Depois de décadas vivendo dentro mas distante da minha cidade, há meses estou de volta a São Paulo. Dentro porque estive recluso entre Penitenciária do Estado e Casa de Detenção, que são muito próximos do centro da cidade, por quase trinta anos. Distante porque a muralha e as grades criavam barreiras intransponíveis. É uma sensação estranha. Da janela de minha cela eu vi o metrô, o Shopping Center Norte e quase todos os edifícios dos bairros do Carandiru e Santana serem construídos. Mas era apenas um quadro móvel pregado na janela gradeada. Não tinha relação com minha realidade.
Passei alguns meses morando no Rio de Janeiro, antes de retornar. Foi uma preparação. Recentemente estive no Shopping Center Norte, no Parque da Juventude (que não é na Casa de Detenção coisíssima nenhuma; as muralhas existem e o espaço ainda não foi aproveitado), ando de metrô quase que diariamente e subi nos edifícios mais próximos às prisões. Pensei, alguma emoção, como amor, essa prece de quem não esquece; talvez ódio, essa dor que não cessa. Mas nada.
Aprendi que a satisfação ou o desespero de viver dependem do que acontece dentro de nós, unicamente. O espaço e o tempo não contam. Para nossos sentimentos, vale apenas o espaço de tempo em que estamos.
Em poucos dias entrei na paranóia paulistana. A preocupação constante com as condições do tempo por conta da rotina insegura do clima da cidade. Sol, chuva, calor, frio no inverno e verão e tudo acontecendo quase que simultaneamente. Agasalhos protegendo do frio pela manhã, que molham e suam. Despe de manhã para vestir pela parte da tarde, para cobrir, tirar e cheirar mal à noite. Haja desodorante e perfume. Parecemos franceses.
O paulistano volta para casa com blusas amarradas na cintura ou penduradas nos ombros e a indefectível bolsa. O guarda-chuva, essa excrescência cosmopolita, é peça importante e constante de seu vestuário. Quando não está armado para mal protegê-lo das chuvas (há muito São Paulo deixou de ser a terra da garoa para ser das chuvas e das enchentes), está, incomodamente, no braço, ou então no carro, molhando tudo ao redor.
Descobri que nós, paulistanos, adoramos praia, até com chuva; mas vivemos no asfalto, envoltos em fumaça. Paulista, essa catástrofe ecológica. Lotamos os shoppings centers aos fins de semana e quase não compramos nada. Olhar, ver preços e engolir em seco, tudo isso faz parte de nosso neurótico passeio. Isso porque nós temos orçamento mensal, quase uma contabilidade pessoal, com escritura e tudo. O paulistano vive querendo brincar lá fora, desde a infância. E não pode, o bicho-papão pode pegar.
Esquecidos de que nada é muito mais do que temos, seguimos a cada hora até que inicie o amanhecer. Vestimos os mesmos problemas de sempre; mendigos e meninos de rua que desaparecem nos bairros nobres (nobres não sei no que: serão os moradores?) para reaparecerem na mesma Praça da Sé de tantas décadas de gente aos pedaços.
Paulistanos do Bexiga, seus restaurantes, adegas com MPB ao vivo e o infalível coquetel de champanhe a arrebentar com os bolsos. Boates elegantes, danceterias tecno e os forrós da periferia onde se riscam as facas e a bala pode se perder dentro de qualquer um. Adolescentes desempregados a vagarem ou em grupos pelas esquinas dos bairros suburbanos, a perderem-se de suas expectativas de futuro, abandonados.
Voltei a ser o paulistano das imensas filas nas repartições públicas, hospitais, bancos, banheiros públicos, ônibus, das "quentinhas" distribuídas pelas instituições beneficentes (hoje é ONG; desculpem-me) e até nas casas lotéricas.
Irmão dessa gente tão minha que repara em tudo e sempre censores ou curiosos. Cuida tanto da vida dos outros que tropica nas calçadas, tromba no trânsito, mas não se interessa de verdade. Apenas presta atenção, qual fiscal da natureza a olhar todos e não ver ninguém.
Paulistano, esse povo fechado que anda pelas ruas centrais de testa franzida e olhar ameaçador de: "não vem que não tem". Ou então com frases e logotipos pregados nos carros para assustar: "vai pensando que é boy, vai…". Aquele mesmo que finge acreditar nas instituições públicas e, contraditoriamente, acusa o governo de não fazer nada quando observa homens válidos vendendo chicletes nos semáforos.
Paulista dos bandeirantes, esses filhos de degredados trazidos das prisões de Portugal por Martim Afonso de Souza e das índias por eles aprisionadas e estupradas. Dos anchietas, manoeis da nobrega e seus heróis de pés de barro. Das milhares de igrejas estilhaçadas pela periferia, em meio e desesperança de um povo estupidificado pela ignorância.
Cidade de milhões de brasileiros vindos de todas as partes do mundo, caótica e perigosa, amada pátria de meu coração onde a fúria fria das coisas me cega de tão súbita luz.
Voltei, tão apaixonado como antes, em busca não sei ao certo de que, talvez de ser eu mesmo e começar por onde me perdi.
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