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A Viela

O cotidiano da favela pelos olhos de nosso colunista

em 10 de outubro de 2005

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Ladeada por dois bares, o do Zeca e o do Leandro, lá está aquela viela. Pessoas turbulentas e de vidas complicadas por ela passam. Parece mais um quintal de todo mundo. Tem algo de insultante, de provocante em sua semi-escuridão. Terra sem dono, passagem da rua de baixo para a rua de cima que segue favela além.

Seu solo é fruto de várias camadas de cimento e pedras. Ao meio, a indefectível ponte. O que passa por baixo é esgoto puro que desce a favela, efervescente. Sua estrutura é de madeira e o solo cimento. As paredes da viela são as casas da favela. Os corrimões são feitos de ripas de madeira de feira. A prefeitura da cidade até que é solidária ao povo; não cobra água e nem luz do pessoal que mora na favela. Distribui leite, cestas básicas e a merenda das escolas é uma refeição. Mas bem podia construir uma ponte mais decente para aquela gente.

É uma subida que engana. Quando chega acima é que se sente. Desemboca na rua de terra da favela. Do outro lado da rua é um dos portões principais da escola. Uma grande escola municipal que recebe crianças do bairro e bairros adjacentes. Meu filho, Renato, de 10 anos, estuda ali.

Passa de tudo naquela viela. Principalmente crianças. Às saídas e entradas de horários e turmas, é criança que não acaba mais atravessando a viela. De todas as idades, e vêm cheias de energias. Às sete horas da manhã, são as vozes das crianças que unidas descem em eco, como milhares de passarinhos cantando. São eles que me acordam. Quanta vida, quanta esperança naquela multidão de seres tão pequeninos…

As mães vêm trazer e buscar, às vezes rodeadas por outros filhos menores. Descem e sobem os traficantes, laranjas e olheiros e ninguém sabe quem é. Sobem e descem apressados os viciados. Dá para ver a angústia nervosa de seus passos quando sobem a viela e o sorriso largo quando descem. São a riqueza da favela. Embora, de manhã cedinho, ao clarear o dia, quem desce a viela são os trabalhadores, com suas bolsas recheadas de marmita e roupa de trabalho. E é uma multidão que vai lotar ônibus atrás de ônibus em direção ao trabalho em São Paulo.

Garotas de todas as idades sobem e descem. Moro em uma casa cujo portão dá de frente à entrada de baixo da viela, num ponto privilegiado de observação. As adolescentes, recém-conscientes de suas sensualidades e poderes, empinam as bundinhas em shorts cavados e encaram o mundo dos homens com desdém estudado. Os rapazes e os homens barbados as devoram com os olhos, enchendo-as de importância.

Não se vê polícia na viela. Também, para quê? "Polícia é para quem precisa de polícia", como dizia Arnaldo Antunes. No passado a viela foi ponto quente do bairro. Vi vários cadáveres e gente ajoelhada tomando coronhadas. Hoje não ocorre nada de errado. Por exemplo, roubo e estupro dentro da favela não são permitidos. O povo é respeitado, embora haja ladrões e traficantes residentes.

Tem um terreno baldio que parece foi deixado desabitado com aquela finalidade. Vira e mexe aparece alguém morto e esticado ao fundo do terreno. A polícia vem buscar com o rabecão, faz perguntas somente pró-forma, sabe que ninguém dirá nada. Crime sem solução. A vida humana vale tão pouco…

Quando chove, complica. A viela transforma-se em um amassa barro com poças d’água entremeando. O povo vem de guarda e capa de chuva, tentando enganar o barro e pular poças. Não são bem-sucedidos. Algo de pastoso como o barro fica grudado na garganta, enquanto se enfia o pé na lama. Como trabalhar o dia todo com o pé enlameado? De qualquer maneira, tudo é adubo e estamos plantados no meio disso tudo.

Quando anoitece, a sua obscuridade só não é total pelas luzes das casas. Mas a circulação não cessa, chegam os trabalhadores. Eles nem conversam de tão cansados que estão. Andam em passo acelerado, tudo o que querem é chegar em casa. Pensam na molecada, na companheira e sorri. E sorrir é sempre alguma coisa muito importante. Está voltando para casa. Conseguiu, mais uma vez.

Fico olhando essa gente tão próxima e distante de mim, varrido, como num vendaval. Quanta coragem, quanta resignação! Posso não ter razão em um monte de coisas, mas acho que entendo um pouco das pessoas. Do que é fundamental na vida de cada um, no que faz suportável tudo o mais. A criança. Em cada uma dessas casas construídas com tanto esforço, tem muitas crianças. O tesouro mal escondido de seus pais. Isso os motiva e fortalece. O rico tem dinheiro, o pobre tem filhos.

O dia solta-se das asas escuras da noite. Um novo amanhecer e a viela já esta ativada. Logo virão os trabalhadores e em seguida as crianças. Eu aqui, de meu camarote especial, os vejo, namoro e amo escondido por trás do portão de ferro de minha casa.

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