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Cotidiano – 1ªparte

A rotina entre as grades

Por Redação

em 29 de setembro de 2005

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Acordar cedo em um xadrez coletivo é sempre uma tristeza. Olha-se para o lado e o que se vê são pessoas que estão se desenvolvendo em meio à vida da gente. E que acordam neuróticos, aborrecidos com a prisão, com os guardas e até com os companheiros de sofrimento ao lado. Você os olha e quer compreender, mas sua própria dor de estar ali também enterrado em pé impede de sair de si para mergulhar na vida de mais alguém.

Bebemos a luz mortiça da angústia que parte dos olhos de cada parceiro de cela. Não falamos. Não podemos fazer barulho para não acordar ninguém. Não se acorda um preso. A idéia é que, quando dorme, está em liberdade, no mundo de seus sonhos. Acordá-lo é trazê-lo para a prisão novamente. Quase não conseguimos conversar. Tudo parece que já foi dito e uma palavra mal colocada pode ser o ponto onde o controle nos escape.

Nos sentimos qual bagaços humanos, couro curtido e duro ranger de dentes. Não há coitados entre nós. Todos sabemos que os humildes ficaram lá fora. Estamos em pleno território dos prepotentes, arrogantes e desequilibrados. Temporada aberta de caça. Tudo parece fazer parte de um enredo sem sentido e que vivemos uma subvida.

Aos poucos vamos nos livrando da sombra escura e da falta de movimento que nos permeia. Os demais vão acordando, as conversas começam a surgir. O risco de submergir nos lagos grossos da angústia e tristeza, parece, esvanece na trama do tempo.

A televisão é ligada. O apresentador vai desenrolando as notícias. A verdade, crua como sol de inverno, vai nos chegando aos nacos. Não é nossa realidade, não faz parte de nossa vida. Pouco comentamos, pouco tem a ver conosco. Importante é saber como está o clima no pátio de recreação. Quem esta querendo matar quem, por que e se vai acontecer mesmo. Vai ter revista geral nas celas? Soltaram boieiros e faxinas para a faxina no pátio e distribuição do café com pão? Se demorar é porque o Choque da PM pode invadir para revista geral. Daí faz-se necessário preparar o couro e o espírito para as borrachadas e humilhações de praxe. É preciso ficar esperto.

Há sempre inimizades no xadrez. Disputa de poder. Prestígio, conceito e o "proceder" estão envolvidos em uma correlação de forças que nos impede de ver que cada dia renasce imensamente. A esférica tensão desenrola-se em círculos. Viva, pulsante a multiplicar-se em possíveis choques e contrachoques. A paciência, essa virtude surda, funde-se nas horas seguintes, até que as portas dos xadrezes sejam abertas.

Então o preso consegue soltar o ar retido no peito. A dor é como pedra que não germina, basta-se. As próximas horas serão mais respiráveis. O aprisionado sai do xadrez se benzendo, procurando proteção em suas crenças, sabe que o perigo está em cada rosto crispado ou sorridente. Olhares são ameaças. O preso duela com a espada de suas expressões. Mas também existem os amigos.

Amigo na prisão tem um sentido complexo. Há um compromisso de mútua proteção e apoio. O homem, fica aí demonstrado, é um ser político. E isso de política na prisão é algo extremamente complexo. As relações têm a ver com espaços existenciais de antes da prisão; afinidades pessoais; busca de proteções e apoios; e, fundamentalmente, defesa e domínio. Como nas agremiações políticas, o poder é a finalidade. Poder significa controle sobre drogas, dinheiro, telefone e contatos. Capitalismo selvagem. Somos nós mesmos, ainda seres humanos, como sempre.

Com as portas abertas, o pátio se enche. Alguns poucos ficam nas celas. Dormindo; escrevendo cartas; lendo; estudando; pensando; sofrendo suas misérias íntimas e particulares; e outras atividades menos significantes. A maioria sai e vai andar, organizar o futebol, conversar com amigos, aliados e facções. Sair da cela é um alívio de valor incomunicável. Experiência de per si que significa diferente para cada um.

Eu saia da cela para ficar andando sozinho no pátio. A solidão, depois de estar trancado com tanta gente na cela, era tudo o que eu precisava. Andava acelerado no pátio para ninguém vir conversar comigo. Sempre havia algum pentelho a perguntar alguma coisa. Procurava alijar-me da sensação de não estar em mim mesmo e da autocomiseração. Vencer a dor que me pegava nu, com o rosto derramado entre as mãos, ao amanhecer mais uma vez na prisão.

Há três coisas que considero piores que se estar preso. A primeira delas é que se está separado daqueles a quem se ama. Isso dói… A segunda é ter que coexistir com presos. Pessoas que sofrem, carregadas nas neuroses, psicoses, problemas imensos e insolucionáveis e que tendem a descarregar no parceiro mais próximo. A terceira são os agentes penitenciários, seus chefes e diretores. Alguns arvoram-se em carcereiros do povo e vivem para sacanear e fazer doer a vida do preso. Cidadãos exemplares na comunidade, na prisão carrascos implacáveis, capazes de toda crueldade. Mesmo sádicos torturadores que se juntam aos bandos, de canos de ferro nas mãos, para arrebentar com o preso. É obvio que não são todos e essa prática vai diminuindo gradativamente.

Depois, voltava para a cela para ler e estudar. O que demandava esforço incalculável. A televisão, o rádio estavam sempre ligados. Dava sorte quando não ficava quase ninguém no xadrez. Então grudava em meus livros em busca de toda concentração que pudesse conseguir. O humano é extraordinário; consegue adaptar-se a qualquer ambiente e a vontade é força imperiosa a nos atirar para a frente, a despeito das dificuldades.

Cerca de oito horas. Somos liberados para trabalhar. Trabalho é pouco e a remuneração vergonhosa. Mas não há outros meios. Trabalho na prisão tem outro significado. O preso não trabalha pelo salário. Trabalha para poder sair do sufoco da cela e do pátio exíguo; para poder andar um pouco mais; ter contato com companheiros que moram em outros raios da prisão (tráfico de drogas, troca de informações, política de apoios ou simplesmente conversar com amigos, o que mais ocorre em geral); ver pessoas que vêm da rua, mulheres (quem sabe uma professora, uma psicóloga ou mesmo uma funcionária); ter acesso a advogados e a todos os setores da prisão que possa lhe interessar; conseguir uma alimentação de melhor qualidade; e coisas assim. Trabalhar é buscar espaços de desenvolvimento.

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