Surfista e ex-agente penitenciário, Quizumba é memória viva de uma época em que o surf ainda se profissionalizava no país.

Foi em pranchinhas de isopor com quilhas de madeira improvisadas que José Luiz da Silva Neto começou a surfar aos 13 anos, na década de 70. No Quebra-Mar, point surfista de Santos, ganhou o apelido que levaria para campeonatos: Quizumba. "Mas não era porque eu gostava de confusão, nada disso", explica. "Era porque tinha um outro cara bem da antiga que tinha esse apelido, um negão também, e passaram pra mim" — Quizumba era um dos poucos negros do circuito. "Sempre teve discriminação, mas eu não ligava pra nada, metia as caras e ia embora."

Brigas, conta Quizumba, eram na prancha. "Nas competições tinha guerra, porque tava rolando prêmio", diz. "Se a prioridade era tua, você tinha como cercar o adversário pra ele não pegar uma onda boa." Ele lembra de uma vez em Ubatuba em que bloqueou o baiano Jojo de Olivença – depois duas vezes campeão brasileiro – quando estavam competindo para decidir quem seriam os quatro finalistas de um torneio. "Eu tava na vantagem e cerquei, não deixei ele entrar. Ele remava pra lá, remava pra cá e eu segurando. Estourou o tempo e me garanti. Quando saí, a turma dele falou: 'Pô, que vergonha, precisava fazer isso?'", conta, rindo. "Eu queria saber do prêmio, do dinheiro. Queria um dinheiro pra pôr no meu bolso."

A preocupação financeira foi uma constante na vida de Quizumba. Depois de começar a surfar, inspirado e incentivado pelos surfistas da cidade, principalmente os irmãos Picuruta e Almir Salazar, a primeira prancha que conseguiu era "velha, usada, toda remendada". "Pesava uns 300 quilos, mas eu ia com ela pra praia porque eu tava gostando da coisa", diz. Só depois ganhou uma nova, de um tio que morava nos Estados Unidos. "Quando ele veio pra cá e viu que eu vivia com o Picuruta – que já tava ganhando títulos por aí –, ele me comprou uma prancha", diz.

Com três anos de surf, Quizumba foi revelação em um campeonato local e algum tempo depois, no começo da década de 80, ganhou patrocinadores. "Aí comecei a viajar. Ia pro Sul, Bahia, Rio. Foram vindo boas colocações", conta – a melhor foi a vitória em uma etapa do circuito paulista de 1983 para 1984, na Praia de Pernambuc.o, no Guarujá. "Mas minha mãe pegava no meu pé, dizia que isso não era pra mim, queria me ver em outra. Eu insisti."

A mãe, Neuza, que hoje mora com o filho no Marapé, mesmo bairro em que Quizumba cresceu, acabou ganhando a disputa, mas já no fim da década: entre idas e vindas de patrocinadores, Quizumba se manteve no surf até 88. Pouco antes, ainda pensava em ir para o exterior. "Tava juntando uma grana porque eu tava louco pra ir embora. Queria conhecer o Havaí de qualquer jeito. Muita gente perguntava: 'Pô, negão, quando é que tu vai morar lá?'", lembra.

Da praia à prisão
Quem também insistiu foi Neuza: ele precisava ajudar a família, ela dizia. "Chegou uma hora que vi que não tava mais tendo campo pra mim. Então não teve jeito, tive que desistir de tudo e procurar outros caminhos. O surf é um esporte ingrato, pra uns deu certo, pra outros não. Eu fui até onde deu. Depois tive que trabalhar."

Focado no surf há mais de uma década – ou, nas próprias palavras, "depois de ficar tanto tempo na praia naquela vadiagem" –, Quizumba voltou a estudar e prestou concurso público. "Eu não escolhi", conta. "O primeiro que apareceu eu fiz, me classifiquei e fui trabalhar. Era no sistema prisional." Assim, se tornou o que, à época, era chamado de guarda de presídio e, hoje, de agente penitenciário. Foram 14 anos, entre 89 e 2003, batendo cartão na Penitenciária de São Vicente, presídio estadual na Baixada Santista.

