AS APARÊNCIAS ENGANAM
O céu azul e as maravilhas do Rio de Janeiro escondem a dura realidade do poder paralelo
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Algumas semanas atrás tive de passar dois dias no Rio de Janeiro. A cidade, por qualquer motivo que ainda não descobri, nunca foi cordial comigo em termos de trabalho. Como se o destino, os taxistas ou São Sebastião, patrono do Rio, armassem um complô, e as coisas nunca acontecessem como planejadas. Acontece que nessa última estada as coisas mudaram. O tempo estava perfeito. A temperatura amena e a brisa suave deixavam o ar transparente, e o trabalho correu às mil maravilhas.
A locação era no anexo do hotel Copacabana Palace, e a vista da varanda do apartamento era deslumbrante. Entre o céu azul e o verde do mar, um horizonte se perdia no infinito e ajudava a entender como Ronaldo Bôscoli tinha tido a inspiração, muitos anos atrás, para escrever a letra de ?O Barquinho?. Era como se tudo estivesse suspenso no ar. Voltei para São Paulo exta-siado com a cidade. Dois dias depois, a realidade me apareceu na forma de uma carta que Gláucio Binder, morador do Rio, publicou no site www.bluebus.com.br indignado com a violência na cidade. Diz assim:
?Só para ser recente, no último mês [no caso, julho] o carro do meu filho foi cercado por dois carros com fuzis e metralhadora; no último mês, um visitante americano, hospedado na minha casa, teve uma arma de um policial apontada para sua cabeça em uma blitz; no último mês, o carro de uma companheira de trabalho foi arrombado; no último mês, meu outro filho foi assaltado por duas motos com quatro ocupantes, armados; no último mês, um amigo foi assassinado ao sair de seu trabalho na avenida Rio Branco.
?Isso torna nosso povo o que é, feliz em primeiro lugar, divertido, cabeça fresca, receptivo, festeiro. Mas também o torna presa fácil de um sistema totalmente deturpado, falido, corrupto, antiético. Somos ingênuos, fáceis, mansos. Realmente somos. Eu, por exemplo, nem sei como reagir. Aliás, nem sei que reação poderia ser eficaz. Olho para todos os lados e não vejo uma luzinha sequer. Não adianta falar em colocar todo o mundo na cadeia, já que ela não comporta, não resolve, não funciona.
Círculo vicioso
?Se não adianta botar na cadeia, não adianta melhorar o judiciário, já que o resultado seria mais gente na cadeia inútil. Se não adianta melhorar o judiciário, de que adiantaria uma polícia mais honesta se isso só faria aumentar as demandas do judiciário, que mal dá conta do que tem. Se não adianta uma polícia mais efetiva, por que esperar uma Secretaria de Segurança ope-rante? Isto é, podemos continuar com o casal incompetente e aproveitador de governadores, pois isso não mudaria nada.
?Na verdade, como diria um amigo, não é possível chegar ao ponto em que che-gamos sem um planejamento. As pessoas devem ter feito uma reunião, traçado objetivos e foram muito competentes na admi-nistração de estratégias e táticas. Se não, como explicar a sucessão de péssimos go-vernos que tivemos nos últimos 30 anos? Como explicar a debandada de nossa economia, gerando um problema mais acentuado no Rio de Janeiro? Como explicar o descaso com o turismo, nossa fonte natural de riquezas? Ainda falta tirar a Petrobras e a TV Globo daqui. Mas, calma, nada como um dia após o outro. Quem disse que não pode ficar pior do que está? Olhando para as favelas, cidadelas de um outro país dentro do nosso Estado que atendem a um poder paralelo, fico pensando: qual a alternativa que a juventude dessas cidadelas tem pela frente?
?A melhor que lhes surge é o crime, que lhes proporciona uma mínima expectativa de vida melhor. Assim, o crime compensa. Puxar o gatilho é um mero detalhe que não muda uma vírgula na vida de quem puxa e pode acabar com a vida de quem está do outro lado. Pois é, o último mês está realmente com cara de último mês. E quem sair por último, nem precisa apagar a luz, ela já vai estar cortada mesmo.?
O céu azul tinha escondido da minha percepção o estado das coisas. Nada é o que parece.
*J. R. Duran, 52, é fotógrafo e torce por dias melhores no Rio. E no mundo também. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br
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