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Em correspondência ao brasileiro morto pela polícia inglesa, nosso colunista em Londres critica as demagogias que cercaram esse episódio lamentável
Caro Jean,
Desde que te mataram não paro de pensar em você. Sem ter te conhecido construí uma imagem – provavelmente enganada – de quem você era por meio da TV e dos jornais. Na foto que pu-blicaram você olha para a câmera com um ar sério, até meio triste, já com jeito de foto de túmulo. Todos dizem que você era um bom rapaz, distinto e trabalhador. Imagino você bem “brasuca em Londres”, desses que todo domingo batem bola no parque em Clapham. Com certeza você matava saudades do Brasil comendo coxinha com guaraná no restaurante do Luis na Oxford Street. Você só andava com brasileiro, não é? Quase não tinha amigos ingleses. A impressão que dá é que a única coisa extraordinária da tua vida foi a tua morte absurda.
Que pena que você não pode juntar a grana e comprar a fazendinha que queria comprar em Gonzaga com o pé-de-meia ganho aqui em Londres. Que dor enorme teus pais devem estar sentindo. E o teu irmão, tua namorada e teus primos. Penso também nos caras que te mataram. Eles com certeza devem ter ficado mal. Não são policiais, são agentes de uma nova unidade do serviço secreto britânico que ao te matar executavam sua primeira missão. Começaram mal, esses colegas patetas do James Bond. Tinham tanta certeza de que você era um terrorista a caminho de um atentado suicida que nem te deram voz de prisão. Logo você, Mister Nice Guy, com teu jeito de mancebo asseado, mineiro, come-quieto. Te jogaram no chão e foram logo atirando para matar. É claro que foi uma puta cagada e o mínimo que o governo britânico podia fazer era mesmo assumir a culpa, pedir desculpas e recompensar a tua família.
Mas, Jean, a polícia britânica é muito decente. A tua tragédia foi uma triste exceção e não a regra. Você reparou nesses anos em Londres, Jean, que a polícia aqui não carrega revólver a não ser em casos especiais? Você deve ter notado como eles são educados e quase sempre gentis.
A tua tragédia não tem graça nenhuma, Jean. Então eu me desculpo se ri muito ao saber que o Lula pediu firmeza para defender os direitos da tua família. Por que ele não pede firmeza também para defender o direito das famílias dos 3112 brasileiros que, segundo a Anistia Internacional, foram assassinados pela polícia brasileira em 2003? Muitos deles não eram bandidos, mas tão inocentes quanto você. Dei gargalhadas com o nosso ministro das Comunicações, Hélio Costa, que prometeu pressionar as autoridades britânicas para apurar os fatos. É muita demagogia, vindo de um ministro de um país corrupto e violento como o nosso. Jean, olha então que ótimo este trecho da carta que o Roberto Busato, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, escreveu a respeito do que aconteceu: “Atira-se primeiro, pergunta-se depois. Matam-se inocentes e, a seguir, apenas lamenta-se a tragédia. Suspendem-se direitos e garantias individuais. Criam-se ambiente de pânico e insegurança coletivos. Agride-se o estado democrático de direito”.
De que país ele está falando, Jean?
É isso aí, my brother Jean. A tua morte me comoveu muito. Fiquei também irritado com a demagogia que ela gerou.
*HENRIQUE GOLDMAN, 44, CINEASTA, É UM “BRASUCA EM LONDRES”, MESMO NÃO BATENDO BOLA EM PARQUES DE CLAPHAM
Ilustração Eduardo Kerges
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