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Angola em festa

Para um país que saiu da guerra há 4 anos, sua primeira atuação numa Copa foi um ato heróico

Angola em festa

em 21 de junho de 2006

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por Helcio Brasileiro*, de Luanda

Eu era a única pessoa na agência que não estava assistindo ao jogo entre Angola e Irão – como se diz aqui. Em toda Luanda, capital da Angola, provavelmente eu era o único entre os cerca de 4 milhões e meio de habitantes que não estava com os olhos grudados no monitor da TV. No momento em que o árbitro australiano Mark Shield apitava a partida no moderno estádio de Zentralstadion, ou estádio central, em Leipzig, eu estava ocupado analisando uma entrevista com um médico local sobre um novo tipo de cirurgia. Ouvindo um papo chato, difícil de entender tanto pelas termos médicos quanto pelo sotaque local.

De repente, mesmo com o fone de ouvido metido nas minhas orelhas e o olhar fixado no editor de texto do computador, um barulho muito alto vindo de fora me fez parar tudo o que eu estava fazendo. Tratava-se do primeiro gol da Angola numa Copa do Mundo. Tratava-se da primeira vez que a Angola disputa – ou disputava – uma Copa do Mundo. Claro que o gol foi marcado pelo jogador que a torcida pedia e o técnico não queria em campo: o atacante Flavio Amado, de 26 anos, que depois dessa manhã de quarta-feira fez jus ao sobrenome que carrega.


O torcedor Pedrito, um angolaninho figura

Mais tarde soube do gol do Irã. O empate deixou Angola fora da competição. Mesmo assim todos bateram palmas. Estavam felizes. Saíram honrados da primeira participação no mundial. Para um time que tem um goleiro sem time há seis anos e alguns poucos atletas jogando em times de expressão, a partida foi um ato heróico. Esse tal de futebol é danado mesmo. O país que saiu da guerra há quatro anos, que mistura português com inúmeros idiomas, que tem uma concentração de renda mais gritante que a do Brasil, onde Hummers desfilam nas poeirentas favelas, de uma hora pra outra se sentiu Nação, assim mesmo, com “N” maiúsculo. Luanda estava colorida: toda vermelha, preta e amarela. Torci pela vitória, mas (in)felizmente não pude vestir a camisa. Meu coração vascaíno não deixou.

* Hélcio Brasileiro é, como se pode ver, brasileiro, e trabalha como jornalista free-lancer em Angola

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