"Nosso trabalho era ajudar o preso. A gente tá ali pra ajudar se ele se machucou, levar pra uma enfermaria, pra um psicólogo, assistente social", diz. Todavia, como no surf, os anos trouxeram dificuldades na nova profissão. Segundo Quizumba, no começo havia uma população carcerária que respeitava os funcionários da cadeia, mas isso mudou. "Foi chegando muita molecada, vindo facções, a coisa foi ficando feia", conta.

O momento mais tenso foi uma rebelião, "em 94 ou 95". "Só de saber da rebelião já vira uma bagunça. A gente tava preso dentro do presídio, e até liberar todos os portões você fica encurralado em um canto", lembra Quizumba. "E o presídio foi invadido pela tropa de choque, com helicópteros, cachorros. Quando a tropa de choque entra vira uma confusão total. Todo mundo apavorado, não sabe pra onde correr." A penitenciária, diz ele, acabou se tornando "um ponto de encontro". "O funcionário já não era mais ninguém. As facções é que davam as cartas."

Então o ex-surfista profissional decidiu também virar ex-agente penitenciário, mesmo largando um emprego público. "Ali tinha estabilidade, mas o trabalho não era tão estável assim. É espinhudo aquilo. Tem confusão, um monte de coisa", conta. "Chega uma hora que tu fica saturado, você tem que parar e pensar e fazer as escolhas. Vou pra onde? Aquilo ali é aquilo mesmo, tu não aprende mais nada." E completa: "Imagina tu ficar refém daquela turma? Um sufoco do caramba".

Outras marés
Assim, Quizumba acabou em um emprego no polo industrial de Cubatão, dirigindo uma carreta ("puxava chapa, placa, bobina de aço, um monte de coisa"). "Minha mãe me cobrava: 'Deixa de ser vagabundo, vai estudar, as tuas irmãs são formadas, só tu que ficou nessa vagabundagem'." E foi assim que ele um dia saiu de casa, andou até o campus de Santos da Universidade Paulista (Unip) e se inscreveu para o vestibular do curso de Gestão Portuária.

"Queria dar uma melhorada de vida e reparei que a área do porto tava crescendo", diz. Foi a mãe quem atendeu o telefone quando Quizumba foi aprovado. "Aí eu chorava, ela chorava", conta. ("Também, já tava com mais de 40 anos, tinha que chorar, não tinha?", interrompe dona Neuza, que acompanhou parte da entrevista.)

Ainda trabalhando em Cubatão, Quizumba se formou em 2009. Depois, levou o currículo para um teste e foi contratado pela Brasil Terminal Portuário, onde trabalha hoje, no Porto de Santos. "Fui estudar, a cabeça mudou", diz. "Hoje tô bem." Mais perto do que Cubatão, Quizumba vai de bicicleta até o centro da cidade para pegar o fretado. "Aqui tem ciclovia, tudo facinho, já vou treinando, me exercitando. Mas quando tô cansado, se fui surfar ou correr, tenho uma motinho também."

E, sim, aos 52, Quizumba continua surfando. Nunca parou, na verdade. Desde os tempos de guarda de presídio usa as folgas para cair no mar. "Ainda tô novo! Vou lá, surfo, fico trocando ideia, lembrando de quando a gente passava o dia inteiro na praia", diz. "Naquela época lá nós abrimos as portas do surf, deixamos o negócio crescer de verdade. Muitos não tiveram condição de ir pra fora, mas aqui a gente caía em qualquer lugar. O que deu pra fazer a gente fez." Quizumba agora espera a aposentadoria chegar. "Tem que trabalhar mais um pouco. Se o surf contasse, já teria me aposentado", diz. "Mas não conta", ri, segurando a prancha, o mar de Santos quebrando.

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