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Com desejo, dá-se um jeito

Você seria capaz de mudar sua vida em apenas 30 dias? Faking it é um reality show que ensina como se reinventar

em 21 de setembro de 2005

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Sou um dos poucos que admitem gostar do que muitos escondem. Confesso que assisto e gosto de reality shows. Como um convicto e verdadeiro adicto da televisão, e frente a uma programação cada vez mais capenga e desinteressante, os reality shows me parecem mais divertidos do que qualquer programa de calouros, série com vampiros ou Globo Repórter sobre araras azuis. Mesmo sabendo que os integrantes dos Big Brothers estão destinados ao esquecimento precoce, eles me parecem mais autênticos do que qualquer personagem de novela tirado de um roteiro naturalista-engraçado-zona-sul-carioca.


Para os que vão me jogar pedras, dizendo que nos Big Brothers o intuito parece ser de que só o mais desinteressante deles vença, tenho uma opção espetacular: um outro reality que se chama originalmente Faking it, mas foi traduzido para o português ? talvez por uma dessas mentes doentias que circulam no universo do marketing ? como Tudo é Possível. A idéia é simples: eles (os ingleses) pegam um indivíduo qualquer e, durante um mês, lhe dão todas as facilidades para que se transforme em outra pessoa. Durante esse tempo, o candidato fica imerso em um treinamento ferrenho para adquirir os conhecimentos necessários para poder desempenhar perfeitamente uma outra profissão.


A primeira vez que assisti a um desses programas foi em, acredite se quiser, Fernando de Noronha. Estava zapeando na televisão, matando tempo antes de um jantar que acabei perdendo. Apareceu na tela o Faking it. Era a história de um garoto, expert em computação, que estava sendo treinado para se converter em piloto de corrida. Os produtores colocaram à disposição dele três ex-pilotos que lhe deram todas as dicas. Durante 30 dias, o cara ficou longe da família, dos amigos, da namorada. Mudaram o jeito de ele se vestir, o corte de cabelo, tudo de acordo com o que, teoricamente, deveria ser seu novo jeito de viver.


 


Pintor de paredes


A prova final estava dividida em duas partes. Em uma, ele deveria participar de uma corrida. Na outra, bater papo com três experts em automobilismo sem entregar que era um novato. A cada programa, os desafios são fascinantes. O mais interessante é poder acompanhar as reações dos participantes frente aos avanços (ou não) de cada nova situação que têm de encarar.


Em um deles, um rapaz tinha de se converter em fotógrafo de moda, fazer um portfolio com uma modelo e não ser reconhecido na entrevista. Em outro, uma menina que limpava banheiros num ferryboat tinha de se passar por marinheira, participar de uma regata como capitã do veleiro e também passar no teste da entrevista. Em outro programa, um pintor de paredes tinha de se tornar um artista plástico. Em outro, uma showgirl tinha de virar uma exímia amazona.


De todos eles, apenas o rapaz do automobilismo falhou miseravelmente. Mas fez por merecer. Não conseguiu abrir sua mente para novas formas de raciocinar e encarar a vida e as situações adversas. Os outros, de uma maneira ou de outra, se deram bem. A garota marinheira venceu a regata e não foi reconhecida na prova oral. O pintor de paredes conseguiu um marchand que o representasse e terminou convidado para participar de uma exposição na galeria do cara. A showgirl se converteu em uma exímia amazona em 30 dias. O fotógrafo conseguiu fazer um admirável portfolio da modelo.


A força de vontade dos participantes, mola mestra para que consigam ultrapassar barreiras, e a ajuda de instrutores dedicados fazem com que o programa se transforme num exemplo do que minha sogra inglesa sempre repete: where there?s a wish, there?s a way (quando se tem desejo, sempre dá-se um jeito). O paradoxo dos reality shows é justamente este: por mais reais que sejam, acabamos assistindo a uma projeção de um ideal. No caso do Faking it, o de que num piscar de olhos (30 dias) podemos mudar tudo em nossas vidas. A realidade, aqui do outro lado da tela, é outra.

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