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Cela Forte ? 2ª parte

Como é viver numa solitária

em 29 de setembro de 2005

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Diante a minha ignorância dos motivos, ambos não sabiam o que me dizer. Aquele de voz rude era o Carlão. Havia feito uma chacina no pátio de recreação. Chegara dias antes de mim. Matara três presos e ferira gravemente mais meia dúzia. O outro era o Tico. Este matara dois presos na Casa de Detenção. Um desses baianinhos tinhosos que gostavam de meter a faca nos outros por qualquer motivo. Já conhecia a fama de matadores deles.

Sabia quem era quem. Claro, estava plugado ao ambiente. A fama e o conceito de matadores, de certo modo, intimidava bastante. Ao contatá-los, se sabia que, ao menor deslize, por ali não haveria perdão. Era preciso ficar esperto com as palavras e não se mostrar intimidado, por mais estivesse.

– Não esquenta a cabeça, maninho, estou condenado a mais de cinco anos só de cela forte e estou aqui firmão. Você sai logo, não fez nada… Carlão tentava me conformar. Acabou me assustando mais ainda. Cinco anos ali dentro, sem sair? Melhor morrer logo de uma vez.

Orientou-me para que, quando o Lauro (o faxina) me trouxesse o papel higiênico, enrolasse pelo corpo, qual fosse uma múmia. O segredo era fazer ginástica o tempo todo, me manter aquecido e cansar para conseguir dormir um pouco. Caso contrário iria sofrer muito e havia risco de enlouquecer. Muitos enlouqueceram naquela cela forte, diziam-me.

Andar para lá e para cá, cantar, pular, gritar, eram alternativas. Não podia é ficar masturbando como macaco. Minava as energias, estupidificava e tirava o sono. De vez em quando, tudo bem, fazia parte. Era preciso sobreviver às sombras da noite e largas insônias.

– Vou ficar acordado a noite toda contigo. Chama sempre que quiser conversar. Estamos contigo, irmãozinho. O Tico ficará de dia, certo?

Logo apareceram outros companheiros, dos andares acima, que estavam em regime comum. O "boi" permitia a comunicação com dez celas acima. Havia solidariedade e companheirismo. Era nosso fedorento e nauseabundo veículo de comunicação. Aquela era a parte mais nobre da cela. Só que era preciso ter estômago. Subia o maior cheirão de merda o tempo todo. A todo instante, vinha o barulho de descargas e o fedor se intensificava. Com o tempo, acostumava, diziam os outros. Achei difícil.

Todos queriam colaborar para minorar meu sofrimento. Não conhecia quase ninguém ali, mas minha posição, de estar ali nu e sofrendo o frio intenso, me fazia protegido de todos. Carlão mandaria um sabonete e um pedaço de linha. Ferramentas superúteis na "pescaria" via encanamento do esgoto.

O faxina trouxe o papel. Mal chegou e já me enrolei todo e fiquei ali, ao pé da privada, lamentando minha sorte. Desenrolava, pulava, corria, quando começava a suar, enrolava tudo novamente para conservar o calor. Infinitos minutos mais velho, sofri aquela noite fechada em azul-escuro. Parecia não acabar mais.

Fiquei feliz quando o dia clareou pelos fios de luz solar que vinham da janela blindada, furando a escuridão. A vida intentava renascer, no dia premeditado. O faxineiro retirou o papel, serviu café ao leite e pão com manteiga. Delicioso! Quentinho… Que fome danada! Também, pulando a noite toda, só podia dar fome mesmo!

Logo atrás, vieram os brutamontes do choque, com toda valentia que os caracterizava diante de um preso nu e indefeso.

Aprendi a amarrar a linha no sabonete e fazê-lo descer pelo esgoto. Lá das celas de cima, companheiros jogavam linha mais forte, com duas pilhas pequenas na ponta. Então se iniciava a pescaria nos encanamentos. As linhas se enroscavam, eu a puxava. A linha forte seria o condutor para cigarros, fósforos e drogas que vinham dos andares acima. A vida era dura, mas a gente resistia. O que seria de nós sem aquela santa privada…

No terceiro dia, fui informado, oficialmente, que havia sido condenado a seis meses de cela forte e seis meses de castigo de cela comum, em regime de observação. O motivo era o homicídio que cometera na Casa de Detenção, cerca de um ano atrás. Fora legítima defesa, como ficou provado em júri popular, posteriormente.

