?Com as pedras que me atiras vou construir o castelo da tua ignorância? (Frase colhida no pára-choque de um caminhão na rodovia Raposo Tavares)
Jean-Paul Sartre escreveu nas suas Reflexões sobre o Racismo que, caso não houvesse judeus no mundo, alguém os teria inventado só para poder perseguir. Esse mesmo gênio inventor poderia ter concebido árabes, negros, argentinos, palmeirenses, veados ou qualquer outro grupo por quem um outro determinado grupo de imbecis decidisse ter ódio.
Nós precisamos dos nossos inimigos por pura necessidade existencial. O inimigo nos espelha e define. Ele nos consente de olhar na cara as nossas próprias forças e fraquezas. E através da mesquinhez e do ódio pelo outro, reforçamos a nossa identidade pessoal, cultural, moral, nacional, religiosa, sexual ou futebolística.
Não faço uma apologia do ódio. Mas é importante investigar o esgoto nauseabundo que viceja nas nossas sombras. É difícil admitir, mas a verdade é que adoramos detestar o próximo ? algo ou alguém acaba sempre virando alvo de nossas frustrações. Porque a dor neste mundo é imensa e ninguém suporta viver sem um bom bode expiatório. O ódio é uma energia fluida que se traveste continuamente, um eterno mutante. É por isso que, quando a sua namorada te trai com o cunhado do despachante ou o seu pai se nega a pagar a inscrição da sua academia de ginástica, a ira contra o Lula ou o George Bush se inflama. É por isso que, quando recebo cartas mal-educadas de alguns leitores da TRIP, tenho vontade de chutar a boca do guarda de trânsito inglês que me deu uma multa injusta ontem à tarde. Até sangrar. Uma multa aqui custa 300 reais.
Não são coisas bonitas de dizer, de pensar, de sentir. Mas é também na podridão e nos mistérios doloridos que a vida se recicla. O nosso progresso depende do reconhecimento dessas incapacidades, dos limites e das imperfeições. A esse propósito, acabo de encontrar um pequeno poema de Coleridge, que arrisco traduzir: ?Ele olhou para a própria alma com um telescópio. O que parecia tão errado, ele enxergou como lindas constelações: e ele incluiu na sua consciência mundos escondidos dentro de outros mundos?.
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