FOTO ARQUIVO MURILLO MEIRELLES
Não sei se é por causa da poluição sonora, se por uma dege-neração congênita nas trompas de Eustáquio ou se o volume do iPod deixa as pessoas mais surdas do que o normal, mas o que me parece mesmo é que ninguém ouve ninguém. Tenho reparado que ultimamente as pessoas, quando conversam, falam, falam, mas não ouvem.
Um dia, bem de manhã, alguém telefonou lá pra casa. A conversa começou a se estender. A voz brotava palavras do outro lado da linha com se fosse a cachoeira de Paulo Afonso. Sem parar. O sujeito tentava me convencer a participar de uma campanha beneficente que era a maior roubada. Respondi que não estava interessado. O cara do outro lado insistia. A uma certa altura, percebi que ele nem prestava atenção nos meus argumentos. Depois de dez minutos respondendo ‘a-hã’ para intermináveis elucubrações, decidi fazer um teste. Disse: ‘Vai tomar no cu’. O cara do outro lado nem vacilou e continuou a falação. Tive de esperar que ele acabasse para poder dizer: ‘Não, obrigado’. Ele ficou bravo. Não porque o havia mandado tomar no cu. Ele ficou puto porque eu disse ‘não, obrigado’, a única coisa que se permitiu ouvir.
Fim de tarde, no instante em que estou saindo do aeroporto, em Porto Alegre, e entrando em uma van que me levaria até Gramado, toca meu celular. Era uma repórter, que estava fazendo uma matéria e queria ouvir a minha opinião. Ok. Pode ser rápido? Podia. A pauta em questão era sobre o turning point, momento decisivo que supostamente existe na carreira de alguns fotógrafos. Queria saber qual teria sido o meu. Não tive, respondo. ‘Como assim’, diz ela, ‘não existiu um momento especial?’ Não. ‘Mas não houve um momento em que sua carreira desse uma guinada?’ Não.
Expliquei que nunca havia visto um arbusto em chamas falando comigo. Como ela não leu a Bíblia, não entendeu a piada. Em um certo momento, ela me disse que assim não poderia es-crever nada a meu respeito. Respondi que, para mim, tudo bem. Ela desligou puta da vida porque falei a verdade. A essa altura, estava chegando a Gramado. Quem mora no Sul pode ter uma idéia do tempo que demorou essa conversa inútil.
Começo da noite em meu estúdio, em São Paulo. Falo para a Paula, coordenadora do estúdio, que a partir das 20h não atenda mais nenhum telefonema porque quem liga a essa hora só está interessado em largar pepinos em nosso colo e pedir soluções imediatas, geralmente para a manhã seguinte. E que 12 horas de trabalho por dia são mais do que suficientes. Dois segundos depois da minha instrução, o telefone toca. São quase nove horas e Paula, sem piscar, pega e atende o aparelho. Desisto.
* J. R. Duran, 52, fotógrafo, acha que ninguém mais ouve ninguém. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
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