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Em busca do tempo roubado

Ladrões limparam o estúdio de Duran. Com o saque, coisas de grande valor se foram para sempre: memórias

Por Redação

em 20 de dezembro de 2006

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Fui roubado. Os ladrões entraram no estúdio, outro dia, de noite. Cortaram o fio de telefone, e o sistema de alarme ficou inútil, depois tiraram a fechadura da porta de entrada. O resto deve ter sido um passeio. Levaram tudo. Câmeras, computadores, o que quiseram. Nunca antes tinha passado por uma experiência dessas. Sim, claro, já tive o relógio roubado no trânsito e um trombadinha me levou, uma vez, um talão de cheques na saída de uma agência bancária no centro da cidade. Mas, também, quem mandou eu ter uma conta em um banco do centro? Quem mandou ter relógio bacana com o vidro aberto?

Desta vez a coisa foi diferente. Eu achava que estava a salvo com a complexidade de alarmes, sirenes e raios infravermelhos que a compa­nhia de segurança espalhou pelo estúdio. Achava. Bem, até aí, como disse meu amigo Michel, este é o preço de morar no Brasil.

O mais surpreendente é que depois do choque inicial, do emputecimendo, enfim, da revolta de saber que alguém levou o que é teu sem pedir licença, vem, com o tempo, uma sensação estranha ao descobrir que além das coisas que parecem óbvias terem sumido, outras menos gritantes, mas talvez mais importantes, desapareceram também de sua vida. E que são insubstituíveis porque, ao contrário dos objetos utilitários, formam parte do cotidiano de uma maneira diferente. Formam parte da memória afetiva. Levaram minhas lembranças. Fica no ar a estranha sensação de que os caras conseguiram roubar uma parte do meu passado.

Explico. Levaram, por exemplo, um hipopótamo de madeira que comprei na primeira viagem que fiz ao Quênia. Era nada, uma peça pequena (uns cinco centímetros de largura por três de altura) e que tinha uma pata quebrada que já tinha sido colada com Super Bonder. Sumiu, também, um coração de vidro que funcionava como peso para segurar papéis sobre a mesa e que me lembrava, toda vez que meus olhos esbarravam com ele, de que tem alguém que pensa em mim com carinho sempre.

Levaram um boneco do Homem Aranha, feito de chumbo, pequeno e que também ficava sobre a mesa, e que comprei faz muitos anos não sei onde mas que ficava lá agachado, olhando para mim, com um braço estendido enquanto eu falava ao telefone. Desapareceu a caneta que meu pai me deu fazia não sei quantos anos. Tinha meu nome escrito em baixo relevo. Imagino que em algum lugar alguém vai ter de lembrar de mim toda vez que tirar a tampa de uma Montblanc.

Foi embora, junto com o computador, um livro que estava editando há mais de um ano. Chamava-se, ironicamente, Propriedade Privada, e nunca mais vou conseguir colocar novamente as imagens do jeito que tinha conseguido depois de horas e horas de trabalho.

Enfim, levaram objetos sem nenhum valor financeiro, apenas o sentimental. O valor que os objetos passam a ter, com o tempo, porque estabelecem uma ponte com o passado, com a lembrança de um momento especial. Como os quatro passaportes, vencidos, que estavam guardados em uma gaveta. Amarrados com um elástico, guardavam entre suas páginas todos os carimbos das viagens que fiz nos últimos 26 anos, assim como a passagem da vida, no meu rosto, estampada nas fotos 4×5. Fica a perplexidade. Os caras, os ladrões, foram supereficientes. “Ocean’s Eleven” total. Profissionais. Mas para quem interessa um peda­ço de minha memória, intangível, que para eles não terá valor nenhum?

*J. R. Duran, 54, fotógrafo, ainda espera carimbar mais quatro passaportes. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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