Atenção:
Ler é buscar somatórias de conhecimento com lateralidade e profundidade para amar cada manifestação da vida
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Quando encontramos uma pessoa querida, não nos basta ver,
olhar. É preciso tê-la nos braços, de encontro ao peito, junto ao
coração, e apertada. Queremos sentir com a boca, com a língua,
com as mãos, dedos, com o corpo inteiro. Depois nos aprofundamos.
Queremos informações de ordem psicológica, emocional,
econômica e outras tantas. Saúde também importa muito. Mas, se
estiver bem da cabeça, do coração e do bolso, é quase certeza de
o resto estar ótimo. Todos os grandes mestres nos disseram sobre
isso. Mente sã, corpo são, não é assim?
O que significa? Que estamos realizando uma leitura completa
da pessoa. E, quanto mais próxima, mais detalhada e minuciosa é
nossa necessidade de conhecimentos sobre ela. Ligamos o radar e
buscamos todas as formas possíveis de captar informações sobre
o outro. Tudo nos interessa.
Quando buscamos o sexo oposto, produzimos conhecimento
específico. Lambemos, devoramos com os olhos. No caso do
homem, o diálogo se destaca. Mas a atenção se prende nos seios,
na boca, nos olhos, na bunda, nas pernas, na graça da feminilidade,
no corpo, objetivamente. A mulher busca o que ela considera beleza
masculina, homem bonito tem mais chances, mas diferencia-se. Sua
sexualidade é vinculada a seus sentimentos. Sentimentos significam,
entre outras coisas, possibilidade de aprofundamento na relação.
Procura durabilidade, respeito e igualdade. Preocupa-se com a segurança
que o parceiro possa oferecer. Com seu caráter, com sua
capacidade de ser amoroso, carinhoso e bom pai. São leituras
estanques que podem compor o universo de uma leitura geral.
Se parar por aí, na especificidade, vai defasar e deteriorar.
Conhecimento é fruto com tempo de maturação e ultrapassagem.
“O tempo não pára”, cantava Cazuza. Gilberto Gil, em sua metáfora
maior sobre o amor, diz que “O amor é como grão/ nasce/ morre/
pão”. O que se sabe tende, como a semente, a servir de berço e alimento
ao conhecimento. Quem principia amor à árvore, como eu no
presente, precisa mais que apenas ver. Necessita estudar, procurar
quem já sabe, freqüentar parques, praças, viajar aos interiores, olhar
e observar. O curso é intensivo, de agora para o fim dos dias. Como
parar se as árvores já detêm o poder de prender nossos olhos?
MAPA DA MINA
Quando estive no Rio de Janeiro, não pude deixar de passar em
seu Jardim Botânico. Que maravilha aquilo ali! Todas as árvores têm
nome científico e popular bem claro em placa a seus pés. Conversei
com uma botânica sobre tempo de vida e saúde das árvores. Ficou
absolutamente claro para mim que elas estão tão vivas quanto nós.
E por muito mais tempo. Tenho conseguido entendimentos que
me dão tranqüilidade a meu respeito. Percebo-me naturalmente
olhando, curioso. Paro pra admirar e até faço algumas exclamações
silenciosas, na esperança de ser sentido pela entidade. Uma árvore
com seu porte e dignidade é uma entidade, alguém discorda?
Tenho até, como não poderia deixar de ser, procurado literatura
específica sobre árvores.
Ali, os flamboyants estão vestidos de verde-clarinho. Uma coroa
de florezinhas vermelhas, juvenis, recama o topo propositalmente.
A beleza quer seduzir para reproduzir e perpetuar. Quem ama tudo
isso são as abelhas, os beija-flores e meus olhos enternecidos. Para
mim ficou claro que a sensibilidade tem seus caminhos próprios de
desenvolvimento. Acontece de gostar e não saber por quê. Apenas
olhar a vida toda e não se dar ao trabalho de estudar, tentar entender
para estabelecer o conhecimento, realizar a leitura que tudo nos
merece. Então a própria vida se encarrega do contato. O processo
de apropriação do conhecimento é da própria natureza humana.
Tomamos do meio, desdobramos, elaboramos para depois devolver
acrescido de nossas idéias. Não somos só veículo de passagem.
Crescemos mais a cada novo conhecimento.
Estou chegando à conclusão de que achei o mapa da mina. Ler é
buscar somatórias de conhecimento com lateralidade e profundidade
para amar cada manifestação da vida. Em última instância, ler é amar.
*Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, esperou 30 anos atrás das grades até que pudesse contemplar as árvores em liberdade.
Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
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