por João Wainer
Trip #243

Em texto especial para a Trip, o fotógrafo e documentarista João Wainer fala como os drones estão rompendo com a maneira tradicional de fazer filmes e reportagens

Era junho de 2013 e eu ainda dirigia a TV Folha. Os protestos pela redução da tarifa de ônibus estavam se espalhando pelo país. As imagens da repórter Giuliana Vallone com o rosto ensanguentado após levar um tiro de elastômetro (bala de borracha) eram onipresentes nas redes sociais – e o protesto que aconteceria no dia seguinte prometia ser histórico. Era a oportunidade para que eu pusesse em prática um plano que vinha alimentando em minha cabeça há alguns meses: usar um drone em uma cobertura importante de hardnews.

No largo da Batata, milhares de pessoas se concentravam para sair em marcha em um dos maiores protestos já vistos em São Paulo quando o pequeno Phantom branco, equipado com uma câmera gopro e pilotado por Luis Neto, decolou de um posto de gasolina na avenida Faria Lima. Até então drones eram pouco conhecidos, e as reações de quem olhou para o céu naquela noite foram as mais diversas. Alguns acharam que eram alienígenas (um site de ufologia publicou matéria dizendo que um óvni fora visto sobrevoando as passeatas), outros acharam que era coisa da polícia. O mais encantado com aquilo, na verdade, era eu. Com o monitor de vídeo nas mãos, observava a multidão de um ângulo novo – e enxergava pela primeira vez a nova fronteira que se abria para o cinema e o jornalismo. Até aquele dia um drone nunca havia sido usado em uma cobertura jornalística no Brasil – e, até onde eu sei, no mundo. Essa cobertura foi um marco para a TV Folha, ganhamos o Prêmio Esso de Jornalismo e produzimos Junho, documentário lançado nos cinemas no ano seguinte. Foi ali que eu tive certeza de que nada mais seria como antes quando esses aparelhos se popularizassem.

O drone voa em uma altura que os helicópteros não alcançam, permite manobras impensáveis para qualquer outro tipo de equipamento de captação de imagens aéreas, passa dentro de janelas, vielas e é infinitamente mais barato do que todos eles – além, claro, de caber em uma simples mochila. Usado com criatividade é uma verdadeira revolução porque revela o mundo através de tomadas novas, nunca antes vistas. No cinema o que mais se aproximava do resultado da captação de imagens com drones eram as gruas, mas sempre com uma limitação de tamanho. Um take de drone passa a sensação de uma grua infinita. No jornalismo os usos também são inúmeros. Sem falar que o drone aumenta a segurança do repórter, que pode se expor menos para captar imagens melhores em lugares de alto risco, como zonas de guerra, incêndios etc. Recentemente, a empresa americana DJI sobrevoou com um drone a boca de um vulcão em erupção na Islândia a uma distância que nenhum ser humano suportaria, e fez imagens inacreditáveis.

As vantagens são muitas, mas a popularização dos drones também traz riscos, como invasões de privacidade. Normalmente a tecnologia chega antes e obriga os legisladores a correr atrás com seus passos lentos e desengonçados. Também por isso, creio que a regulamentação do uso de drones deve ser feita com urgência. Espero que nossos congressistas usem o bom senso e não burocratizem demais o processo de liberação do voo para que essas imagens de ângulos nunca vistos continuem chegando dos quatro cantos do país.

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