por Luiz Perez

O médico Luiz Perez acaba de chegar ao Nepal. Juntou uma equipe, os recursos que conseguiu e partiu rumo ao país devastado. Enquanto estiver em missão, ele contará aqui como tem sido o trabalho da equipe.

Laura me pergunta: Guardo essa manteiga? E a geléia? Guarda! Respondo a ela. E essa faca de plástico? Guarda também. Risos e ansiedade se misturam enquanto colocamos a comida do avião nos bolsos. Não temos a menor ideia do que nos espera em termos de estrutura e a Cruz Vermelha deixou muito claro que nossa presença na equipe exigiria que trouxéssemos mantimentos para nós cinco, por todo o período. Enlatados, queijos, atum e agora geleia de avião ocupam nossas mochilas.

Foi tudo muito rápido. No domingo à noite tive a ideia, na segunda de manhã já estava com Laura na padaria definindo nosso plano. Karina pelo telefone entrava em contato com sherpas, assessorias de imprensa e empresas possivelmente interessadas em ajudar. Na terça de manhã já contávamos com quase 4000 euros de doações vindas da Holanda através da amiga Jessica Villerius. Só fui conhecer Karina pessoalmente em nossa reunião durante o almoço, onde o engenheiro Arthur Mello, apaixonado pelo Nepal e feroz na logística da expedição, assumiu a responsa nas decisões a serem feitas no Brasil depois de nossa partida. O rápido crescimento do projeto nos permitiu colocar mais dois médicos na missão: o anestesiologista Lucas Rimi e a cirurgiã Maria Luiza Christovão Ramos. Era quarta-feira e eu acumulava 8 horas de sono e as outras 40 de WhatsApp, e-mails e telefonemas. Conheci os dois novos integrantes, tiramos o visto indiano, compramos os mantimentos, arrumamos as malas e quando eu vi já estava colocando a manteiguinha no bolso, com o sol se pondo na janela do avião.

Mal consegui me despedir da família. Um rápido jantar no dia anterior com minha irmã e sobrinhas. Dar tchau não foi difícil. Sejamos realistas. Essa é uma expedição curta e em breve estarei de volta. Meus olhos se encheram de lágrimas só quando me despedi de minha sobrinha Carmen, hoje com 3 meses de idade. Já deitada em seu berço, Cacau sorri, quentinha, cheirosa, a barriga cheia de leite. Vem-me à cabeça as fotos que vi das crianças nos escombros de Kathmandu. É impossível ficar indiferente. Até o momento o governo não se manifestou quanto a uma possível intervenção humanitária na região.

Me tocou forte a tragédia por eu já ter visitado o Nepal duas vezes, e pensei que a falta de uma iniciativa dentro do nosso país resultaria em menos doações, menos participação dos brasileiros. 

Sejamos realistas. A presença de cinco médicos brasileiros no Nepal por um curto período de tempo tem pouco impacto em tamanho desastre. Nosso objetivo é, além de atuar neste momento crítico, servir de estímulo para uma contribuição maior, à longo prazo.

No aeroporto de Guarulhos, Laura e Lucas alocam os mantimentos e as medicações doadas pelo Hospital Sírio Libanês. Karina, experiente nas montanhas do Himalaia, vem com nossos sleepings e barracas. Maria Luiza chega com mais medicações e também agasalhos e cobertores. "Isso aqui foi doação pessoal do meu amigo Romeu Fadul, lá do Sírio Libanês. Ele disse que não conseguia se desfazer das roupas do pai falecido, e que nosso apelo lhe ajudou a lidar com o luto".

Mais de 300Kg de material médico, embalados em 24 volumes. Os funcionários da Swiss Air já sabiam de nossa presença na hora do check-in e além de colocarem os cinco integrantes e todas aquelas caixas dentro do avião sem cobrar nada e com um sorriso no rosto, nos deram caixas de chocolate e até champagne durante o vôo. Eu só pensando: "isso aqui é uma responsabilidade enorme. Esse projeto tem que ser merecedor de toda esse carinho e boa vontade".

Na conexão em Nova Delhi, o gesto se repete. Dessa vez a atendente do check-in não fazia ideia de nossa presença, mas ao entender a situação passou por cima do protocolo, desconversando a ordem de seu gerente no outro lado da linha. Material novamente despachado sem custo.

O exército canadense chega em peso junto conosco. Rimos muito ao caminharmos próximo a eles, todos uniformizados, com suas grandes caixas de mantimentos e material médico. Nossa equipe é a definição do improviso e heterogeneidade. Representamos um aglomerado de indivíduos e não uma instituição. Cidadãos preocupados com o mundo e não com um só país.

O frio na barriga aumenta na hora do pouso. Envio essa mensagem pela internet do aeroporto, enquanto aguardamos as bagagens. Agora é dar um destino a nossa carga, montar acampamento e partir pro atendimento junto à Cruz Vermelha, que nos recebe e potencializa nossa capacidade de atuação. Espero em breve poder mandar mais notícias.

Força, Nepal!

Quem quiser colaborar pode fazê-lo através do site de financiamento coletivo: Conexão Brasil-Nepal.

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