessoal e significativo a respeito de quem o concebe. Isso vale tanto para o Beethoven como para o Sérgio Mallandro. Quando um trabalho é deliberadamente autobiográfico – por exemplo, a música do Eminem, os romances de Franz Kafka ou os filmes do Woody Allen -, a voz do autor vaza, direta e conscientemente, da vida para a obra.
Há uns anos tive a bendita idéia de procurar todas as mulheres que amei – antes de me casar – e entrevistá-las. Eu queria fazer um auto-retrato e – usando o olhar delas – aprender mais sobre quem sou. Uma espécie de balanço geral da minha vida sentimental até então. Consegui o apoio de um produtor inglês e agora, depois de gravar, estou editando o tal documentário. O título é All The Girls I Loved Before. Pedi a essas mulheres que amei que me contassem como eu era com elas, que falassem de mim, bem ou mal. A sinceridade foi o único pré-requisito, pois, mesmo que toda a minha enorme podridão seja revelada, acredito que exista sempre um valor e uma beleza por trás de tudo o que é verdadeiro.
Eu é um outro
Ando muito preocupado com esse trabalho. Às vezes até me arrependo de tê-lo começado. Não que tenha medo de expor as culpas que tenho no cartório da vida. O que eu temo é falar de coisas muito pessoais que não vão interessar ao público.
Mas sinto também uma voz que censura essa autocensura. A voz sussurra no meu ouvido que, no nosso âmago, na obscuridade do que é mais pessoal, uma energia benigna nos vincula à humanidade inteira. Percebo então que esse trabalho não é sobre a minha relação com as mulheres que amei, mas sobre todas as relações de todos os homens e mulheres que se amaram, que se amam e que se amarão, em todos os países, em todas as tribos e línguas. Acredito que, no elo paradoxal que relaciona nossas moléculas de DNA e as galáxias mais distantes, podemos encontrar uma luz divina.
Justapondo os depoimentos dos meus amores passados, percebo que cada uma delas me descreve como um homem diferente, homens diferentes. Como diria o dramaturgo italiano Pirandello, ‘um, nenhum, cem mil’. Muitas vezes, esses homens não têm nada a ver um com o outro e muito menos com a percepção que tenho de mim mesmo.
Entrevistei cada uma delas várias vezes. Conforme o humor de cada uma no dia da entrevista, uma mesma coisa, um mesmo evento, eram descritos de formas completamente diferentes e às vezes até contraditórias. A memória dos indivíduos – assim como a história dos povos – é fluida, relativa. Como um barco a vela, é movida pelo vento do presente.
Olhando através da câmera, percebo que, apesar de serem tão absolutamente diferentes entre si, as sete mulheres parecem ter a voz e o rosto de uma única mulher: Iemanjá, Julia Roberts, Virgem Maria, Cleópatra, Scheila do Tchan, Medéia, Hebe Camargo e a Eva Mitocondrial – a primeira mãe-irmã-amante dos homens.
Para a Roberta, uma italiana com quem fui casado, eu era uma grande bosta na cama. Segundo ela, o nosso casamento desmoronou por causa disso. Já para a Silvia, uma iugoslava com quem fiquei enroscado muitos anos, sou um puta tesão. Vai saber. Como disse o poeta lusitano Sá Carneiro: ‘Eu não sou um nem outro/ Sou qualquer coisa de intermédio/ Pilar da ponte de tédio/ que vai de um para o outro’.
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