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Enfim… a guerra

'São Paulo ficou entregue, de pernas abertas como uma prostituta barata'

Por Redação

em 18 de maio de 2006

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Estou aflito. Sofro um desassossego na alma que não entendo bem. Produzo, crio e conquisto espaços. Mas estou aflito. Deveria me sentir livre, solto e muito à vontade. Mas no momento não é assim. E por quê?

Na vida não há gratuidades, caberia aqui. Mas também não é isso. Acho que estou aflito porque enxergo com clareza algumas coisas que, suponho, ninguém mais quer ver. Metáfora é máscara, então pretendo ser claro e bastante direto.

Aqui fora – do lado de fora das grades – jogamos a bomba social para cima, na esperança de que ela crie asas e saia voando para bem longe. Com o preso do lado de lá – do lado de dentro das grades – não há o que temer, imaginamos. Então pouco nos importamos com sua condição existencial. Se comprimido, oprimido, espancado, estupidificado, não nos interessa saber. Importava apenas mantê-lo impossibilitado de atacar novamente. Era o suficiente.

Mas agora vejam: surpresa! A bomba não voa. Está caindo, detonando toda nitroglicerina acumulada em décadas de abandono. Foram três dias de terror em São Paulo. A polícia sumiu. Não havia alma viva nas ruas.

A cidade ficou entregue, de pernas abertas como uma prostituta barata. Ou, como disse o cientista social Demétrio Magnoli na Folha de S.Paulo da última terça, dia 16, "Buuuu! São Paulo reagiu como um imenso galinheiro. Curvou-se à delinqüência comum". O medo atacou todo mundo. Ninguém sabia o que poderia acontecer.

Somos seres que produzem cultura. Homus culturalis. Faz parte da condição humana produzir cultura. Onde estivermos, faremos cultura. Cultura enquanto manifestação do homem no mundo. Abandonados a si mesmos, provenientes diretamente do ato criminoso, os homens presos só podem fazer a cultura do que conhecem: ou seja, a cultura do crime.

Não se morre apenas fisicamente na prisão. Existe a morte emocional e a racional. "Coração de malandro é na sola do pé." Para não sofrer demasiadamente, é preciso dessensibilizar, matar emocionalmente. E, quando o sofrimento é excessivo, a loucura, a morte racional é a última alternativa humana. Não há qualquer outra alternativa, o preso esta enterrado vivo, em pé e abandonado.

E não se trata apenas de um problema do Estado ou da polícia. Trata-se de um problema que diz respeito a toda sociedade, a qual precisa repensar, tomar atitudes coerentes e emergentes. As pessoas aprisionadas não podem ser abandonadas – ficou claro agora.

A população carcerária, essa ponta do iceberg social, como queria Marx, como não poderia deixar de ser, aumentou proporcionalmente. Nas crises sociais aumenta a demanda de vagas prisionais, é só constatar. A verba para sustentar essa superpopulação, porém, continuou a mesma. O sistema entrou em crise e processou seu sucateamento. A superpopulação carcerária atingiu índices absurdos. Todos nós vimos nas reportagens.

São Paulo se transformou em uma megalópole. As favelas e os cortiços cresceram assustadoramente. A pobreza foi multiplicada e transformou-se em miséria na proporção em que a população crescia e não havia emprego para todos. Em conseqüência dessa explosão demográfica e do egoísmo de alguns que sempre conseguiram seus privilégios da miséria da maioria, a violência extrapolou as expectativas, a brutalidade e a estupidez dominaram os espaços.

Há muitas décadas o sistema prisional do Estado de São Paulo vem sendo sucatado. Claro, percebo, ultimamente, uma tentativa no sentido de recuperar tempo e espaço perdidos. Mas é débil. Não há verba ou interesse social para as atitudes que se fazem emergentes. Preso não vota. A Penitenciária do Estado, até cerca de 20 anos atrás, estava bem aparelhada. A disciplina era rígida e exigente. A violência instrumentalizava os guardas de presídio com canos de ferro.

Contra males sociais, somente soluções sociais.

Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há quase dois anos Mendes conquistou sua liberdade.

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