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Chicão

Era tão macio e fofo que já levei, nem sei bem por que, ao rosto.

em 18 de fevereiro de 2008

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Quando o vi, sabia que tinha que ser meu. Ele é assim de um fulvo, no centro de suas costas, ao amarelo-ouro claro e quase bege descendo em dégradé até o peito. No centro do peito, onde os pêlos se encontram, há uma incrível linha de pêlos brancos que lhe confere nobreza. É lindo. Apaixonei-me à primeira vista.

Chamei e o bichinho veio todo roliço e saltitante, com as orelhas para trás, parecendo um pitibulzinho. Como o rabo é pequeno naturalmente, ao balançá-lo, sacudia a parte traseira toda. Parecia alegre, saudável e bonito demais para ser verdade. Praticamente atropelei gente que queria também. Ele já era meu e não tinha conversa nem negócio. Peguei e os dedos afundaram em seu pêlo macio. Era tão macio e fofo que já levei, nem sei bem por que, ao rosto.

Ergui no alto e vi o incrível. Seus olhos pequenos eram azuis ao centro, com o contorno da íris em verde. Nunca tinha visto nada parecido. Ele esticava a língua, querendo me lamber. Dali trouxe ao peito e avisei que só ia soltar em casa, prepotente. Estavam dando, então era meu. Agradeci firme a garota doadora que me olhava atônita, virei as costas e fui. Nem olhei para trás com receio que ela desistisse.

O bichinho acomodou-se em meu peito e fixou-se no que vinha à frente. Pensando bem, acho que ele quem me escolheu. Aquela olhada com as orelhas para trás, a balançada de traseiro e a esticada de língua me conquistaram. Antes de chegar em casa, várias pessoas conhecidas param para olhá-lo. Eu contava e eles lamentaram não haver chegado antes de mim. Era um sedutor, não havia dúvidas.

Em casa, soltei-o no chão e meus filhos vieram para cima. Deixei que gostassem dele. Demoraram muito, era só para gostar, não apaixonar. Tomei o cãozinho deles e fui levando para minha casa aos fundos. Soltei na frente da cozinha e fiquei admirando. Saiu balançando o traseiro a cheirar centímetro por centímetro, como que se apropriando da região.

Brinquei e o danadinho só queria saber de morder. Acariciava e ele cravava os dentinhos afiadíssimos. Dava para sentir que ele não sabia machucar. Só pressionava e soltava, deixei. Percebi que, se puxasse, cortaria a pele. Reagia com mordidas ao carinho. Não conhecia muito de afeto. Não teve jeito. Os meninos foram chegando aos poucos, invadiram e tomaram conta do bichinho. Ele era energia pura. Encarava os dois, latia fininho e queria brincar sem parar.

Comprei ração para cachorro pequeno (cara…), uma pequena coleira azul mais para enfeitar e Biscroquer. Eu o encontrei ralando tudo. Meus sapatos, jornal, tapete, carpete, lixeira, até meu desodorante que não sei como foi parar na boca dele. Fez uma zona em duas horas que o deixei. E à noite para dormir? Acomodei-o ternamente em minha cama. Achei que era um filhotinho e que precisava de companhia para dormir. Pior viagem. Não dormi a noite toda. Ele não deixava. Acordava toda hora e vinha para cima adivinha fazer o quê? Morder.

Quando minha sobrinha afirmou que era um vira-lata, me ofendi. Só ficou numa boa porque ela se explicou. Ele era uma mistura de várias raças nobres. De lado, parecia um minilabrador. De frente, se cortasse as orelhas em ponta e observasse a boca enorme, seria um pit bull mirim. Mas tem o porte de um fila por ser encorpado, possuir muita pele solta, além da pequena barbela debaixo do queixo.

Fiquei um pouco assustado com isso de pit bull. Pensei nas crianças. E se ele fosse mesmo perigoso como dizem? Nunca acreditei no que dizem e não vou começar agora só por covardia. Se bem que ele gosta de morder o tempo todo. Dizem que é da idade. Pelo que sei, é mesmo.

Ele já está comigo há dez dias e já é minha maior companhia. Sou um homem muito só. Não é opção não. Acho que não sei ainda me relacionar devidamente. O animalzinho vive misturado a meus pés o tempo todo. Aprendi a andar quase arrastando para não pisá-lo.
Agora mesmo está ali na minha poltrona de leitura, dormindo. Dorme de olho em mim. É só levantar, e faço com o maior cuidado para não fazer ruído, para ele acordar. Estica o focinho, cheira o ar e dá uma gemida para que eu o desça. Daí me segue o tempo todo. Se saio, ele fica no portão ganindo como se o estivessem matando. Já deixo os meninos atentos para o distraírem; então saio sem que veja. Eles dizem que o danadinho fica me procurando a casa toda.

Quando chego, sou recebido com uma alegria que me faz esquecer tudo. Desde a hora de limpar os inúmeros e malcheirosos cocôs e xixis dele até quando me acorda mordendo minha orelha.
E se for um desses pit bulls assassinos de que se tem notícias? Estou apostando todas minhas fichas que não é, e, se for, estou criando-o com tanto amor que hei de torná-lo dócil. Acredito nisso. Ah! Ele acordou e quer atenção. Tchau…

*Luiz Alberto Mendes, 54, ficou guardado durante 30 anos antes de se divertir com anzóis; sua experiência carcerária está contada em Memórias de um sobrevivente.
Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br

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