Já havia cumprido castigo de dois meses pela falta disciplinar. Era demais, a revolta me fez chorar. Ódio espesso corroía por dentro qual ácido quente. Era pior que a morte. Se morresse, pensava que, pelo menos, tudo se acabava. Ali tudo continuaria em dor. A fúria das chamas e a raiva de todos os ventos me avassalavam. Dominar-me era quase impossível. Um fio de seda conservava minha lucidez.

O frio era de matar. Há três dias não dormia. Enrolado em papel higiênico (veneranda invenção!), deitava e desmaiava de cansaço. Dez minutos depois acordava todo congelado. Era preciso pular e correr para reaquecer. No máximo conseguia dormir trinta minutos. Acocorocava no canto da cela, coberto com um lençol de papel higiênico costurado. Carlão fazia o que podia. Entretinha-me em longas conversas para que não desesperasse. Meu anjo da guarda.

No oitavo dia já não suportava mais. Discuti com o guarda, fingi faltar o ar. Tossia como um cachorro louco. Implorei para ir ao médico. O homem ficou com dó de me ver temendo, falando descompassadamente e concedeu, qual um rei, um seu favor.

Deram-me uniforme. Fui escoltado por dois guardas do choque para o médico. Passei pela gaiola de ferro, e lá estava o Cirane, chefe de disciplina, e o vigilante central. Ambos superagasalhados, me olhando. Invejei-os profundamente. Xaxu, um velho amigo, me alcançou e mesmo sob o olhar ameaçador dos guardas conversou comigo:

– Pô, meu, cê tá azul de frio! – Em seus olhos havia uma piedade profunda, quase chorava ao me olhar. Também quase chorei de dó de mim mesmo.

O médico, já alertado pelo companheiro que trabalhava no ambulatório, só de me olhar, receitou injeção e determinou, por escrito, que minhas roupas e colchão me fossem entregues.

Sai do ambulatório feliz da vida. Não me tornariam as roupas quentinhas que eu vestia, graças a Deus! Xaxu discutia com o Cirane. Chamava-o de desumano: Todo de sobretudo, cachecol e toca, e o "menino" (eu tinha vinte e um anos) ali, roxo de frio. Dizia quase gritando, acintosamente, com o homem.

Ainda pude ver quando este saiu andando com passos duros e apressados para o lado da administração. Pensei, fosse colocar o Xaxu no castigo também pela sua ousadia em intimá-lo. Fiquei muito preocupado.

Na cela, as roupas me foram tomadas novamente. Quis discutir. O médico havia autorizado a devolução de minha roupa! Fui ameaçado de ser espancado. Calei. Em segundos, congelei. Esperei e cheguei à conclusão de que o médico não possuía autoridade alguma. Xinguei aos berros. Filho-da-puta! Já entrando em paranóia total.

A porta se abriu:

– Cuidado com esse! Está desesperado! Juntaram-se os guardas à porta para me ver chorar feito criança.

Em seguida, o faxina entrou na cela arrastando um colchão verde, minha coberta e minha roupa.

Em virtude da desumanidade daquele castigo, demonstrada pelo Xaxu ao Cirane, o chefe de disciplina exigiu do diretor penal sua imediata extinção. Nesse dia histórico, depois de anos de vigência e muito sofrimento, foi excluído do Regimento Interno o castigo disciplinar dos dez nu.

Estava há nove dias sem tomar banho e sem dormir direito. Coberto por um grosso cascão que, em parte, até protegia do frio. Daquele jeito mesmo, enrolei-me em deliciosos cobertores e desmaiei no colchão, chorando de alívio. Dormi dois dias seguidos. Nem para me alimentar queria acordar. Estava no paraíso e não queria mais nada.

Carlão também pôde dormir. Devo-lhe favores de valor inestimável, impagáveis. Inúmeras vezes ouviu meu desespero e me acalmou sempre. Foi morto pelo Choque da Polícia Militar na rebelião de l987, na Penitenciária do Estado. Que Deus o tenha pelo bem que me fez!

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