por Alê Youssef
Trip #265

Ao lado dos privilegiados caminha o acesso prioritário a um dos elementos centrais de desenvolvimento pessoal e social: a educação

Quando nos indignamos com a enxurrada de notícias que comprovam a falência ética da nossa classe política e sua sanha que não cessa por privilégios incontáveis e infinitos, lembramos da tradição patrimonialista brasileira e ainda do nosso histórico que vem desde as capitanias hereditárias e do processo de colonização.

Creio, entretanto, que para traçarmos uma arqueologia mais precisa do privilégio brasileiro, além dos fatores históricos que ajudam a explicar esse desbunde de corrupção que sempre vivemos, é fundamental acrescentarmos outra dimensão ao contexto.

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Um aspecto nefasto que caminha ao lado dos privilegiados é o acesso prioritário a um dos elementos centrais de desenvolvimento pessoal e social: a educação. Em um ambiente em que desigualdade e privilégios caminham juntos, a falta de possibilidades de desenvolvimento educacional de uma maioria constantemente oprimida é uma face estarrecedora de nossa sociedade.

Padrões educacionais

Ao diagnosticarmos o perfil dos políticos que ocupam cargos importantes na nossa república, notaremos semelhança entre uma grande parcela deles com os filhos dos senhores de engenho, dos industriais, profissionais liberais e alto escalão de militares e funcionários públicos que formaram ao longo dos anos o perfil da elite brasileira e que sempre tiveram a condição de privilégio educacional, que se destaca no cenário do caos social brasileiro e esteve presente em todas as épocas e tradições que moldaram historicamente os aspectos da nossa sociedade.

A dimensão educacional dessa nossa “desigualdade privilegiada” é também um contrassenso que nos provoca e nos arrepia. A elite educada não foi capaz de gerar os padrões éticos para melhorar a política brasileira e romper com os ciclos históricos de corrupção de desmandos. A educação, nesse contexto, serviu na maioria dos casos para facilitar o acesso ao poder e aprimorar técnicas de perpetuação dos privilégios da oligarquia nacional. E, além disso, os padrões educacionais que diferenciam essa casta nada têm a ver com a construção da ideia de uma sociedade justa, desenvolvida, sustentável ou com qualquer outro sinônimo de sucesso social independentemente dos diversos matizes ideológicos.

Fica na memória neste momento de desilusão a frase cantada por Herbert Vianna e os Paralamas do Sucesso. “Os 300 picaretas com anel de doutor” saqueiam o Estado brasileiro desde antes de o Brasil se tornar um país e para isso incluíram ao longo dos anos, entre os privilegiados, até quem os denunciou. Que nossa tragédia gere uma reação agora daqueles que pensam no Brasil em primeiro lugar, com ou sem anel de doutor. O maior privilégio é viver em um país decente.

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