Escrever é liberdade
Não se escreve bem; pensa-se bem. Escrever pode parecer prepotência, mas é liberdade

Escrevo porque, obviamente, falar é pouco. Sufocaria não poder dizer. Amigos afirmam que conservei a lucidez (eles não me conhecem como vocês…) porque, apesar de preso, privilegiava o contato com o mundo de fora em detrimento ao do mundo entre grades. Sim, de fato, o contato com o mundo extramuros preenchia muito mais. E eu, como Clarice Lispector, sempre “prefiro tudo. Não quero perder nada, nem a escolha quero”. Erravam somente ao expressar esse “detrimento”. Fiz minha parte. Fui enfermeiro, professor, escrevi e escrevo sempre procurando esclarecer. Mas por dois motivos maiores que imaginam meus ingênuos amigos.
Primeiro porque era por carta. Escrevendo é possível pensar. Falando, nem sempre. Escrevendo é possível apagar e dizer exatamente o contrário que se dissera antes. Não se escreve bem; pensa-se bem. Escrever pode parecer prepotência, mas é liberdade. É claro que na hora de escrever você está de frente para você mesmo, então escreve exatamente o que quer. Mas, se não corresponder aos anseios de quem recebe, pode nem ser lido. Você vai com sua parte, a pessoa que recebe com a dela e ambos realizam a comunicação. Então é o mais democrático possível. Só haverá resposta se houver sintonia.
Receber cartas é superior. Uma carta não é só uma carta, por mais óbvio que pareça. É a vida, a emoção de quem a escreve. E para sempre. Por isso não se “olha”, não se “vê” uma carta. É para ser entendida, absorvida, enfim, lida. Pode ser lida trocentas vezes e ainda conter a mesma carga emocional da primeira leitura. Algumas delas estão em museus ou gravadas em livros, tornaram-se documentos de valor intangível.
Há muitos motivos de sofrimento na prisão. Os piores, se assim se pode classificar, eram dois. Primeiro, é que se está longe de quem se ama, gosta ou precisa. O outro é ter que conviver entre presos, sendo um deles. Para mim, não ter (às vezes por anos) alguém com quem conversar no nível do necessário era desesperador. As oportunidades precisavam ser caçadas: uma psicóloga, um advogado ou mesmo um visitante.
Às vezes surgia um parceiro solitário. Era uma riqueza acordar pensando que teria uma conversa em profundidade. Mas essas pessoas incomodavam. Elas pensavam. Não ficávamos muito tempo juntos. Vivíamos sendo banidos. Lá para as penitenciárias próximas do Mato Grosso ou para o Anexo da Casa de Custódia de Taubaté. Onde, não por coincidência, nasceu o PCC.
Sofria reter. Estudava e absorvia como uma esponja. A necessidade de socializar era do mesmo tamanho da de aprender. Tudo era muito difícil, mas eu não conseguia parar de querer saber. Quanto mais ficava sabendo, mais me sentia desafiado a saber.
Hoje minha sede, talvez, tenha se tornado maior. Escrever ainda é liberdade, mesmo estando aqui fora. O texto é sempre espanto e compaixão enorme pela dor humana. Não é essa fantasia urbana com a qual muitos se iludem para não morrerem de tédio. Não pergunta quem somos, mas o que vamos fazer com o que fizemos de nós.
Estou solto, mas somente no que sinto, no que penso e principalmente no que escrevo sinto-me livre. Na tentativa de entender para conversar. Na invenção do carinho na expressão; não somente na palavra, mas no silêncio que ela causa depois de lida ou proferida.
*Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, esperou 30 anos atrás das grades até que pudesse contemplar as árvores em liberdade.
Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
LEIA TAMBÉM