por Ricardo Guimarães
Trip #275

Tenho dificuldade de acreditar em relacionamentos calmos e tranquilos

Caro Paulo,

Sempre que a relação masculino e feminino entra na conversa, me vem à mente a ideia de complementaridade. E não importa se é entre homem e mulher, se é uma relação pessoal, sexual, profissional ou social.

As relações mais produtivas e duradouras que conheço são resultado de encontros entre opostos complementares. Mas não é sempre que a relação entre opostos complementares é produtiva e duradoura. É preciso que haja tensão. Isso mesmo: sem ela, não tem evolução. (A música dessa frase me lembrou do querido Roberto Freire com o seu “sem tesão não há solução”. Por aí.)

A lição está na ciência, na natureza: não se faz sexo, não nasce vida, não se faz cocô nem xixi, nada disso, sem tensão. A ausência dela significa a morte, também conhecida como equilíbrio total.

Tensão ou pressão é sintoma de seres vivos. Doze por oito é uma tensão boa para nós humanos. Muito acima ou muito abaixo, é doen-ça. Se chegar a zero, é morte.

Por isso tenho dificuldade de acreditar em relacionamentos calmos, relaxados, tranquilos.

“Você é louco! É muito difícil vender a ideia de tensão como algo bom!”

Esse foi o alerta que o meu amigo Albano F. Schmidt me deu enquanto me levava para fazer uma palestra com o tema Propósito, Tensão e Evolução para 1.600 empresários e executivos no ExpoGestão, em Joinville.

É verdade, não é fácil, mas a meu favor tenho o fato de a ideia de tensão ser intuitiva. Isto é, sem pensar, as pessoas concordam. O problema é que elas pensam. Mas aí conto com a ajuda do mestre das relações Carl Jung.

 

Siga o mestre

Jung desenvolveu um conceito para explicar a importância de se gerenciar bem a tensão para que haja a evolução da relação e de cada um dos envolvidos: tertium non datur (terceiro não considerado, em latim). A expressão foi criada por Aristóteles como um dos princípios da lógica, mas, para mim, o filósofo falou mais perto. Diz ele que, quando há oposição na relação de duas pessoas, é necessário suportar a tensão da diferença até que surja uma terceira posição que ainda não tinha sido considerada. Quando você não admite uma terceira possibilidade, a tendência é eliminar a outra parte como solução do conflito. O resultado é o empobrecimento das duas partes, que não se fortalecem e não crescem com o embate; além do empobrecimento da realidade, que ficou sem a alternativa não considerada. Isto é, não há evolução.

Precisamos desmistificar essa busca idealista de equilíbrio e calma. Vida boa tem tensão boa com pessoas alertas e espertas para viver a vida como ela é.

E, em tempos de grande polarização como o atual, saber conviver com essa tensão é vital para a gente não andar para trás.

O Brasil, em particular, está vivendo uma fase em que as redes sociais facilitam às pessoas a se informarem, formarem opinião e se expressarem. A maioria, no entanto, ainda usa essa dinâmica como um brinquedo novo. Tem que opinar sobre tudo, mesmo que não tenha fundamento e não seja capaz de sustentar a tensão da oposição, da divergência. As pessoas querem se posicionar, não trocar ideias.

Ao entender que tensão é uma coisa natural e boa, as pessoas vão se acalmar de verdade e usufruir mais de conhecer uma perspectiva que não é a sua. Viveremos com mais inteligência e segurança, sem o risco de pensar que a solução do conflito é eliminar o outro.

Tamo junto e misturado, sem chance de exclusão.

Esse é o espírito da época.

 

Abraço do amigo Ricardo

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