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Cometários sobre Natal

Por Luiz Alberto Mendes

em 28 de dezembro de 2009

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Dia  de  Natal

 

Gostava dos natais que passávamos na casa de minha tia Ercy até quando meu pai ficava bêbado. Toda família de minha mãe reunida, as mulheres passavam a manhã toda fazendo um capeleti especial, receita que a vó Nhem trouxera lá da Italia. Meu pai, em questão de pouco tempo já estava bêbado. Nos enchia de vergonha promovendo espetáculo. Para nós a festa acabava ai. O resto era vergonha, tristeza e decepção.

Depois fui para rua e os natais foram cruéis. Ver pessoas felizes, lembrar minha mãe sofrendo pela minha ausência, fome, frio, medo, solidão… E eu tinha 12, 13 anos de idade. Dói agora relembrar. Enfrentaria as ruas, como fiz, mas morria de medo de meu pai. Ele me apavorava. Passei a vida toda combatendo o medo que ele me contaminou desde pequeno. Eu o odiava por isso.

Na prisão Natal era sinônimo de aborrecimento, angústia. No começo prisão era terror. Os militares no comando do país abandonaram as prisões nas mãos dos diretores e estes massacraram todos nossos dias. Os guardas de presídio batiam de cano de ferro, quebrando cabeças, braços e pernas. O castigo era para ficar por tempo indeterminado. Fiquei um ano, mas conheci quem cumpriu 8, 9 anos de cela-forte (as outras celas não eram “fracas”).

Nós, os presos, assimilávamos toda aquela barbárie e nos matávamos como porcos no meio do pátio de recreação. Estupros eram rotineiros; o preso era o algoz do próprio preso. Então Natal era um dia pior que os outros (não que os outros fossem melhores). Os guardas faltavam e nós ficávamos trancados o dia todo em nossas celas, remoendo lembranças de natais mais felizes.

Depois melhorou um pouco com a tomada de consciência do preso, o fim da ditadura militar, embora o ranço permaneça fortemente. Em comparação, hoje temos uma prisão muito mais humanizada. Os celulares não são usados somente para o mal. Os abusos ficaram mais transparentes, embora esteja muito aquém do necessário. A transparência deve ser total (isso de “segredo de segurança” não existe; precisamos saber tudo). Alias não somente na prisão, mas em todos os setores da vida pública. É a única forma que temos de fiscalizar e observar onde esta sendo aplicado o dinheiro que pagamos com nossos caríssimos impostos.

Existe até lei que exige que a comunidade se organize e componha uma comissão que vistoriaria como é gasto o bem público nas prisões. Mas não funciona. Pelo menos não aqui na cidade de São Paulo. Os conselheiros, para fazerem uma visita de inspeção em alguma prisão precisam avisar a Secretaria dos Assuntos Penitenciários. A prisão em questão é avisada e fica com os nomes dos conselheiros autorizando o ingresso, dias depois. Quer dizer: é uma farsa. Se houver alguma coisa errada na prisão, terão tempo de maquiar, remover ou eliminar provas.

Hoje o preso enfeita a prisão toda e recebe a família uma semana antes do Natal. O clima é mesmo festivo. Crianças correndo pelas galerias, subindo pelas grades. A prisão fica parecendo sambódromo de tanta criatividade e improvisação. Há distribuição de doces, presentes para as crianças, o preso costuma dizer que o Natal é das crianças. Tanto que, ao final é autorizado a elas destruir toda a decoração. Em cerca de 10 minutos eles acabam com um esforço de meses de trabalho e dedicação.

Depois vem o Natal mesmo. O preso agora fica no pátio de recreação esquentando ao sol, quase não há mais tranca. É um dia comum na prisão, com a diferença de que não tem trabalho nem escola.

Não, não tenho boas lembranças de Natal. E foi assim que passei o meu. Sou sozinho e não tenho família, com exceção de minha sobrinha. A ex-esposa foi passar o Natal com a família dela e levou nossos filhos, que já são parte da família dela. Meus pais morreram quando estava preso e sou filho único deles. Fiquei aqui sozinho em casa, aborrecido, sentindo a solidão fortemente, mas o orgulho é maior que a dor. Daí vou em frente como sempre fiz, doendo ou não. Que alternativa tenho?

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Luiz Mendes

28/12/2009.

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